<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741</id><updated>2011-04-21T17:53:52.045-07:00</updated><title type='text'>ALCATÉIA</title><subtitle type='html'>Um romance onde o homem irá se deparar com aquilo que ele mais teme: o animal selvagem interior que, vez ou outra, desafia seu intelecto, fazendo com que ele desista de sua própria humanidade para entregar-se inteiramente aos seus instintos mais sombrios.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>13</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741.post-9036316332234641463</id><published>2008-02-15T12:33:00.000-08:00</published><updated>2008-02-15T12:51:18.162-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R7X7LvZ1F-I/AAAAAAAAAD8/xllnDY8Zp8I/s1600-h/alcatÃ©ia+11.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5167312326599448546" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R7X7LvZ1F-I/AAAAAAAAAD8/xllnDY8Zp8I/s400/alcat%C3%A9ia+11.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;No dia que se seguiu àquele, Abel e Neméia dirigiram-se para a Igreja de Nova Friburgo. Ao deparar-se com o interior da mesma, apesar da gritante simplicidade do templo, Neméia pegou-se fascinada pelas esculturas e afrescos cristãos, alguns feitos por artistas das redondezas e outros vindos da Europa, que se encontravam junto ao altar principal. Tudo pareceu extremamente belo aos olhos da jovem filha de Alba, podia ela perceber uma aura posta sobre aquele lugar santo, como se uma energia dispersa no ar a aconchegasse, a abraçasse com carinho e dissesse com a voz suave que tudo ficaria bem.&lt;br /&gt;Após recusar o convite do comendador para sentar-se à frente do altar, Neméia e Abel escolheram um lugar discreto para assistirem à cerimônia a fim de não serem importunados pela bajulação de terceiros. E, mesmo estando muito distante do altar, Neméia o viu. Era Dante, ele havia ficado mais belo com o passar dos anos, estava de pé, próximo ao altar e bebia com extremo deleite cada palavra proferida pelo padre. Mas, naquele instante, naquele lugar, Neméia preferiu esquecer aquela marcante lembrança de sua infância pois Dante representava uma ameaça para seu disfarce, então, procurou ater-se às palavras do sacerdote e fingir que seu passado não estava bem ali, diante de seus olhos.&lt;br /&gt;Em seu sermão, o padre falou em almas queimando no fogo do inferno, em fornicação, luxúria. Ociosidade e nos caminhos que a Besta traça em vis armadilhas para a Humanidade. Falou nos Dez Mandamentos e o sexto deles, o &lt;em&gt;Não Matarás&lt;/em&gt;, tocou Neméia de uma forma íntima e pessoal. Deus havia ordenado ao seu rebanho que ele não cometesse homicídio, mas ela matava, drenava o sangue, devorava vísceras e comia os órgãos dos filhos de Deus. Neméia sentiu-se a própria Besta, segurou firme a mão de Abel com o desesperado intuito de que Deus perdoasse os dois assassinos que haviam adentrado sem convite sua casa.&lt;br /&gt;Com o término da missa, Neméia ergueu-se e caminhou rapidamente até a charrete. Percebendo que sua dona se encontrava sensivelmente transtornada, Abel tomou as rédeas em suas vigorosas mãos e os dois seguiram em silêncio na direção do Casarão. Chegando neste, Neméia ordenou que Abel permanecesse parado onde estava, no centro do salão principal, enquanto ela disparava na direção da biblioteca. Neméia passou muitas horas perdida dentre inúmeros livros, procurando algo que revelasse o passado criacionista de sua linhagem, precisava descobrir a qualquer preço se havia sido criada por Deus ou pelo Diabo. E, como o Barão Enéas Caronte era um apreciador do modo como seus semelhantes eram vistos pela óptica humana, Neméia não teve dificuldade em encontrar vários livros e artigos que tratavam de licantropia, obras literárias sobre os seres noturnos. Neméia leu os tópicos principais de cada obra, e, a cada nova página folheada, crescia dentro de si uma recusa maior por sua própria natureza, sentia revolver-se em seu âmago um misto de pavor e ódio por sua condição supostamente diabólica. Cansada de ler aquelas páginas reveladoras de como os hemanubis, hipoteticamente lendários, eram vistos pelo crivo humano, Neméia jogou-se de joelhos ao chão e ergueu os braços para o ar. Dentre lágrimas, implorou pelo perdão de um deus que não a tinha como uma filha, pois ela não era cria sua. Neméia ficou por algum tempo de braços suspensos e olhos cerrados, como se experimentasse uma espécie de êxtase religioso, aguardando qualquer manifestação divina, porém, ao perceber que nada iria acontecer, que suas súplicas não seriam ouvidas ou atendidas, lançou-se ao chão e derramou sobre o tapete a amargura de levar pelo resto de seus longos dias o peso de seus crimes e do desamor de Deus. Repentinamente, a jovem baronesa sentiu uma leve pressão sobre seu ombro, fazendo com que ela se erguesse assustada, irada contra aquilo que ela julgava ser a verdade, verdade esta encontrada nos romances fantásticos que preenchiam algumas prateleiras das estantes da biblioteca de seu pai. Neméia olhou ao redor, acariciando trêmula o lugar no qual havia sentido o toque e nada encontrou. Quem quer que a houvesse tocado, escondia-se atrás de uma inaceitável invisibilidade. O Casarão parecia esconder os segredos da morte.&lt;br /&gt;Decidida, revoltada, sentindo-se traída, Neméia desceu até o salão, onde encontrou Abel no mesmo lugar no qual o havia deixado, por mais de doze horas, de pé, no centro do salão. A baronesa ordenou que seu servo sentasse em uma poltrona enquanto ela mesma continuava de pé, eufórica. Percebendo a inquietude de sua irmã, Ortros aproximou-se matreiro como uma hiena a fim de verificar o que se passava, adorava quando lufadas de raiva e ira movimentavam o ar úmido e pesado do Casarão.&lt;br /&gt;_ Por que nos negaste a verdade, Abel? Nos escondeste isto por nossa vida inteira?! – bradou Neméia, sem ao menos esclarecer de que se tratavam suas queixas.&lt;br /&gt;_ De que falas, senhora? – quis saber um imparcial Abel, como se a visível agonia de sua ama não lhe causasse sensação alguma.&lt;br /&gt;_ De nosso pai! – gritou Neméia, quase sem conseguir dizer a palavra pai.&lt;br /&gt;_ O que tem Enéas? – continuou sem entender o homem-gárgula a razão daquele disparate.&lt;br /&gt;_ Não falo de meu pai terreno, falo do &lt;em&gt;Grande Pai&lt;/em&gt;, aquele que realmente nos criou... o Diabo. – disse, enfim, Neméia, quase com medo.&lt;br /&gt;_ De onde tiraste tal idéia? – perguntou Abel, intrigado com a ingenuidade de sua mestra.&lt;br /&gt;_ Eu li tudo nos livros, Abel! Chega de tantas mentiras! – esbravejou a jovem, tendo nos olhos a ira de mel que revelava sua natureza hemanubis.&lt;br /&gt;_ Nos livros da biblioteca?! – admirou-se Abel, tendo em seu tom de voz um ar de sarcasmo – Não seja tola, anjo meu! Aquilo não passa de literatura infantil, de fábulas que apenas servem para manter crianças humanas longe de confusões! Os adultos gostam de chafurdar na lama sozinhos, não gostam que suas crias façam o mesmo.&lt;br /&gt;_ Deus não nos ama, Abel... Deus quer que sejamos mortos... Pois nós... Nós fomos criados pela Besta! – Desabou Neméia em um notório abatimento, recobrando mais uma vez o azul profundo de seus belos olhos.&lt;br /&gt;_ Deus... Diabo... Esqueça tais entidades folclóricas, pertencentes às altas esferas do quimérico religioso, senhora. Esqueça estes títulos de detentores da ordem e do caos universal. Quem há de garantir que ambos realmente existem? Se um dos dois for real, nunca tive nenhuma prova de suas existências.&lt;br /&gt;_ E quanto à nossa longevidade, Abel? Deus dotou os outros animais de uma vida limitada... Se apenas nós atravessamos os séculos, é porque foi &lt;em&gt;outro&lt;/em&gt; quem nos criou.&lt;br /&gt;_ Vós não sois imortais, querida! Como tudo na natureza, Ortros e tu um dia sucumbirão ao sensual convite da morte. Mas não podemos negar que vós sois bem mais resistentes que os humanos, estes pobres coitados que perecem mesmo diante da mais branda moléstia. Vós sois como os lobos, e a força do lobo somada à força do homem é um sinal de poder extremo, é o elixir da longa vida que alimenta todo hemanubis.&lt;br /&gt;_ Elixir da longa vida?! Nós bebemos e comemos de humanos, Abel! Nos alimentamos de pessoas, de cristãos... Isto é demoníaco! É horrível!&lt;br /&gt;_ Neméia, já viste nos relatos de inúmeros historiadores a descrição de ilhas e continentes exóticos onde vivem homens que devoram homens. Há indícios de canibalismo em todas as partes do mundo, querida, inclusive, no dito Mundo Civilizado. Ao menos um hemanubis não devora seu semelhante. Vós não sois canibais, Neméia, sois antropófagos. Esqueça as tolas semelhanças anatômicas! Tu não és humana, ao devorar um homem, não estás a devorar um dos teus! O fato de vós viveis da carne humana é perfeitamente natural, a natureza por completo se devora... Isto é vida!&lt;br /&gt;_ Mas o que é vida para nós é a morte para eles! – repeliu a baronesa as argumentações de seu servo.&lt;br /&gt;_ E o que é vida para eles é a morte das boiadas, dos cardumes! Homens não se alimentam apenas de orações e bênçãos divinas, meu bem!&lt;br /&gt;Apesar da convincente impugnação de Abel contra o que ela dizia, Neméia teimava em negar-lhe o devido crédito, desassossegada, andando de um lado para o outro, esfregando as mãos, como se estivesse aos pés da cama de um ente amado a agonizar.&lt;br /&gt;_ Abel, de onde nós viemos? – prosseguiu a jovem, apreensiva.&lt;br /&gt;_ Do meio das pernas de vossa mãe? – ousou Abel, quase esquecendo sua condição de lacaio.&lt;br /&gt;_ Basta! Chega de cinismo! Deve-me a verdade! Deve-me respeito! – exasperou-se a baronesa diante da postura de seu servo.&lt;br /&gt;_ Eu não tenho tais respostas, Neméia! Do mesmo modo que surgiu o homem, surgiu o hemanubis, a própria natureza concebeu a ambos. Se agora tu decidiste dar crédito ao Deus dos homens, é prudente que acredites que Ele também vos criou.&lt;br /&gt;_ Cera de altar! – bradou Neméia como se houvesse recordado de um detalhe importante – Uma lança ou bala de prata banhada por cera de vela de um altar onde se haja celebrado três missas da noite de Natal é capaz de matar um licantropo... um hemanubis. Se os sírios são bentos por inspiração divina e se morremos com a prata, envolvida em cera santificada, encravada em nossa carne, mesmo sendo dotados de uma assombrosa longevidade, é porque a obra de Deus nos abomina!&lt;br /&gt;_ Caso queiras, ainda hoje roubarei a pia batismal para que tu te refresques com a água benta e também trarei alguns círios benzidos para iluminarem e aquecerem teu banho. Os ingredientes e talismãs dos diversos cultos católicos não possuem poder sobrenatural algum, talvez apenas o de pilhar o bronze dos tolos! É a prata que possui características capazes de envenenar vosso sangue. Não entendo bem porquê, mas acredito que se trate de uma reação alérgica de extrema gravidade. Caso a senhora acidentalmente tenha um de vossos delicados dedinhos ferido por uma lâmina de prata, teremos que amputá-lo de imediato, antes que a infecção se espalhe. Por isso vossos talheres são de ouro. Reconheço o mal gosto, mas trata-se de uma questão de segurança para meus senhores.&lt;br /&gt;_ E alho? Alho nos faz mal?&lt;br /&gt;_ Misturaste as fábulas, baronesa! – advertiu Abel, quase a sorrir do despautério de sua ama – Creio que o alho é um amuleto presente no mito do vampiro, do homem-morcego. A senhora não é um mito, é uma hemanubis.&lt;br /&gt;_ Quando deixarei de ver minha imagem no espelho?&lt;br /&gt;_ Outra vez a senhora encontra-se às voltas com contos vampirescos. Por que deixarias tu de ver teu reflexo no espelho, Neméia, não queres mais embelezar-te?! Ficaste deveras mui impressionada com o que leste!&lt;br /&gt;_ Como Ortros e eu nos transformamos em feras sem que para isso realizemos o ritual necessário? Por que, ao menos para nós dois, não é necessário que nos espojemos em uma encruzilhada a fim de assumirmos nossa forma verdadeira? E porque não perdemos a razão? Por que não nos transformamos em lobos de fato, como acontece com os outros humanos que com o Diabo também fizeram o pacto?&lt;br /&gt;_ Neméia, não há pacto algum! Q quanto à razão... Ai de ti sem razão! Já basta que há tempos a razão já tenha abandonado os homens. – bradou Abel, com tremenda ironia – E por que gostarias tu de transmutar-te em uma loba?! És tão bela, baronesa! Não consigo concebê-la sobre quatro patas, a uivar para a lua cheia!&lt;br /&gt;Sem mais encontrar meios de conter seu frenesi, Ortros irrompeu em gargalhadas, sem conseguir acreditar nas tolices que sua irmã gêmea estava a proferir.&lt;br /&gt;_ Estás a rir, meu irmão?! – enervou-se Neméia com a indelicadeza do barão – Olhe só para Abel! O que tu és, afinal, criatura?! – perguntou a baronesa, voltando-se para o homem-gárgula – como uma estátua de pedra se transforma em homem... em monstro... senão através de dotes satânicos?&lt;br /&gt;_ Devo isto a um distante antepassado teu, senhora. Enquanto os alquimistas desta Humanidade parva perderam suas vidas e toda a sua ciência tentando transformar chumbo em ouro, vosso ascendente descobriu uma maneira de transmutar pedra em carne, ignorância em sabedoria. Digamos que eu seja a própria pedra filosofal, Neméia... Belo e eterno.&lt;br /&gt;_ Logo descobrirão que somos lobisomens... vingar-se-ão de nosso voraz apetite sem piedade alguma!&lt;br /&gt;_ Tu és uma hemanubis, Neméia! Uma hemanubis! Não um licantropo! Não um lobisomem! Queres saber o que é um lobisomem? Contar-te-ei! – disse Abel levantando-se, como se a palavra lobisomem fosse uma ofensa à memória daqueles que o haviam criado – Diferentes de vós, os humanos tendem a apresentar problemas quando são gerados em um casamento consangüíneo, ou seja, entre parentes próximos. Um destes problemas, por ignorância dos homens, acabou sendo tratado como &lt;em&gt;a maldição do homem lobo&lt;/em&gt;, o que na verdade nada mais é que uma doença. Os pobres diabos portadores deste mal, quando sob o efeito da luz, sofrem uma destruição de seus tecidos mais expostos, como as pontas dos dedos e o nariz, ferindo estas áreas de forma violenta e dando o aspecto de queimação. No imaginário das pessoas, os dedos feridos assemelham-se a garras, e a face, que se torna peluda, a fim de proteger-se dos efeitos da luz, é reconhecida pelos tolos como a cara de um lobo. Como os que sofrem de tal moléstia mostram uma boca permanentemente aberta devido às lesões repetitivas dos lábios, andam por aí com os dentes descobertos, o que sugere a idéia de presas. Suas narinas, pelos mesmos motivos das lesões, se apresentam voltadas mais para cima, de orifícios tétricos e escuros, conferindo aspecto de focinho. Provavelmente, a fim de suprirem a deficiência de ferro em seu sangue, alguns destes doentes devem ter sido flagrados comendo carne crua ou bebendo sangue de animais, o que não deve ter sido bem recebido por uma humanidade que vê o Diabo até mesmo nas mulheres que se envolvem com política. &lt;em&gt;Voilá!&lt;/em&gt; Temos um autêntico homem-lobo para assombrar as mentes, despidas de intelecto e repletas de tolas crendices, da maioria dos homens. O que leste nos livros nada fala sobre os hemanubis, trata-se apenas de superstição, maldade e desinformação acerca de uma doença que transforma seus possuidores em párias amaldiçoados pela estupidez de seus iguais.&lt;br /&gt;_ Por que continuas a mentir, Abel? – desistiu, enfim, Neméia de arrancar a verdade que queria ouvir a qualquer custo daquela parede de pedra – Pensei que fôssemos amigos... Deus vingar-se-á de todos nós! Ouviram?! De todos nós! – gritou a baronesa, subindo às pressas a escadaria a fim de encerrar-se em seu quarto.&lt;br /&gt;Neméia passou dias e dias sem conseguir livrar-se da onipresença divina, que ela sentia como um olhar inquisidor a cobrir-lhe de vergonha. A idéia de danação não abandonava seus pensamentos, a açoitava sem trégua. Se Dante acreditava em Deus, era porque este realmente existia e não iria perdoá-la pelos assassínios. A condenação às penas do inferno a perseguiria, as trevas... e isto a assustava. Até mais que o medo que ela já sentia de sua própria natureza.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3046022492888605741-9036316332234641463?l=livroalcateia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/9036316332234641463/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3046022492888605741&amp;postID=9036316332234641463&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/9036316332234641463'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/9036316332234641463'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/2008/02/no-dia-que-se-seguiu-quele-abel-e-nemia.html' title=''/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R7X7LvZ1F-I/AAAAAAAAAD8/xllnDY8Zp8I/s72-c/alcat%C3%A9ia+11.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741.post-9042814401224132418</id><published>2008-01-17T12:29:00.000-08:00</published><updated>2008-01-17T12:36:01.294-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R4-8AnUVJaI/AAAAAAAAAD0/jfzAofIOE4I/s1600-h/igreja.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5156546817102783906" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R4-8AnUVJaI/AAAAAAAAAD0/jfzAofIOE4I/s400/igreja.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;_ Queridos, agora estamos prontos para nosso retorno à Nova Friburgo. – disse Abel aos seus dois mestres, uma noite após Ortros ter saltado do Lupercal para a longevidade.&lt;br /&gt;_ Não entendo... Não quero voltar àquela vila! Gosto de viver em Petrópolis e anseio por umafutura e longa visita à Corte. – protestou Ortros, rejeitando a idéia de Abel.&lt;br /&gt;_ Ainda somos jovens, meu irmão. Apesar de termos nos tornado quase tão poderosos quanto a própria morte, é prudente que nos mantenhamos distantes dos grandes centros. – argumentou Neméia, incerta da sinceridade de suas razões.&lt;br /&gt;_ Nova Friburgo matou nossos pais! – gritou Ortros, voltando-se para a irmã.&lt;br /&gt;_ Então voltemos por vingança! Que Nova Friburgo pereça, pague pelo sangue hemanubis derramado. – se impôs Neméia, convicta de que seu irmão não rejeitaria tão tentador pretexto.&lt;br /&gt;Ortros caminhou um pouco pela sala, pensativo, tendo o dedo indicador sobre os lábios e o olhar preso às suas lustradas botas de montaria. Após muito titubear, confabulando com seus sombrios pensamentos, dirigiu-se repentinamente decidido à Abel e ordenou-lhe:&lt;br /&gt;_ Providencie tudo, Abel. Após tantos anos, o Casarão Hefestos deve estar um pardieiro.&lt;br /&gt;_ Receio que não, senhor... Há meses venho providenciando vosso regresso. O Casarão provavelmente deve encontrar-se como no dia em que fora erguido. Também atrevi-me a substituir a mobília antiga por algo mais sofisticado e fiel ao estilo de vida da nobreza européia. Tudo já foi arranjado. Falta àquela maravilhosa casa apenas quem preencha-lhe os corredores de vida. – disse Abel, surpreendendo seus amos, tamanha sua destreza.&lt;br /&gt;_ Poderemos interagir com as pessoas da vila?! – exaltou-se Neméia, eufórica.&lt;br /&gt;_ Claro, agora o manto da longevidade os protege de fatalidades banais que eventualmente poderiam arrancar-lhes a alma dos ossos. – confirmou o servo o desejo de sua dona.&lt;br /&gt;_ Nos apressemos, Ortros! Devemos nos aprontar o quanto antes! – animou-se Neméia, pegando o irmão pelo braço e arrastando-lhe na direção da escadaria que levava aos aposentos.&lt;br /&gt;_ Isto também não será necessário, senhora. Vossos pertences já se encontram embalados e devidamente acomodados nos coche e nas mulas.&lt;br /&gt;Satisfeita com a espantosa habilidade de seu servo, Neméia largou do braço do irmão e correu até Abel, beijando com ternura o rosto do homem-gárgula.&lt;br /&gt;_ Em Nova Friburgo, quero que te passes por meu noivo! – sentenciou Neméia, tendo um primoroso sorriso ornamentando-lhe os lábios.&lt;br /&gt;_ Urra, que primorosa idéia! Pareceremos bem importantes! – bradou Ortros, apoiando a artimanha da irmã.&lt;br /&gt;_ Creio que, se vossos avós e vosso pai mantiveram-me na clausura e distante dos olhares humanos por tanto tempo, é porque meu comportamento talvez não seja tão convincente quanto minha aparência. Como de costume, deveria eu esconder-me no coche, junto aos baús. – advertiu Abel, como se tentasse compensar a inexperiência de seus donos acerca dos ardis humanos.&lt;br /&gt;_ Abel, discutirás agora nossas ordens? Neméia e eu não estamos a pedir-te coisa alguma, trata-se de uma determinação. Um casal de irmãos, e tu como cunhado de um e noivo da outra... Iremos parecer uma família! – vislumbrou Ortros a imagem que provavelmente passariam às pessoas.&lt;br /&gt;_ E então, meu estimado amigo? Concordas com nossa pequena traquinice? – quis saber Neméia, tendo os olhos dóceis e suplicantes voltados para o semblante de pedra do homem-gárgula.&lt;br /&gt;_ Eu obedeço. – respondeu Abel secamente, logo em seguida ausentando-se da sala para dar continuidade aos preparativos do retorno dos herdeiros Caronte à Nova Friburgo.&lt;br /&gt;A viagem que levaria a fome hemanubis de volta à Nova Friburgo se deu de modo que Ortros, Neméia e Abel chegassem à vila já quando a noite se fizesse presente, a fim de que Cronos não chegasse a seu destino escondido e protegido dos raios solares sob a câmara que ficava abaixo do banco do coche, cuidadosamente velada para que o efeito da luz do dia não pudessem feri-lo. Chegariam à vila em uma noite de domingo, Nova Friburgo estaria repleta de pessoas nas ruas, todos iriam assistir à caravana passando, seria perfeito.&lt;br /&gt;Durante o deslocamento de volta ao seu lugar de origem, aproveitando o tempo em que Ortros encontrava-se lacrado no compartimento que garantia-lhe proteção, Neméia ousava sorrir e pensar que surpresas aquela nova etapa de sua vida lhe ofereceria. Conviver em sociedade, conhecer a história pessoal de cada homem, de cada mulher, era um sonho de infância, que estava prestes a realizar-se. Talvez reencontrasse alguém especial, o único humano com o qual até aquele instante tivera contato, o pregador das matas, Dante.&lt;br /&gt;_ Olhem! É a comitiva do Barão Garnier! – gritou o moleiro assim que viu o garboso cortejo a aproximar-se da praça de Nova Friburgo.&lt;br /&gt;_ De que fala este pobre diabo, Abel? – perguntou Ortros, franzindo o cenho.&lt;br /&gt;_ Sois vós. Barão e Baronesa Garnier. Não pensavas tu que retornarias a esta vila trazendo em teu peito o brasão Caronte, pensavas? – brincou Abel, satisfazendo a dúvida de seu amo.&lt;br /&gt;_ Calculaste realmente tudo! És deveras um monstro, Abel! – alegrou-se Ortros com a nova mentira que a ferro e fogo deveria ser sustentada.&lt;br /&gt;Ao passarem pelo coração da vila, sob o curioso olhar do populacho, Abel tentou contratar um guia a fim de que este os levasse até o Casarão, tornando a farsa ainda mais convincente. Porém, nenhum homem sequer prontificou-se a fazê-lo, pois ainda temiam as histórias que eram passadas de boca em boca, ano após ano, ganhando ares de lenda local. Por sorte, o líder da caravana disse conhecer bem o caminho e – após beijar com devoção o crucifixo de madeira que trazia junto ao peito – o homem seguiu até o Casarão, através da mesma estrada que parecia não ter sofrido a ação do tempo. Chegando à sua morada e tendo toda a bagagem devidamente descarregada pelos negros que haviam contratado como serviçais, Abel pagou uma generosa quantia ao líder da comitiva e em seguida convidou seus mestres para que os mesmos o acompanhassem até o salão principal de sua &lt;em&gt;nova casa&lt;/em&gt;. Após o cessar de todo o movimento, os três impostores comemoraram a inocência dos moradores da vila, certos de que seu meticuloso plano havia logrado êxito. Era uma noite de domingo, a vila se encontrava em festa e nenhum dos três iria perdê-la. Após suprirem o apetite estimulado pelo cansaço da viagem, bebendo o sangue e devorando as vísceras de dois empregados e deixando outros três presos a ferro – fazendo com que os mesmos novamente experimentassem o costumeiro crime anterior à Lei Áurea – Neméia e Ortros subiram até seus aposentos a fim de fazerem um rápido asseio e vestirem uma discreta, porém vistosa, roupa de festa.&lt;br /&gt;Abel, sem sombra de dúvida, era extremamente meticuloso e prestativo. Além dos títulos de barão e baronesa que havia conseguido junto à Corte, também passara todos os dotes de Enéas Caronte para o nome de Ortros e Neméia, sem reconhecê-los como filhos de Enéas. Para conseguir tal façanha, Abel precisou subornar alguns homens importantes, matar tantos outros e deixar uns quantos bem assustados. Os belos e jovens irmãos Garnier agora eram os novos &lt;em&gt;suseranos&lt;/em&gt; de Nova Friburgo, já que, supostamente, todos os bens que antes pertenceram à família Caronte acabaram por ser transferidos para os Garnier a fim de saudar um exorbitante e antigo débito entre as famílias.&lt;br /&gt;Naquela mesma noite na qual consumou-se a falsa mudança, Neméia, Ortros e Abel tomaram a charrete e desceram até a cidade. Havia sangue e carne para todos os gostos, e Neméia não se alimentava mais de bezerros. De início, o processo de adaptação dos filhos de Enéas e Alba àquela nova realidade pareceu quase impossível, devido a quantidade gigantesca de pessoas. Não estavam habituados a tanto barulho, a tanto movimento, mas a astúcia de ambos acabou por orientá-los, lembraram-se então das aulas de etiqueta e das lições de conhecimentos gerais, pondo as mesmas imediatamente em prática. As pessoas os olhavam com curiosidade, tardavam em crer que aqueles três jovens realmente haviam ousado tomar como morada a &lt;em&gt;casa da besta&lt;/em&gt;. Todavia, em pouco tempo, a terrível lenda de Nova Friburgo acabou sendo ofuscada pelo brilho das jóias, pela primorosa indumentária, pelo indubitável ar blasé daqueles três. Todos passaram a desejar ter com eles, loucos para absorver-lhes a delicadeza de suas expressões e a distinção de suas formas. Dada certa hora, o falastrão de Nova Friburgo – um rico comerciante de gêneros alimentícios - chegou a discursar sobre a honra de receber em sua vila seus novos benfeitores, aqueles que trariam a riqueza do mundo moderno para cada casa, para cada cidadão. Após as belas e pré-fabricadas palavras do homem, os elegantes forasteiros agradeceram às boas-vindas sob uma salva de palmas, enquanto em seus pensamentos íntimos debochavam da ingênua hipocrisia daqueles pobres coitados, capazes de matar ou morrer apenas para ter por alguns segundos uma peça de ouro dentre as mãos. A noite transcorreu como a promessa de uma longa e nutritiva estadia, havia tantas pessoas que era praticamente impossível descobrir quais artérias dilacerar primeiro, quem dentre aqueles infelizes possuiria as entranhas mais doces, os intestinos mais apetitosos. No entanto, para Abel, a sensação de novidade que consumia seus donos não o afetava de modo algum, para ele, apenas o número de pessoas e a potência do alarde havia aumentado, nada mais. Mesmo estando de braços dados com Neméia, Abel sofria indiscriminadamente o assédio de todo o tipo de senhora, desde as prostitutas que deitavam com estivadores às damas daquela sociedade que sonhava em tornar-se uma grande centro. &lt;em&gt;Ele serviu de cocheiro à noiva e ao cunhado. Que galante... Deve ser costume europeu!,&lt;/em&gt; murmuravam as mulheres ao deitarem os olhos sobre aquele homem que, não sabiam elas, era incapaz de devotar-lhes qualquer sentimento, fosse este de devoção ou de desprezo.&lt;br /&gt;Todavia, o jovem noivo da Baronesa Garnier não era o verdadeiro centro erógeno das palpitações femininas, todas desejavam com maior ardor o donairoso Barão Ortros Garnier e seus sedutores olhos, talvez desejassem mais ainda sua boca mortal, de apetite longevo e insaciável.&lt;br /&gt;_ Abel, que construção é aquela? – quis saber Neméia, referindo-se a um prédio em particular.&lt;br /&gt;_ Já viste gravuras semelhantes, senhora. Trata-se de uma igreja católica. – explicou Abel, sem dar maior importância à curiosidade de sua ama.&lt;br /&gt;_ Chame-me Neméia, somos noivos, esqueceste?! – brincou a baronesa, apertando o braço de seu servo – E o que há lá?&lt;br /&gt;_ É uma espécie de templo onde as pessoas veneram Deus. – respondeu Abel, mecanicamente.&lt;br /&gt;_ Deus?! – exaltou-se Neméia, inevitavelmente lembrando-se de Dante – Leve-me até lá!&lt;br /&gt;_ E para quê? Faz-se tarde! A missa há tempos acabou e suas portas já se encontram lacradas. – conteve Abel o frenesi de Neméia – Amanhã, se assim quiseres, posso acompanhar-te para assistirmos a celebração da eucaristia.&lt;br /&gt;_ Amanhã, Abel. Amanhã. – sentenciou Neméia, ansiosa diante da possibilidade de reencontrar a única lembrança realmente feliz de quando ainda era apenas uma menina. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3046022492888605741-9042814401224132418?l=livroalcateia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/9042814401224132418/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3046022492888605741&amp;postID=9042814401224132418&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/9042814401224132418'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/9042814401224132418'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/2008/01/queridos-agora-estamos-prontos-para.html' title=''/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R4-8AnUVJaI/AAAAAAAAAD0/jfzAofIOE4I/s72-c/igreja.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741.post-2017120587858064995</id><published>2007-12-12T09:50:00.000-08:00</published><updated>2007-12-12T09:55:19.439-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R2AgeefLctI/AAAAAAAAADs/ZXnCZpr-ZNs/s1600-h/Olho+de+NemÃ©ia.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5143146482409108178" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R2AgeefLctI/AAAAAAAAADs/ZXnCZpr-ZNs/s400/Olho+de+Nem%C3%A9ia.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Devido a pueril imprudência de Neméia e à indiscrição de um velho mercador, naquele inverno de 1882, Abel e seus dois pequenos protegidos migraram para uma residência na cidade de Petrópolis. Aquele mês de julho ao qual chegaram à cidade estava especialmente frio e silencioso, o lugar parecia apenas criar vida durante os verões úmidos, quando toda a corte mudava para a Serra da Estrela, em busca do clima ameno e do conforto proporcionado pelo Palácio de Verão Imperial. Da janela da casa, Neméia passava tardes inteiras admirando o vai-e-vem dos escassos transeuntes pela avenida Koeler, ladeada por casarões e palacetes, tendo a fachada da Catedral de São Pedro de Alcântara numa de suas extremidades. Mas nada lhes diziam aquelas pessoas, nada significavam para ela. Seus pensamentos permaneceram, apesar da distância, todos voltados para seu humano predileto, para seu orador das matas, Dante. Ele parecia em nada diferir das crianças que tanto ela quanto Ortros haviam matado em Nova Friburgo, porém, Dante possuía algo especial, possuía um Deus que Neméia gostaria de conhecer, pois seu inocente amigo havia lhe falado que Deus também era seu Pai. Talvez a jovem filha de Alba houvesse se afeiçoado a Dante por ele ter sobrevivido, por não ter se deixado roubar durante a noite por Ortros, por ele ainda viver, apesar do assassino com os olhos-cor-de mel ter passeado por inúmeras noites pelas ruas de sua vila. A palavra &lt;em&gt;vida&lt;/em&gt; a fascinava, Neméia admirava as crianças que insistiam em viver intensamente, mesmo sabendo que possuíam uma existência limitada.&lt;br /&gt;_ Abel, quem é Deus? – quis saber Neméia subitamente, durante uma das aulas ministradas por seu servo.&lt;br /&gt;Intrigado com a pergunta, Abel fitou seus dois pupilos, tendo estampado em seus lábios minerais um sorriso maroto, e falou:&lt;br /&gt;_ De acordo com a crendice popular, é um senhor de barba branca, bata azul, sandálias de couro e auréola dourada que foi inventado por algum Papa a fim de que a Igreja tivesse garantidos seus dobrões.&lt;br /&gt;_ Deus é meus pai? – quis saber Neméia, folheando um livro, fingindo desinteresse.&lt;br /&gt;_ O quê? De onde tiraste tão despropositada idéia, senhora? – intrigou-se o homem-gárgula com a pergunta da menina.&lt;br /&gt;Neméia então dirigiu os olhos disfarçadamente na direção de seu irmão, como se a presença do mesmo impedisse que ela desse seqüência àquela incômoda conversa. Percebendo o desconcerto de sua mestra, Abel voltou-se para Ortros e, para felicidade do garoto, informou que ambos já haviam estudado o suficiente por aquele dia.&lt;br /&gt;_ Levar-me-á para a caçada de hoje? – quis saber o pequeno hemanubis antes de ausentar-se da sala de estudos.&lt;br /&gt;_ Seja feita a vossa vontade, nobre senhor! – respondeu Abel, recebendo do garoto um abraço antes que o mesmo saísse correndo na direção de seu quarto.&lt;br /&gt;Percebendo que enfim poderia consultar Abel sem que seu irmão a importunasse, Neméia aproximou-se ainda mais de seu servo, olhou ao redor como se temesse que Ortros estivesse a espreitá-los e então disse:&lt;br /&gt;_ O garoto que conheci na mata de Nova Friburgo... Disse-me ele que Deus é meu pai.&lt;br /&gt;_ Garotos às vezes falam muitas bobagens, querida... – explicou Abel, trazendo a pequena baronesa para junto de seu colo.&lt;br /&gt;_ Gostei dele, Abel... – revelou Neméia com um suspiro, deitando sua pequena cabecinha junto ao peito de seu lacaio.&lt;br /&gt;Tendo o queixo posto sobre os dourados cabelos de Neméia, Abel fixou seu olhar na direção da escadaria, como se temesse que Ortros os escutasse, como se realmente temesse pelo bem-estar do jovem amigo de sua mestra.&lt;br /&gt;_ É prudente que mantenhas teus sentimentos em segredo, senhora. Um dia retornaremos à Nova Friburgo, é um lugar pequeno, longe das vistas dos grandes centros, o que o torna seguro... É bem possível que teu irmão também venha a &lt;em&gt;afeiçoar-se&lt;/em&gt; por este garoto, bem sabes que teu irmão não suporta dividir coisa alguma, ele tem muito apetite.&lt;br /&gt;_ Dirás algo a Ortros? – perguntou Neméia, temerosa, fitando os olhos vítreos de Abel.&lt;br /&gt;_ Se é de vossa vontade que nada eu fale... Nada falarei. – respondeu o homem-gárgula com uma servil gentileza.&lt;br /&gt;_ Obrigada, Abel. – disse a garota enlaçando seus delicados braços no corpulento pescoço de seu escravo pessoal e confessor – Mas... Por que não posso voltar a vê-lo? Por que não posso ver ninguém? Através destas mesmas janelas, vejo as pessoas passeando unidas, a conversarem, a sorrirem... Desejo ser como uma delas! – revelou a pobre órfã seus anseios, tristemente sussurrados para dentro dos gélidos ouvidos de Abel.&lt;br /&gt;_ As pessoas de Nova Friburgo fizeram mal aos teus pais... É provável que aqui mesmo em Petrópolis ou em qualquer lugar do mundo os humanos tentem fazer o mesmo contra teu irmão, contra ti! – tentou justificar Abel a triste clausura na qual se encontravam seus pupilos.&lt;br /&gt;_ Entendo o medo e a raiva dos homens contra os de minha espécie... Nós os machucamos, Abel, merecemos seu ódio. Mas, mesmo assim... quero conhecer o mundo! Estas paredes não me bastam!&lt;br /&gt;_ Acalma-te, senhora. Em breve poderás usufruir dos prazeres do mundo dos homens. – revelou Abel, sem definir quando chegaria tal instante.&lt;br /&gt;_ Quando será isto?! – perguntou Neméia, tendo em seus olhos o deslumbrante tilintar da esperança.&lt;br /&gt;_ Ao chegar este dia... Saberás.&lt;br /&gt;Dez anos se passaram sem que Neméia voltasse a ver um outro ser humano. Para os moradores de Petrópolis, Abel nada mais era que um serviçal de uma nobre família européia a cuidar da propriedade de seus patrões, tendo reclusos e aos seus cuidados um casal de irmãos que padeciam de uma grave doença mental e que, por tal razão, jamais puderam ser vistos por nenhum morador da cidade de Pedro II. Uma estonteante e fenomenal beleza havia tomado conta do corpo de Neméia, seus olhos vazios e fascinantes tornaram-se ainda mais encantadores, a exuberância de uma bela mulher estendia-se sobre seu ser como relva em segura planície. Ortros sentia em sua carne a virilidade dos 18 anos de vida, com o passar dos anos, havia aprendido a disfarçar sua crueldade sob uma máscara de garbosa malícia e assim conquistado a confiança de sua irmã. Abel permanecia o mesmo, extremamente belo, com seus longos cabelos deitados sobre ombros vigorosos, seus olhos castanhos e petrificados, sua pele alva que não sofria a ação do tempo.&lt;br /&gt;Em uma noite na qual Petrópolis afogou-se em uma densa nuvem de neblina, Neméia acordou sentindo a garganta seca, ardente. Assustada, levantou a mão trêmula na direção do criado-mudo e tentou segurar a jarra com água, infelizmente, fazendo com que esta tombasse contra o chão e desperdiçasse o precioso líquido. Atormentada por aquele mal súbito, Neméia ergueu-se sôfrega da cama e cambaleou até a escadaria, agarrando-se ao corrimão e experimentando de uma perturbadora vertigem, tentando manter de pé o corpo que insistia em querer tombar. No instante em que Ortros abriu a porta, retornando de mais uma caçada, Neméia chamou pelo nome do irmão e em seguida desfaleceu, rolando escadaria abaixo. Assustado, Ortros correu até ela e deitou a cabeça da irmã em seu colo e, ao olhar para a mesma, percebeu nela uma beleza diferente e a desejou, porém, de imediato, procurou livrar-se daquele estranho pensamento e gritou por Abel. Ao ouvir o clamor de seu dono, Abel ausentou-se às pressas da biblioteca e correu a fim de auxiliá-lo, mas acabou por ser repentinamente atacado por um furioso Ortros transformado em fera, de garras afiadas e bocarra ameaçadora.&lt;br /&gt;_ Disseste-nos que os males do homem jamais nos molestariam! Por que ela convulsiona?! Por que mentiste?!&lt;br /&gt;Valendo-se de sua descomunal força, Abel livrou-se do feroz ataque e pediu que Ortros mantivesse a calma, para logo em seguida aproximar-se de Neméia e analisar suas pupilas dilatadas.&lt;br /&gt;_ Pegue-a nos braços e siga-me, Ortros! – disse Abel, se deslocando para os fundos da casa.&lt;br /&gt;_ O que há?! – gritou o homem-fera, já tendo sua porção humana restabelecida, mantendo viva em seu semblante a fúria dourada de seus débeis olhos.&lt;br /&gt;_ Está acontecendo, meu senhor!&lt;br /&gt;_ O quê?! – quis saber Ortros, já tendo o corpo convulsivo de sua irmã em seus braços.&lt;br /&gt;_ A longevidade! Temos que levá-la ao Lupercal.&lt;br /&gt;Abel guiou Ortros até uma porta secreta escondida por detrás de um bem trabalhado oratório cristão de madeira-de-lei e o conduziu através de uma íngreme escadaria até uma espécie de sarcófago feito em mármore, tendo sobre si uma pesada tampa de chumbo, agarrada à grande arca por presilhas daquele mesmo metal, o Lupercal. Demonstrando que sabia exatamente o que estava fazendo, Abel ergueu sem maiores dificuldades a pesada tampa e orientou Ortros a deitar o corpo desfalecido de Neméia dentro do mesmo. O robusto filho de Enéas atendeu prontamente às orientações de seu servo e descansou com cuidado o corpo de sua irmã dentro da bem trabalha câmara, entalhada com figuras de lobos por toda a sua estrutura. Abel então baixou a tampa lentamente e voltou-se para Ortros, tendo em seus lábios um sorriso que deflagrava que tudo havia corrido bem.&lt;br /&gt;_ Voltemos à casa. Explicarei-te o que está a acontecer.&lt;br /&gt;Trêmulo, Ortros acendeu seu cachimbo de ópio e experimentou de algumas baforadas a fim de acalmar-se, enquanto Abel preparava-se para explicar o que estava ocorrendo à Neméia.&lt;br /&gt;_ Ortros, - iniciou Abel, tendo sobre si os curiosos olhos de seu mestre – quando chega a uma certa idade, todo hemanubis entra em um estado de catalepsia, onde, apenas transcorridos sete dias, volta a si. Mas o retorno de um hemanubis de sua &lt;em&gt;Primeira Morte&lt;/em&gt; é brindado por uma transformação magnífica, por um novo estágio em sua existência. A frieza, a sedução, o instinto, se aprimoram com a morte da carne, e, concluído o processo, jamais voltará a envelhecer, pelo resto de seus dias. Após uma semana, quando a retirarmos do Lupercal, Neméia terá o viço e a beleza de uma jovem de dezoito anos por séculos e séculos, até chegar o dia em que nada mais sacie a fome e ela então padeça.&lt;br /&gt;_ Mas isto é uma afronta! – gritou Ortros, revirando com o pé uma rica mesa de centro – Por que isto ainda não ocorreu comigo?! Sou homem! Sou filho de Enéas Caronte! Por que a longevidade ainda não abraçou-me?! Por que não sou imune à luz do sol? Neméia é uma fraca! Não entendo porque tudo acontece primeiramente com ela!&lt;br /&gt;_ É porque ela é uma fêmea, Ortros. As mulheres sempre conquistam tudo antes dos homens, é como uma regra de etiqueta das leis universais. Até mesmo a maturidade... Desculpe-me! Até mesmo a longevidade uma fêmea hemanubis conquista antes dos varões. – explicou Abel, sem perder a oportunidade de valer-se de seu desmedido sarcasmo.&lt;br /&gt;Após sete dias, Ortros e seu servo desceram até a sala secreta sob a casa a fim de despertarem Neméia. Antes que Abel erguesse a tampa da cripta, Ortros segurou uma das mãos do homem-gárgula e perguntou como sua irmã estaria. Abel então sorriu maliciosamente e revelou que acreditava que Naméia não iria mais satisfazer-se apenas com a carne de cabritos e veados. Ao ouvir tal declaração, Ortros ajudou Abel a erguer a tampa do esquife e, ao ver sua irmã, constatou que tratava-se da mesma Neméia, todavia, encontrava-se misteriosamente diferente, uma outra mulher. Não havia como se explicar, de imediato percebia-se que ela havia passado por uma transformação, porém, esta metamorfose havia se passado em seu interior, em seu coração, em seus desejos mais inconfessáveis e reprimidos.&lt;br /&gt;A fim de despertar sua senhora, Abel passou delicadamente a mão sobre a testa de Neméia e soprou seus cabelos. Lentamente, a jovem abriu seus olhos, revelando aquela luminosidade dourada e intensa, para logo em seguida recobrarem o celestial azul. Com o zelo de um verdadeiro servo, Abel tomou o corpo de Neméia em seus braços e o retirou do Lupercal, enquanto Ortros assistia a tudo remoendo-se de inveja, odiava a irmã por esta ter experimentado a longevidade antes dele... E amava a mesma por ela ter dentro de si algo que ele queria desesperadamente, algo insólito.&lt;br /&gt;_ Como te sentes, querida? – perguntou Abel após deitar Neméia em sua cama.&lt;br /&gt;_ Tenho fome... – respondeu a jovem, ainda debilitada pela terrível experiência.&lt;br /&gt;_ Queres que te traga um leitão, ou quem sabe um carneiro? – perguntou Abel, certo da recusa de Neméia.&lt;br /&gt;_ Não... apenas hoje, traga-me uma pessoa, Abel... Será apenas hoje... – respondeu a filha de Alba, entorpecida pelo voraz apetite.&lt;br /&gt;_ A senhora começa a raciocinar como vossa natureza ordena. A longevidade aprimora dons e instintos. Agora, és uma hemanubis completa. – disse Abel voltando-se para Ortros a fim de ganhar do mesmo a gota de sangue que despertaria Licaon.&lt;br /&gt;_ Quanto a mim, Abel? Quando serei um hemanubis completo? – impacientou-se o rapaz, abrindo um golpe em seu polegar com a ponta de sua unha.&lt;br /&gt;_ Em teu caso, jovem senhor, apenas quando teu corpo desistir de abrigar uma alma tão perversa. – respondeu Abel, olhando para o sangue de Ortros a gotejar sobre a fina tapeçaria.&lt;br /&gt;_ Não me tente com elogios, Abel! Quanto isto se dará? Ainda quero ser jovem quando acontecer! – exasperou-se o impaciente filho de Enéas.&lt;br /&gt;_ Acalma-te senhor. Aconteceu a todos... Também acontecerá ao senhor. – encerrou o assunto Abel, tomando da mão de Ortros e sugando da mesma a gota de sangue que lhe pendia.&lt;br /&gt;Após dois anos, as palavras de Abel tornaram-se reais. Ortros experimentou de sua &lt;em&gt;Primeira Morte&lt;/em&gt; e, após sete dias de necrose de sua carne e alma, o jovem retornou dos mortos dando um salto para a longevidade. Já não era tão imaturo e sua crueldade passara a ter os requintes que apenas o coração de um lobo pode proporcionar. Seus olhos passaram a ser bem mais traiçoeiros. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3046022492888605741-2017120587858064995?l=livroalcateia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/2017120587858064995/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3046022492888605741&amp;postID=2017120587858064995&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/2017120587858064995'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/2017120587858064995'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/2007/12/devido-pueril-imprudncia-de-nemia-e.html' title=''/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R2AgeefLctI/AAAAAAAAADs/ZXnCZpr-ZNs/s72-c/Olho+de+Nem%C3%A9ia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741.post-6112776599575244559</id><published>2007-11-29T11:33:00.000-08:00</published><updated>2007-11-29T11:37:59.479-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R08VAX_mgAI/AAAAAAAAADk/tROMfv2tZqo/s1600-h/Dante.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5138348796037988354" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R08VAX_mgAI/AAAAAAAAADk/tROMfv2tZqo/s400/Dante.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Com o cair da noite, Abel pôs-se a procurar por Ortros a fim de que este lhe fornecesse uma gota de seu sangue para que Licaon pudesse se manifestar e sair à caça. Não encontrando seu jovem mestre nos lugares costumeiros, Abel dirigiu-se até a torre central, onde, olhando através da janela quebrada, descobriu o local onde seu dono havia se escondido. Sem que Ortros percebesse, Abel esticou metade de seu corpo para fora e observou por alguns instantes o pequeno barão sentado sobre o pedestal onde a gárgula se petrificava, em seguida, falou:&lt;br /&gt;_ Venha até aqui, Ortros. Preciso de teu sangue para poder saciar tua &lt;em&gt;fome&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;_ Pegue o de Neméia! – respondeu o garoto, fazendo birra e cruzando os braços.&lt;br /&gt;_Sabes que ela recusa-se, senhor, tem piedade das crianças... – justificou-se Abel.&lt;br /&gt;_ Eu deveria ter aberto aquele cortinado e enfrentado o sol! – falou com ar austero o jovem filho de Enéas.&lt;br /&gt;_ Caso assim o tivesse feito, estarias agora completamente às cegas. Entenda de uma vez por todas uma coisa, Ortros, nós, os servos, estamos há séculos dentre os teus, conhecemos tudo sobre vossa espécie. Caso queiras perpetuar tua existência, é bom que aprendas a escutar aquilo que digo. – advertiu Abel, sem perder sua postura servil.&lt;br /&gt;Ao ouvir aquilo, como se teimasse em desafiar as orientações de Abel, Ortros pôs-se de pé sobre o pedestal e ergueu os braços perpendicularmente a seu corpo.&lt;br /&gt;_ Hoje eu quero voar, Abel. – disse o garoto, tendo um débil sorriso em seu rosto e os olhos mergulhados no breu da noite.&lt;br /&gt;_ Lobos não voam, querido. – advertiu Abel como se a ousadia de Ortros o divertisse.&lt;br /&gt;_ Ícaro voou até o Sol... – valeu-se Ortros das aulas de seu lacaio sobre mitologia.&lt;br /&gt;_ Correção, querido, ele morreu tentando. – advertiu Abel sem dar muita importância ao que o garoto ameaçava fazer.&lt;br /&gt;_ Pularei daqui! – sentenciou o menino sorrindo, voltando-se para Abel.&lt;br /&gt;_ Se eu fosse o senhor, não faria isto. – admoestou o servo, apesar de seduzi-lo a idéia de observar até onde seu dono iria com aquele despautério.&lt;br /&gt;_ Por quê? Viverei por quase quinhentos anos! Como tu mesmo disseste, apenas morrerei antes de haver realmente chegado a minha hora caso eu seja ferido de um modo raro e especial. Creio que uma queda não se enquadre no leque de mortes surpreendentes. – disse Ortros, blefando com a própria vida.&lt;br /&gt;_ Ainda não dominas o dom da longevidade, senhor. A tua carne ainda é fraca, por isto continuas a amadurecer. Estás tão sujeito à morte quanto qualquer ser humano. – falou a voz da experiência.&lt;br /&gt;_ Falaste que eu poderia tudo, Abel! Eu quero poder tudo! – exigiu o mimado garoto.&lt;br /&gt;Sendo profundo conhecedor das manhas de seu mestre e já percebendo que aquela conversa não chegaria a lugar algum caso não fosse oferecido ao jovem barão algo capaz de fornecer-lhe prazer, Abel sorriu e deslizou um pouco mais o corpo para fora da janela, aproximando o seu do rosto de Ortros.&lt;br /&gt;_ Queres ir até a vila na companhia de Licaon? Acho que já estás em idade de dar teu primeiro passeio! – negociou Abel com o pequeno hemanubis.&lt;br /&gt;Ao ouvir o tentador convite, Ortros esticou os braços parara que Abel o tirasse dali. Dada a surpreendente metamorfose, Ortros montou sobre o dorso de Licaon, agarrando com firmeza os pelos da nuca da fera, que mais pareciam uma crina, e saíram os dois monstros noite a fora, escapando pela janela e escalando as paredes do casarão até chegarem ao solo e ganharem a mata, em busca de uma criança perdida, uma jovem alma que serviria de alimento para o jovem hemanubis. Ortros sentia o vento em seus cabelos e experimentava curioso uma diversidade gigantesca de novos aromas ao seu redor, um novo mundo parecia estar se abrindo para ele naquele instante, como a promessa da vinda de mais sofrimento.&lt;br /&gt;Chegando à periferia da Vila de Nova Friburgo, Ortros ordenou que Licaon permanecesse escondido atrás da velha escola pois gostaria ele de caçar sozinho. Como um animal doméstico, Licaon praticamente encostou o peito ao chão a fim de facilitar a descida de seu dono, que abandonou a montaria e imediatamente pôs-se a farejar tudo ao redor e a perambular pelas ruas sujas da vila, tentando captar dentre a imundície e o bolor dos miseráveis o aroma de sangue novo, para seu deleite e sobrevivência. E, no meio de toda aquela podridão fétida, Ortros sentiu um fio de inocência emanando através das frestas da janela de uma pobre casa, como o perfume das rosas que atraem sem querer o ferrão das vespas. O pequeno anjo aproximou-se e bateu contra a madeira sutilmente, a fim de não despertar indesejáveis convidados que viessem a perturbar seu primeiro jantar fora de casa. Seu alimento estava bem ali, ao alcance de suas narinas e de sua boca inundada de saliva e fome, mas todos pareciam dormir pesadamente, inclusive aquele que atraíra o olfato do filho de Enéas. Antes que a impaciência o fizesse invadir o casebre, Ortros surpreendeu-se ao ver um garotinho, ainda esfregando os olhos, abrir a janela. Personificava aquela criança tudo que o pequeno anjo mais ambicionava ingerir, levar para dentro de suas entranhas, absorvendo aquilo que ele jamais teria de verdade: pureza. O anjo fitou o garoto como se estivesse diante de um troféu, seus olhos reclamavam a desejada carne, sua boca amarga dizia &lt;em&gt;sim&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;_ Quem és tu? – quis saber a pueril vítima.&lt;br /&gt;_ Chamo-me Ortros. Vivo no Casarão Caronte, no alto da colina. – revelou o pequeno barão, sem se importar com as advertências de Abel acerca da importância daquele segredo. Afinal, o pobre menino não passaria daquela madrugada.&lt;br /&gt;_ Tu mentes! Não mora ninguém lá! Aquele lugar está repleto de fantasmas e outras criaturas do mal. Muitos homens já viram ali coisas de assustar defuntos. – disse o pequeno, fazendo o sinal da cruz.&lt;br /&gt;_ Acreditas mesmo que estou a inventar balelas? Olhe para mim... Pareço um menino plebeu? – falou o jovem barão, girando sobre os próprios pés.&lt;br /&gt;O garoto analisou cuidadosamente os trajes de Ortros e, vendo que aquele estranho visitante noturno realmente não se vestia como um garoto comum, perguntou:&lt;br /&gt;_ Moras mesmo no Casarão da Fera do Morro Queimado?&lt;br /&gt;_ Sim. – confirmou Ortros, fazendo uma saudação fidalga.&lt;br /&gt;_ E o que há no Casarão da Besta? – perguntou o pobre menino, sem saber que a morte certa o espreitava.&lt;br /&gt;_ Muitas brincadeiras! São tolas as histórias que inventam sobre minha casa! Elas servem para manter os adultos afastados, apenas crianças podem viver lá! Venha! Irás gostar! – disse Ortros, cativando com destreza sua pobre vítima.&lt;br /&gt;O mesmo maldito desejo de desbravar o desconhecido que me aprisiona dentre trevas acabou por sentenciar a morte daquela inocente criança. Ingênuo, o garoto saltou a janela de sua casa e entregou a sua à fatal mão de Ortros. Este observava atento os contornos daquele pescoço infantil, mordia seu lábio inferior e respirava ofegante apenas por pensar naquele doce sabor arterial, no maravilhoso banquete de carne que estava prestes a degustar, enquanto caminhavam para um lugar isolado, onde a fera pudesse alimentar-se sem ser interrompida. Inevitavelmente, os meigos olhos azuis de Ortros absorveram a animalidade dos glóbulos dourados, fatais, assassinos. Ao chegarem a um beco escuro e longe de prédios residenciais, faminto, Ortros segurou com força o braço do menino e perguntou:&lt;br /&gt;_ Como te chamas?&lt;br /&gt;_ Olavo... –respondeu o garoto, mergulhado naquelas íris de entardecer.&lt;br /&gt;_ Quero abraçar-te, Olavo. – disse Ortros, sem mais conseguir conter seu feroz apetite.&lt;br /&gt;_ Por quê? – quis saber o menino, quase vencido pela melodiosa voz de seu mal-feitor.&lt;br /&gt;_ Porque gosto de ti, és meu amigo. Não gostas de mim? – perguntou Ortros, derramando seu olhar dentro do semblante de Olavo.&lt;br /&gt;_ Sim.. És meu melhor e mais estimado amigo... – respondeu o pobre garoto, hipnotizado pela paixão que emanava daqueles olhos cor-de-mel, olhos de um predador. Ortros, instintivamente, naquele instante, acabou por descobrir que a caça de um verdadeiro hemanubis se dá através do feminino. Não serviria mais aos seus propósitos alimentares toda a brutalidade e agressão da qual se valia ao perseguir suas vítimas, a partir daquele dia, Ortros passaria a valer-se de uma suavidade cativante e sedutora, a fim de que sua insaciável fome se transformasse em deleite não apenas para ele, mas para os reféns de sua gula. Deliciosamente, os vigorosos dentes de Ortros penetraram a carne de Olavo, que mal sentiu sua pele sendo arrancada pela boca da fera que o devorava aos poucos. Agarrado à blusa de Ortros com mãos trêmulas, já não importava mais para o garoto se o amigo que o abraçava havia repentinamente se transformado em uma besta medonha, com pêlos espalhados por todo o corpo e grunhidos animalescos. Sabia ele que estava a morrer lentamente, mas não uma morte qualquer, estava ele a morrer para que sua alma tornasse ainda mais forte o espírito de uma divindade, de uma criatura etérea.&lt;br /&gt;Satisfeito, após jogar os restos mortais de sua presa em um velho poço e tendo sua forma humana restabelecida, Ortros retornou ao local onde havia deixado Licaon, este já o aguardava tendo um bezerro morto, pendurado em sua bocarra. Ortros olhou para o animal e sentiu naquele instante profundo desprezo pelos hábitos alimentares de sua irmã, em seguida, montou em Licaon, ordenando que este o levasse de volta ao Casarão. Desde aquele dia, os passeios de Ortros e Licaon passaram a se repetir por muitas e muitas madrugadas. Felizes as mães que não tiveram seus filhos saqueados durante a noite, por um ladrão de oito anos, com o coração frio e os olhos em brasa.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Anseio o dia&lt;/em&gt;. Gritou uma pequena voz dentro do pueril coração de Neméia em uma determinada manhã de sexta-feira. E, por ser conhecedora de sua imunidade ao sol, a filha de Alba resolveu por vontade própria livrar-se das travas e trancas da porta da cozinha a fim de aventurar-se pela mata ao redor de sua morada, de sua toca de isolamento e escuridão. Em um primeiro instante, o sol pareceu-lhe duas lâminas adentrando seus virginais olhos, deixando-a momentaneamente cega. Todavia, em momento algum pensou a jovem baronesa em desistir de sua empreitada, decidida, cambaleou por alguns metros sem saber para onde estava indo, tendo os dedos diante dos doloridos olhos, deixando que os mesmos paulatinamente se acostumassem à claridade. E, ao sentir que poderia abrir totalmente as pálpebras vacilantes, Neméia contemplou a natureza ao seu redor e sorriu satisfeita. De imediato, amou o dia, amou a luz e ousou amar-se, apesar de ser o que era. À noite, a vila lá embaixo não passava de uma confusão de frágeis e pequenas luzes, mas, durante o dia, pôde ela observar com estonteante luminosidade as casas, a torre da igreja, os campos floridos. Uma necessidade crescente de ver tudo aquilo de perto acabou por seduzir Neméia e convidá-la para um passeio mais ousado, em busca de novas experiências, a fim de conhecer as coisas das quais ela só ouvira falar através das histórias de Abel.&lt;br /&gt;Após cruzar o tapume que circundava a rica propriedade dos Caronte, valendo-se de seu corpo franzino para esgueirar-se dentre as toras de madeira e os ramos, Neméia seguiu por um bom espaço de tempo uma picada através da mata e, após muito caminhar, repentinamente, escutou uma voz que confundia-se com o canto dos pássaros e o som do vento embalando árvores e arbustos. Resolveu seguir aquela voz e assim descobrir a quem ela pertencia. De repente, Neméia o viu. Como Ortros, também era ele um menino, talvez fosse um pouco mais velho que seu irmão, quem sabe um pouco mais gentil que Ortros. O menino brincava sozinho, como se estivesse celebrando algo e sendo assistido por uma grande multidão. Curiosa, Neméia tentou aproximar-se sem ser vista, mas o som das folhas secas estilhaçando sob seus pequeninos pés acabou por denunciá-la.&lt;br /&gt;_ Quem és tu? – quis saber o garoto, ressabiado.&lt;br /&gt;_ Desculpe-me. Meu tio proíbe-me de falar com estranhos. – respondeu Neméia, envergonhada por sua intromissão.&lt;br /&gt;Tocado pela polidez de Neméia, o garoto aproximou-se dela e procurou olhá-la nos olhos, gesto este que ela recusou, tendo nos lábios um delicado sorriso.&lt;br /&gt;_ Meu nome é Dante. Creio eu que, se nos tornarmos amigos agora, não seremos mais estranhos um para o outro... – disse ele estendendo a mão para Neméia, recebendo da mesma uma singela recusa, seguida de um olhar bem mais acolhedor que um simples aperto de mãos.&lt;br /&gt;_ Neméia... Chamo-me Neméia. – disse, polidamente – Com quem tu falavas? – quis saber a jovem baronesa.&lt;br /&gt;_ Com ninguém. Estou praticando... Desejo tornar-me sacerdote de Nova Friburgo um dia. – disse o garoto, cheio de si.&lt;br /&gt;_ O que é um sacerdote? – perguntou Neméia, certa de que jamais ouvira falar sobre tal ofício.&lt;br /&gt;_ Não sabes o que é um sacerdote?! – admirou-se o menino – Bem... Um sacerdote é um homem que vive em função de Deus.&lt;br /&gt;Acanhada, Neméia encolheu os ombros e deixou que seu desejo de saber falasse através de si.&lt;br /&gt;_ Quem é Deus?&lt;br /&gt;_ Como assim quem é Deus? Ele é nosso Pai Todo Poderoso! Não conheces Deus? – assustou-se o menino com a estranha pergunta daquela garota que parecia vestida para o dia de sua primeira comunhão.&lt;br /&gt;_ Nosso pai? Como assim? Somos irmãos? – atrapalhou-se Neméia com as afirmações do pequeno pregador.&lt;br /&gt;_ Aos olhos de Deus, sim. – disse o garoto, olhando para Neméia com certa admiração.&lt;br /&gt;Saber que, de alguma forma, poderia existir amor fraterno incondicional entre aquele dócil menino e ela, fez com que Neméia se sentisse ainda mais à vontade em sua companhia, ao ponto de não policiar as próprias declarações.&lt;br /&gt;_ Posso contar-te um segredo, Dante?&lt;br /&gt;_ Claro. Este será então o meu primeiro segredo de confissão. Jamais será revelado por mim até que a morte venha levar-me desta vida. – disse o menino, imitando os gestos e a maneira de falar do padre de Nova Friburgo.&lt;br /&gt;_ Eu moro no Casarão Caronte. – revelou Neméia, sem dar-se conta dos riscos que aquela declaração oferecia.&lt;br /&gt;_ A casa no alto da serra?! – desdenhou o garoto, incrédulo – Há tempos ninguém vive lá. É um lugar amaldiçoado...&lt;br /&gt;_ É verdade, Dante! Creia-me! – insistiu Neméia, como se a crença de Dante em suas palavras lhe fosse algo precioso.&lt;br /&gt;_ Um velho mercador vive a tagarelar isto pela vila há anos, mas ninguém acredita nas histórias de um bêbado sem Deus no coração. Aquele lugar é a casa da Besta, qualquer cristão que dali aproximar-se receberá como penitência a excomunhão.&lt;br /&gt;_ Mas... Eu vivo lá. – teimou Neméia em sua perigosa confidência.&lt;br /&gt;_ Não é possível, caso isto seja verdade, tu vives em pecado, Neméia! – advertiu o pequeno, envolto em suas crenças religiosas.&lt;br /&gt;_ Preciso ir... Meu irmão e meu tio já devem ter percebido minha ausência... – impacientou-se a pequena baronesa, repentinamente certa de que, mais uma vez, havia falado demais.&lt;br /&gt;_ Volte amanhã para que possamos brincar! Preciso praticar mais um pouco. Os garotos da vila zombam de mim, não escutam o que digo. – pediu delicadamente o jovem aprendiz de sacerdote.&lt;br /&gt;_ Claro... – disse Neméia sem nenhuma convicção em seu tom de voz – Dante, por favor, não fale a ninguém sobre o que conversamos. Meu tio ficaria muito bravo... – pediu Neméia, temendo desapontar Abel.&lt;br /&gt;_ Preocupa-te apenas em retornar amanhã a este mesmo lugar. O resto, é segredo de confissão. – disse o garoto, levando as mãos em cova à boca, sussurrando gentilmente junto ao ouvido de Neméia.&lt;br /&gt;_ Agradeço-te. – disse Neméia cordialmente, logo em seguida tomando o mesmo caminho através do qual chegara aquela clareira.&lt;br /&gt;Assim que mais uma vez deslizou seu corpo pela sebe ao redor da grande casa, Neméia sentiu a potência de uma pesada mão sobre seu frágil ombro e, ao erguer seus pequeninos olhos, encontrou ela a face imparcial de Abel. Este agachou-se e mirou-a nos olhos, querendo saber por onde ela havia andado. Exaltada, Neméia contou a Abel que estava curiosa, que acabara cedendo à tentação de desvendar como eram as coisas durante o dia, suas cores e formas reveladas através da limpidez da luz. Abel escutou o relato de Neméia e tudo pareceu-lhe inofensivo, todavia, assim que a jovem filha de Alba pronunciou o nome de Dante, Abel pôs-se a cogitar acerca das terríveis conseqüências que aquele furtivo encontro poderia ocasionar. Saber a respeito da existência de um mercador que estava falando demais também despertara no homem-gárgula o mecanismo que o orientava a zelar pela integridade de seus donos.&lt;br /&gt;_ Senhora, para que lado o garoto foi? Preciso matá-lo, entende? Não posso permitir que ele permaneça vivo... Ele falará sobre...&lt;br /&gt;_ Não, Abel! – sentenciou Neméia – Não farás tu mal algum aquele menino! Proíbo-te de molestá-lo! Proíbo-te de servi-lo como festim a meu insaciável irmão! – fez a jovem baronesa valer sua autoridade.&lt;br /&gt;_ Seja feita a tua vontade, senhora. – disse, enfim, Abel, tomando Neméia em seus braços e retornando para o casarão.&lt;br /&gt;Quando a noite fez-se alta e a fome dominou por completo os interiores de seus donos, Abel, acompanhado de Ortros , deslocou-se até a cocheira a fim de que Licaon ganhasse vida. Porém, antes de transformar-se, Abel ajoelhou-se diante de seu dono e travou com o mesmo a seguinte conversa:&lt;br /&gt;_ Amo, sabes que fui criado para obedecer-te cegamente, não é mesmo?&lt;br /&gt;_ Sim, Abel. – disse Ortros, sem compreender ao certo o que aquilo significava.&lt;br /&gt;_ Sabes que sou incapaz de descumprir uma ordem tua, não sabes? – prosseguiu Abel, como se estivesse jogando migalhas para que Ortros o seguisse até seu propósito.&lt;br /&gt;_ O que pretendes com tantas voltas, meu bom amigo? – quis saber o astuto garoto.&lt;br /&gt;_ O que tu me mandarias fazer caso soubesses que um humano sabe de nossa existência? Que um humano sabe que vivemos no Casarão Caronte? Que ordens daria-me tu se este humano oferecesse alguma ameaça à tua segurança e a de tua irmã?&lt;br /&gt;_ Ordenaria-te que o matasse! – falou Ortros, sem hesitar.&lt;br /&gt;_ Pois esta pessoa existe, senhor... Um mercador... Provavelmente um velho beberrão com o qual eu tenha negociado algumas vezes. Este infame certamente deve ter seguido-me em alguma ocasião e descoberto onde vivemos. De nada valerá agora o dinheiro que pago aos ciganos para espalharem boatos escabrosos sobre nossa morada... Se o mercador continuar a falar, as pessoas ficarão curiosas, perderão o medo, descobrirão que vós sois filhos de Enéas e Alba, matar-te-ão e à tua irmã caso algo não seja feito com urgência.&lt;br /&gt;_ Tome logo de meu sangue, Abel! – disse Ortros ferindo seu polegar com a ponta de um canino – E traga-me o coração deste canalha. Quero provar que sabor possui a carne de um patife!&lt;br /&gt;Após Licaon surgir, Ortros retornou para o salão principal da grande casa a fim de aguardar enquanto seu servo lhe providenciava uma criança com sangue quente e apetitosa carne, e, quem sabe, como sobremesa, o músculo cardíaco de um tolo mexeriqueiro. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3046022492888605741-6112776599575244559?l=livroalcateia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/6112776599575244559/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3046022492888605741&amp;postID=6112776599575244559&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/6112776599575244559'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/6112776599575244559'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/2007/11/com-o-cair-da-noite-abel-ps-se-procurar.html' title=''/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R08VAX_mgAI/AAAAAAAAADk/tROMfv2tZqo/s72-c/Dante.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741.post-6625817065318011354</id><published>2007-11-21T11:31:00.000-08:00</published><updated>2007-11-21T11:33:25.806-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R0SH-H_mf_I/AAAAAAAAADc/_8mBK8bj86M/s1600-h/mÃ£o.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5135378976476659698" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R0SH-H_mf_I/AAAAAAAAADc/_8mBK8bj86M/s400/m%C3%A3o.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ao completarem um ano de vida, os filhos de Enéas e Alba passaram a ser alimentados de pequenos animais silvestres trazidos por Licaon, os quais eles seguravam dentre as mãozinhas, arrancando penas e pêlos, rasgando a pele de suas presas com seus dentes aparentemente tão frágeis, porém, capazes de demonstrar toda a ferocidade de um autêntico hemanubis. Das pequenas criaturas, bebiam o sangue com deleite, experimentando intenso prazer ao sentirem cada uma delas debatendo-se, lutando inutilmente por sobrevivência. Apesar de todo o terror que cercava e mantinha vivas aqueles dois seres, dotados de uma natureza distinta da humana, para a velha Zarina, tentar deixar de amá-los, seria de um esforço tolo e inútil. A escrava alforriada tornara-se indiferente ao fato de seus afilhados alimentarem-se de sangue e carne crua, afinal, já não sofria mais com os gritos das vítimas, com os pedidos de ajuda, com os lamentos que ecoavam pelos corredores da grande casa dia e noite. Ela ainda não sabia, em sua cegueira afetiva, que os clamores angustiados não tardariam a retornar.&lt;br /&gt;Certo dia, quando Ortros e Neméia já se encontravam com pouco mais de seis anos de idade, seus hábitos alimentares acabaram por mudar de vez. Licaon estava demorando a retornar da caça, os animais se encontravam escassos, até mesmos os cães da vizinhança já haviam quase todos sido devorados, mas a fome daquelas duas crianças não conhecia a palavra paciência, e, animais, por mais dóceis que sejam, quando privados de alimento, tornam-se perigosos até mesmo para a mão que os afaga. Quem teria atacado primeiro a pobre Zarina? Quem teria dado o salto que levou o outro gêmeo a repetir o gesto? Assustada, Zarina tentou livrar-se do ataque sem ferir seus pequenos agressores, e, ao conseguir dos mesmos ganhar uma certa distância, correu até a dispensa e lá trancou-se, apavorada, resfolegante, enquanto as batidas na porta e os bramidos, tamanha potência, anunciavam o quanto Ortros e Neméia não eram humanos. Aqueles grunhidos, aqueles urros selvagens...&lt;br /&gt;_ Zarina. Anda, abre de uma vez esta porta! – solicitou Abel no dia seguinte.&lt;br /&gt;Ainda em pânico, sentada sobre sacas de arroz e tendo os joelhos abraçados junto ao peito, a velha manteve-se em silêncio, temendo que o apelo de Abel não passasse de uma artimanha.&lt;br /&gt;_ Não seja infantil. – prosseguiu o homem-gárgula – eles já estão bem alimentados, nada farão contra ti.&lt;br /&gt;_ Eles tentaram devorar-me! Quero ir embora, não permanecerei nesta casa maldita nem por mais um único dia! – gritou Zarina, trêmula.&lt;br /&gt;_ Meu bem, acreditavas tu que eles não recordariam do sabor do sangue humano? Querias o quê? Que eles permanecessem a comer bichos da mata, como se fossem selvagens?! Zarina, os animais apenas serviram de treinamento, nossos filhos precisavam aprender a caçar... E aprenderam! Eles já estão bem alimentados, Licaon lhes trouxe um garoto bem robusto, Ortros e Neméia adoram-te, não te farão mal algum. Participaste tu do batismo de nossos pupilos. Quando senti o cheiro de teu sangue na boca deles, logo percebi que o instinto havia lhes presenteado com esta maravilhosa descoberta. Eles estão crescendo, Zarina. Não estás orgulhosa? – quis saber Abel, com sua inenarrável frieza.&lt;br /&gt;_ És realmente feito de pedra, rapaz! – disse Zarina, rangendo os dentes – Mas eu sou humana! Eu sou cristã! Sentiste na boca deles o odor de meu sangue?! Isto é bizarro, é imoral!&lt;br /&gt;_ O olfato de Licaon permitiu por muito tempo que eu não trouxesse para nossas crias nenhuma mulher apodrecida por varíola ou sífilis. Sangue ruim não os adoece, mas os debilita, deixa-os privados de exercer o máximo de suas potencialidades. Licaon...&lt;br /&gt;_ Pare de falar da gárgula como se tu e ela não fossem a mesma fera! Tu és Licaon e Licaon és tu, Abel! Sinto que enlouquecerei... Deixem-me partir!&lt;br /&gt;_ Zarina, por favor, perdoe-nos... – pediu gentilmente a jovem Neméia, tendo a voz embargada e lágrimas nos olhos.&lt;br /&gt;Em seu cansado peito, Zarina nutria em segredo uma certa predileção pela pequena Neméia, a menina era meiga e tinha os olhos profundamente azuis, como os de seu irmão e como eram os de sua finada mãe. Apenas quando a fera dentro de si despertava, a cor-de-mel dos olhos surgia como uma incandescente chama, uma fúria preciosa. Não havia mais como ela fugir da roda-viva Caronte, seu coração agora pertencia aquelas duas crianças como um dia pertencera a Alba.&lt;br /&gt;Neméia, ao ver Zarina abandonando seu esconderijo, abraçou-se a ama e pediu-lhe desculpas, fazendo-lhe mil juras de que jamais voltaria a feri-la. Ortros permaneceu sentado sobre a mesa, tento um olhar tão frio fulminando a mulher que dele cuidara quanto o de Abel. O jovem filho de Enéas não era em nada parecido com a sensível filha de Alba, e isto deixava a mucama de outros tempos tremendamente temerosa.&lt;br /&gt;Após aquele dia, enquanto Ortros se alimentava das entranhas das crianças que Licaon saqueava de suas mães na calada da noite, Neméia recusava-se a fazer o mesmo, acabara por tornar-se cada vez mais resistente aos seus instintos, o que certamente acabaria por deixá-la fraca e débil. Quase conseguira arrancar do insípido homem-gárgula uma centelha de surpresa a jovem filha de Alba quando em determinado dia, dentre lágrimas, abraçou-se a ele e ao mesmo solicitou:&lt;br /&gt;_ Abel, sinto que a fome está tornando-se incontrolável. Traz-me um daqueles animais para que eu me alimente dele esta noite...&lt;br /&gt;_ O que há, meu bem? De que animal falas, doce baronesa? Por que deixaste de comer destas bestas humanas? – perguntou Abel, trazendo a menina para junto de si.&lt;br /&gt;_ Aquele, que mostraste ontem à noite... – respondeu a criança, secando com as costas das pequenas mãos as lágrimas derramadas sobre seu angelical rosto.&lt;br /&gt;_ Um porco-do-mato? – disse Abel, tentando fitá-la nos olhos, incerto se aquele era realmente o desejo de sua jovem mestra.&lt;br /&gt;_ Sim... – confirmou a garota, como se sentisse vergonha do pedido que a seu servo fizera.&lt;br /&gt;_ Por quê?&lt;br /&gt;_ Não quero mais me alimentar de crianças... – explicou-se a menina, quase voltando ao pequenino pranto – Elas parecem comigo... e choram. Não gosto de vê-las chorando, sinto vontade de chorar também...&lt;br /&gt;_ O sangue das crianças é algo precioso, possui um sabor refinado... Já um porco-do-mato... – argumentou Abel, a fim de zelar pelo paladar de Neméia.&lt;br /&gt;_ Mas um animal não irá pedir para que eu não o machuque. Por favor, Abel, traga-me um porco-do-mato... – pediu a menina que não gostava de tratar Abel como um lacaio.&lt;br /&gt;Desde então, enquanto Ortros bebia do sangue e comia da carne de jovens almas que partilhavam de sua mesma idade, Neméia passara a alimentar-se de animais como bezerros e carneiros. Sem sombra de dúvidas, a carne humana possuía um sabor muito mais interessante, todavia, o sangue dos animais era bem menos sofrido.&lt;br /&gt;Aos sete anos de idade, Ortros já era dotado de uma refinada crueldade. Uma única criança seria o suficiente para alimentá-lo por mais de uma semana, mas sua inclinação para o sadismo parecia bem maior que seu apetite. Ainda muito cedo, aprendera o jovem filho de Enéas o prazer que herdara de seus ascendentes pela arte da caça. Ao menos uma vez por mês, Licaon levava duas ou três crianças para o Casarão a fim de que estas tivessem um determinado tempo para correrem antes que Ortros delas saísse em sua perseguição. O jovem filho de Enéas parecia sentir instintivamente que um hemanubis não depende nem de velocidade nem do elemento surpresa para capturar suas presas, mas sim, de resistência e perseverança. Ortros, biologicamente, parecia saber que esta há séculos era a estratégia de sua espécie para perseguir e pegar uma vítima. Talvez, devido às perversões alimentares de seu irmão, Neméia acabara por dele se tornar cada vez mais distante, preferindo ela a companhia das bonecas que Zarina confeccionava com estopa e retalhos de tecido. Porém, as bonecas não duraram muito tempo.&lt;br /&gt;Certa noite, quando Ortros se divertia pelos corredores do Casarão em busca de suas presas infantis, Zarina sentiu dentro de si um lapso de remorso e resolveu esconder uma das crianças em seu quarto. Ao descobrir o que a velha escrava havia feito, Ortros, ficou tomado de uma fúria que pouco condizia com sua tenra idade. Apesar de assustada diante da selvageria daquele menino despido, de rosto feroz e o corpo tomado por uma suave penugem negro-cinza, Zarina insistiu para que ele poupasse ao menos a vida daquela inocente garotinha, que fizesse aquilo por sua velha ama. Como se tomado por uma repentina benevolência, Ortros baixou os olhos e saiu do caminho de Zarina, tendo em seu semblante um brilho que refletia ao mesmo tempo vergonha e compaixão. Já mais tranqüila, Zarina tomou a mão da pequena e com ela caminhou até a escadaria a fim de conduzir a jovem presa para fora daquele pesadelo. Mas a liberdade não pode ser negociada tão facilmente com um ser que encontra na carne e medo alheios a satisfação para seus apetites. O corrimão não foi suficiente para evitar que o salto de Ortros sobre as costas de Zarina a mantivesse de pé, rolaram então o carrasco e a escrava diante do assombrado olhar da menina que manteve-se silenciosa, enquanto seus pobres olhos gritavam o mais ensurdecedor dos gritos.&lt;br /&gt;_ Abel!!! – gritou Neméia ao ver o irmão ainda posto sobre o corpo inerte de Zarina, tombado contra o rés-do-chão.&lt;br /&gt;_ O que há?! – perguntou Abel, deslocando-se às pressas para a grande sala.&lt;br /&gt;_ Ortros empurrou Zarina... Diga-me, Abel, que ela não está morta! – gritou Neméia, abraçada às pernas do homem-gárgula.&lt;br /&gt;_ Não empurrei!!! – protestou o pequeno hemanubis voltando seu rosto bestial para o semblante estremecido de sua irmã – Ela estava tão velha que caiu! Quem precisa desta maldita velha?&lt;br /&gt;_ Eu preciso! – bradou Neméia deixando com que o mel dos olhos e a cólera de seus dentes surgissem, enquanto mil pêlos de um delicado castanho brotavam em sua tensa nuca.&lt;br /&gt;_ Então pegue-a e leve-a para teu quarto! Tenho certeza que dará ela uma ótima peça para a tua coleção de bonecas! – lançou o perverso garoto.&lt;br /&gt;Abel olhou atenciosamente para o pescoço torcido e pernas quebradas de Zarina e, simulando um ar de desaprovação, voltou-se para Ortros e perguntou com seriedade:&lt;br /&gt;_ Fizeste mesmo esta bagunça, Ortros? Não minta para o tio Abel.&lt;br /&gt;_ Ela tentou enganar-me, Abel! Zarina era uma falsa, uma traidora! – justificou-se o insensível garoto.&lt;br /&gt;_ Menino travesso! Anda! Volte a brincar e evite novas confusões ao menos por hoje! – advertiu Abel como se o pequeno houvesse apenas quebrado uma peça de louça.&lt;br /&gt;Como um animal, Ortros subiu rapidamente as escadas posto sobre mãos e pés e atacou ferozmente a menina que sequer encontrou forças para correr. Neméia, tremendamente decepcionada com Abel, afastou-se dele chorando e perguntou:&lt;br /&gt;_ Por que tu nada fizeste?&lt;br /&gt;Sem saber o que responder à sua jovem dona, Abel ajoelhou-se diante dela e ofereceu-lhe o convite, tendo em seus lábios um incolor sorriso:&lt;br /&gt;_ Queres me ajudar a enterrar o corpo de Zarina? Poderemos presenteá-la com um belo funeral.&lt;br /&gt;_ Tu és igual a Ortros! – gritou Neméia, dando as costas para Abel e fugindo para seu quarto, onde permanecera trancada até o dia seguinte.&lt;br /&gt;Indiferente à dor emocional de sua irmã, e física, de sua refém, Ortros continuou sobre a garota, devorando fígado, rins, vísceras e o coração de sua pequenina vítima, muito além do que sua fome exigia, muito aquém do que ordenava seu sanguinário instinto, que a cada nova horrenda refeição experimentava um crescente prazer, a delícia mórbida de se viver em função da morte dos outros.&lt;br /&gt;A partir daquele evento, Abel percebeu que teria muitos problemas com Neméia. Pela primeira vez, no decorrer de toda a linhagem, um hemanubis havia procriado com uma humana. Neméia, apesar de ter herdado todas as características da linhagem da qual seu pai descendera, trazia dentro de si sentimentos tipicamente humanos, sentimentos estes que a faziam enxergar a raça humana como iguais, e não apenas como o gado a ser abatido. Abel não fazia idéia de que qualidades humanas poderiam afetar seus donos à medida em que os anos passassem, não sabia de que modo medir até que ponto a raça hemanubis havia sido danificada. Era bem provável que Enéas Caronte realmente houvesse praticado um delito irremediável.&lt;br /&gt;Os filhos de Enéas e Alba eram de uma inteligência tão notável, apesar de terem pouco mais que sete anos de vida, que muitas vezes fizeram por onde quase surpreender Abel e seu duro coração de pedra. Neméia era capaz de vencer Abel em qualquer jogo de tabuleiro e adorava divertir-se desvendando enigmas. Ortros sempre acabava por envolver Abel com perguntas curiosas, questionamentos que o homem-gárgula, em sua condição de servo, encontrava-se na obrigação de responder.&lt;br /&gt;_ Abel, por que os humanos são tão parecidos conosco?&lt;br /&gt;_ Comparações entre um hemanubis e um homem é mera perda de tempo, Ortros. Não se compara ouro a latão, é tolice. No que realmente importa, tu e Neméia em nada lembram a raça humana. Vós não sois pessoas. Um hemanubis é um ser especial. – explicou Abel com a didática de um autêntico mestre.&lt;br /&gt;_ Mas minha mãe não era uma hemanubis... – questionou o atento aluno.&lt;br /&gt;_ Não. – concordou Abel com a colocação de Ortros, afagando suavemente a cabeça do esperto garoto. – Mas vós sois.&lt;br /&gt;_ Neméia e eu a matamos ao nascermos? – quis saber o menino, sem demonstrar no olhar nenhum sinal de ressentimento.&lt;br /&gt;_ Quase. Na verdade, ela faleceu apenas na primeira amamentação. Não haveria como uma simples criatura humana suportar uma gestação como a que vos gerou... Vós bebíeis do sangue dela ainda no ventre. Reconheço que Alba era bem mais forte do que eu supunha.&lt;br /&gt;_ Não entendo. Meu pai era um hemanubis e também morreu... – lançou o desafio o atento discípulo.&lt;br /&gt;_ Mas, para que um hemanubis perca sua vida é necessária uma morte rara, que geralmente não acontece. – explicou Abel, como se buscasse tranqüilizar seu jovem dono quanto à sua longevidade.&lt;br /&gt;_ Abel, eu morrerei? – perguntou Ortros, com uma naturalidade espantosa.&lt;br /&gt;_ Sim, a natureza dotou todas as criaturas viventes de uma existência limitada. Porém, diferente dos humanos, permanecerás forte e jovem até o fim de teus dias, que deverão durar por volta de trezentos, quatrocentos anos de vida. Mas isto apenas se fores esperto o suficiente, se evitares que teus inimigos descubram que tu não és humano ou como podem ferir-te fatalmente.&lt;br /&gt;_ Há tantas coisas que não compreendo, Abel. Por que Neméia e eu devemos permanecer metade do dia aqui dentro e só podemos sair na outra metade.&lt;br /&gt;_ Devido à luz do sol, jovem senhor.&lt;br /&gt;_ Por que o sol poderia me matar?! Sou um Caronte! – bradou dentro do jovem a voz de seu sangue paterno.&lt;br /&gt;_ Existem alguns elementos na Terra que são sensíveis à luz do sol. A água evapora-se, a cera derrete e a carne de um hemanubis arde, revelando contra vossa vontade o que sois por baixo da pele. Exposto à luz do sol, teu corpo, a fim de proteger-se, revelaria teus pelinhos no vão dos dedos, no dorso das mãos, nas bochechas, no nariz... – explicou Abel, tocando cada uma das partes que citara, como se fingisse brincar.&lt;br /&gt;_ Exijo saber como é a claridade!&lt;br /&gt;_ Recomendo que não ouses. Não há nada de especial, é como uma grande, enorme chama de vela.&lt;br /&gt;_ Odeio quando não posso algo! Disseste-me que eu poderia tudo, Abel! Eu quero poder tudo!&lt;br /&gt;_ Calma, pequeno barão. Talvez tu possas...&lt;br /&gt;_ Como, Abel? – perguntou o garoto, tendo seus magníficos olhos azuis iluminados pela esperança.&lt;br /&gt;_ Venha comigo, vamos procurar por Neméia.&lt;br /&gt;Abel e Ortros desceram até o salão onde Neméia brincava com algumas bonecas e interromperam o organizado chá de mentira. O homem-gárgula sentou as duas crianças sobre uma poltrona e explicou que ambas iriam participar de um jogo, um jogo muito doloroso para quem perdesse a partida. Ortros e Neméia, por um curto espaço de tempo, ficariam expostos a um pequeno raio de sol que Abel deixaria passar através do grosso cortinado. Dada qualquer reação, ficaria evidente a tolerância ou não das crianças ao sol.&lt;br /&gt;_ Façamos isto de uma vez. – disse Abel após abrir uma tímida brecha dentre as cortinas e, em seguida, pediu que os garotos se aproximassem.&lt;br /&gt;Neméia foi a primeira a fazer o teste, após ser instruída por seu servo a passar a mão lentamente pelo brilho que, de modo sutil, invadia o Casarão. Receosa, a menina correu sua mãozinha sob a luz e nada aconteceu. A fim de certificar-se da imunidade da jovem baronesa, Abel solicitou que a pequena repetisse a experiência, e, mesmo após fazê-lo, Neméia permaneceu ilesa. Porém, chegada a hora do jovem anjo passar sua mão pelo filamento de luz, em um primeiro instante, sentiu ele um misto de satisfação e ansiedade, todavia, logo em seguida, a dor fez com que o mel de seus olhos brotasse e ele liberasse um terrível grito. Apesar dos apelos de Abel para que ele recolhesse a mão, Ortros insistiu em mantê-la exposta à claridade, queria a qualquer custo ser imune à luz do sol. Vendo o dorso da mão de seu gêmeo rapidamente ser tomada por uma quantidade anormal de pêlos grossos e esbranquiçados, enquanto de suas unhas transformadas em pequenas garras brotava o sangue, Neméia o puxou para que ele se livrasse do efeito mortificante dos raios solares. Contorcendo-se de dor, Ortros deitou-se no chão abraçado à mão que havia ficado deformada e, passado o mal-estar e controlada sua respiração ofegante, ergueu-se ele revoltado, aplicando subitamente um potente golpe com a mão ferida contra o rosto de Neméia, para logo em seguida correr na direção de seu quarto, tendo Abel a persegui-lo.&lt;br /&gt;_ O que fazes sob tua cama, jovem senhor? O colchão não te parece mais confortável? – perguntou Abel, após deitar-se ao lado de Ortros.&lt;br /&gt;_ Odeio Neméia! Por que ela não sentiu nada?! E quanto à minha mão? Por que ela ainda não voltou ao normal? – quis saber o garoto, olhando para aquela estranha pata de fera albina.&lt;br /&gt;_ Deverias ter me ouvido. Tua mão permanecerás assim pelo resto de teus dias. Bem... creio eu que teremos que providenciar um par de luvas, ou ao menos uma. – disse Abel com um sorriso, segurando a mão ainda dolorida de Ortros. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3046022492888605741-6625817065318011354?l=livroalcateia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/6625817065318011354/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3046022492888605741&amp;postID=6625817065318011354&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/6625817065318011354'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/6625817065318011354'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/2007/11/ao-completarem-um-ano-de-vida-os-filhos.html' title=''/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/R0SH-H_mf_I/AAAAAAAAADc/_8mBK8bj86M/s72-c/m%C3%A3o.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741.post-8661223056295476110</id><published>2007-11-09T06:51:00.001-08:00</published><updated>2007-11-09T06:54:49.521-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RzR0GIzRYXI/AAAAAAAAAC8/0HMHEAA7UwA/s1600-h/amamentaÃ§Ã£o.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5130853524272406898" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RzR0GIzRYXI/AAAAAAAAAC8/0HMHEAA7UwA/s400/amamenta%C3%A7%C3%A3o.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;_ Trata-se de algo muito simples, Zarina. – disse Abel após convencer a velha ama a segui-lo até a torre do casarão. – Fura-te com esta agulha e dá-me uma gota de teu sangue.&lt;br /&gt;_ Mas... para que isto?! – perguntou Zarina na tentativa de entender o que Abel pretendia com aquele extravagante pedido.&lt;br /&gt;_ Ora, faz-se tarde! Nossos filhos precisam alimentar-se... – respondeu Abel, correndo suas mãos gélidas pelos cabelos crespos e grisalhos da escrava.&lt;br /&gt;_ Com meu sangue?! Já não basta que eles tenham matado a própria mãe?! – protestou Zarina, negando-se a participar daquela nova rotina que se revelava mais bizarra a cada instante.&lt;br /&gt;_ Achas mesmo que uma única gota de sangue seria suficiente para alimentá-los? – riu-se Abel com a inocência da velha mucama – Não seja tola, Zarina. Pense em mim como um excelente ilusionista, transformarei tua gota de sangue em alguns litros deste precioso líquido...&lt;br /&gt;_ Deus meu! O que são aquelas crianças, Abel?! Vampiros?! Demônios sugadores da alma dos homens?! – questionou Zarina, benzendo-se com fervor.&lt;br /&gt;_ Vampiros?! – admirou-se Abel, liberando uma nova risada sem cores e totalmente desprovida de vivacidade – Se nossos anjos fossem de fato vampiros, já teriam tornado-se morcegos a bater asas por Nova Friburgo, à caça de alguns pescoços, contanto que os mesmos não levassem em volta uma réstia de alho.&lt;br /&gt;_Tuas ironias afligem-me, rapaz! – protestou Zarina, sentindo-se incomodada pelo constante sarcasmo do homem-gárgula.&lt;br /&gt;_ E sabes o quanto me exasperam tuas dúvidas e receios, escrava?! Fazes perguntas demais para alguém que, da mesma forma que eu, também foi lançado neste mundo para servir! Ora, pois! Vampiros! Cansam-me teus limitados pensamentos, todos voltados para um universo de mitos e fábulas infantis!– desdenhou Abel das crendices de Zarina – O que pensas? Que aquelas duas crianças aspirarão sangue através de orifícios minúsculos em seus caninos, parva criatura?! São recém-nascidos, ainda não possuem sequer dentes. Nossos jovens senhores beberão o sangue de suas vítimas através dos poros e da mama, assim como beberam do sangue materno mesclado ao colostro! – revelou friamente Abel, quase sussurrando, aproximando seus olhos vítreos do semblante assustado de Zarina – De suas vítimas, sorverão com tremenda gula o nutritivo líquido que mantém viçosos os corpos humanos, o que os tornará mais fortes, mais salutares, mais sábios e muito mais longevos que esta sub-raça supostamente criada por um deus hebreu. Mas, em um futuro próximo, Zarina, quando nossos pequenos seres angelicais desenvolverem uma dentição saudável, creio eu que apenas sangue não bastar-lhes-á para saciar o selvagem apetite ... Agora apressa-te! Preciso de teu sangue para que eu assuma minha forma bestial, irei caçar...&lt;br /&gt;_ Alba falou-me sobre isto... Transformar-te-á na estátua do lobo monstruoso e deformado?! – quis saber Zarina, sentindo calafrios percorrerem as fendas de seu espírito.&lt;br /&gt;_ Não terei como servir os desígnios de meus donos caso eu me prostre como uma escultura de pedra monstruosa e deformada sobre aquele pedestal, não é verdade, meu bem? – simulou Abel desaprovar os adjetivos utilizados por Zarina para ilustrar sua manifestação espectral – Assumirei a forma da estátua, mas serei de carne e osso.&lt;br /&gt;_ Matarás pessoas?! – quis saber a intimidada mulher, apesar de ter em seu íntimo quase a certeza da resposta para aquela questão.&lt;br /&gt;_ Ainda não. Mas é quase inevitável que eu o faça em breve, mas somente quando nossos protegidos tiverem idade o suficiente para delegarem-me tal ordem. Por hora, procurarei apenas por uma senhora de seios bem fartos, com terminais sangüíneos e vênulas vistosas e fáceis de serem rompidas, cujo sangue flua em abundância. Teus afilhados tratarão de matá-la... A mim caberá providenciar o banquete.&lt;br /&gt;_ Isto é horrível... É demoníaco! Não posso compactuar com algo assim... – disse Zarina, ameaçando com um gesto corporal abandonar a torre.&lt;br /&gt;_ Deixarás realmente que os filhos de Alba morram de fome? – protestou Abel, pondo um de seus braços entre a porta de saída e a aflição de Zarina – Os filhos pelos quais ela sacrificou a própria vida? Permitirás tu, que sempre dizias tanto amá-la, que a morte daquela pobre e inocente jovem tenha sido em vão? São crianças cândidas, mulher... Elas não têm culpa de serem o que são. Juro que não trarei alguém de boa índole para servi-lhes de alimento... Somente mundanas, pecadoras, mulheres de pouca fé. Prometo-te.&lt;br /&gt;Confusa e profundamente envolvida pelas palavras da gárgula humana, Zarina delicadamente furou seu dedo apontador com a agulha que trazia presa a uma pequena almofada e pingou uma gota de seu sangue sobre a mão de Abel. Este, com a mesma ânsia de quem tem fome, levou o sangue até sua boca e lambeu-o em um gesto quase libidinoso, dando início à medonha transmutação. Tomada de pavor, Zarina levou a mão ao peito e pensou em fugir, todavia, Abel a impediu com um grito, tendo a inflexão da voz destorcida pelas visíveis alterações em sua estrutura corpórea.&lt;br /&gt;_ Pára! Tu precisas estar atenta quando eu retornar... Traga as crianças. Como vês, eu já preparei o lugar... Serão necessárias duas gotas de teu sangue para que eu recobre minha forma humana... – instruiu Abel com tremenda dificuldade, enquanto seu corpo crescia assustadoramente dentro das roupas que acabariam por rasgarem-se antes mesmo do término daquela horrenda transformação.&lt;br /&gt;_ Virgem Maria! O que escondes sob tua alva pele, Abel?! Como saberei que não me atacarás?! –quis saber Zarina, aterrorizada diante do inominável espetáculo, tendo seu corpo colado à porta como se quisesse atravessá-la sem antes oferecer as costas àquele homem que velozmente se transformava em algo além da compreensão humana.&lt;br /&gt;_ Chame-me por meu nome bestial... Chame-me... Licaon! Apenas assim serei capaz de reconhecer-te!... Agora saia, querida... É muito... feio...&lt;br /&gt;Quando a metamorfose se fez completa, nem o mais sutil traço de humanidade se resguardava sobre a pavorosa criatura. Abel havia se transformado em um lobo de corpulência agigantada, mandíbula fenomenal, olhos febris e patas colossais. Em seu dorso eriçavam-se pelos grossos e nervosos, enquanto de sua boca escorria a saliva que parecia anunciar o feroz apetite de seus donos. Ele não era um hemanubis, mas sim, uma estátua viva, inspirada nas lendas que tanto falavam sobre os famigerados lobisomens. Já um autêntico hemanubis, em muito lembrava – mesmo tomado por sua forma animalesca – características tipicamente humanas, mas Licaon não, Licaon apenas inspirava um primitivo e incalculável medo profundo. Talvez àquela criatura dissessem respeito todas as histórias contadas em noites-de-lua-cheia, diante de olhares assombrados e ouvidos atentos. Que horror teriam experimentado aqueles que, em um fatídico dia de suas vidas, depararam-se com tamanha abominação, com o descomunal servo de um hemanubis? Posto de pé sobre as patas traseiras como um cão de circo, Licaon liberou um urro assustador, tão intenso que certamente tivera potência o suficiente para deixar aquela noite mais escura e fria. De um pulo insólito, Licaon atirou-se através da janela da torre, estilhaçando os cristais coloridos que ainda lhe adornavam, e ganhou a mata, farejando, vasculhando, seguindo em direção àqueles que um dia mataram seu mestre, a fim de que os mesmos servissem de alimento para os filhos do mesmo hemanubis ao qual feriram com a prata e destruíram com o fogo.&lt;br /&gt;A prostituição voltara a crescer em Nova Friburgo e já eram inúmeras as casas de tolerância, os bordéis, os prostíbulos. Rose Bijou havia se tornado um nome enterrado pelo tempo, uma louca a divertir os feirantes com suas piadas sobre a Igreja e suas destorcidas profecias acerca do retorno da Fera do Morro Queimado, que voltaria do inferno para beber o sangue da aristocracia e do clero. Padre Santiago também havia deixado de ser um problema para o desenvolvimento do meretrício desde o dia em que cometera suicídio, valendo-se de uma corda posta em volta de seu gordo pescoço a fim de livrar-se da melancolia causada pela cegueira psíquica causada pelas palavras de Enéas. Quantas mulheres vagando solitárias pelas ruas, todas presas fáceis, sem saberem que o diabólico caçador se encontrava à espreita. A fim de evitar que outras pessoas o surpreendessem durante o inevitável ataque, Licaon esgueirou-se pelas ruelas e becos mais imundos e sombrios, os mesmos onde ele certamente encontraria alguém do qual pessoa alguma sentiria falta ao ponto de queixar-se junto às autoridades locais.&lt;br /&gt;Zarina já havia acomodado as crianças no berço que Abel improvisara na sala da torre, ao lado de uma velha cama, e, temerosa, aguardava pelo retorno do diabólico servo. De repente, escutou ela os guturais rosnados a se aproximarem, anunciando que Licaon havia retornado com alguma infeliz usurpada dos braços da noite. Com a destreza de um felino, Licaon escalou a torre do casarão tendo um corpo desfalecido de mulher lançado como coisa inútil sobre seu animalesco ombro. Ao adentrar violentamente a janela e invadir a sala da torre, Abel, em sua forma monstruosa, não foi capaz de reconhecer Zarina. Enraivecida, a criatura largou sobre alguns baús a prostituta que ainda se encontrava desacordada e avançou sobre a velha escrava, sem que a mesma encontrasse qualquer oportunidade de esquiva.&lt;br /&gt;_ Licaon!!! – gritou Zarina no momento em que a fera a derrubou sobre o chão, tendo seu focinho frio e úmido a roçar-lhe o rosto, aspirando-lhe o odor do corpo, como se buscasse reconhecê-la.&lt;br /&gt;Trêmula, Zarina levou uma das mãos lentamente à almofadinha que trazia em seu busto, poupando-se de qualquer movimento repentino, e da mesma retirou a agulha que se encontrava espetada, para logo em seguida furar dois de seus dedos e passá-los com extremo cuidado nas presas assustadoras do medonho ser.&lt;br /&gt;Ainda em choque, a prostituta despertou e olhou ao seu redor, sem reconhecer em que lugar se encontrava. Correu então a mulher os olhos pelo recinto repleto de quinquilharias e tentou pôr-se de pé, sentindo seu corpo completamente dolorido pelo impacto que o mesmo havia sofrido ao ser largado por seu seqüestrador. De repente, a mulher novamente o viu, aquele mesmo ser que até então pensara ela limitar-se a uma terrível armadilha de sua própria mente. Orações, súplicas, nada fora capaz de servir-lhe de alento quando seus olhos vislumbraram o monstro que a atacara tomar a forma de um homem. Abel retornava aos poucos e sua vítima sentia a fatal lâmina da morte beijar-lhe as entranhas. Preferiu então a mulher tentar esconder-se por trás da velha mobília e descobrir o que pretendia seu raptor e a escrava que com ele confabulava.&lt;br /&gt;_ Traga-me algumas roupas, Zarina. – pediu Abel com uma gentileza incompatível com a brutalidade daquela cena, após assumir seu disfarce humano por completo – É prudente que te acostumes a ver-me em pêlo, não pretendo arruinar novas peças de meu rico vestuário sempre que nossos filhos tiverem fome. E quanto a esta janela?! Como não pensei que Licaon a destruiria? Enéas de certo me deixaria petrificado pelo resto de meus dias caso encontrasse seu belo vitral de cristais venezianos estilhaçado... Deveras, tratava-se de uma obra de arte aquela representação de Ofélia afogada dentre os nenúfares, após ser rejeitada por Hamlet.... Mas, já que Enéas, e muito menos Shakespeare, se encontram mais dentre os vivos e como a janela já se achava danificada, deixemos tais miudezas para lá. Da próxima vez, usemos a cocheira.&lt;br /&gt;Zarina retirou-se em silêncio da torre e passou cabisbaixa diante da mulher que ora chorava copiosamente, ora gritava por socorro, deixando Abel a sós com a prostituta. A mulher tremia como um animal acuado, todavia, seu pueril modo de esconder-se e desmedido pavor não foram capazes de despertar em Abel compaixão suficiente para que ele deixasse de agarrá-la pelos cabelos e a arrastasse para o lado da cama previamente instalada na torre, fazendo com que sua vítima se entregasse totalmente a um desespero inimaginável.&lt;br /&gt;_ Cala-te, infeliz! Queres assustar as crianças?! – ordenou Abel, sem demonstrar perturbação nenhuma em seu tom de voz, fazendo com que a mulher fitasse com estranheza o berço posto junto à cama.&lt;br /&gt;Temendo ser gravemente molestada, a mulher preferiu atender as ordens daquele homem sobrenatural e permaneceu sentada sobre o chão de pedra fria, tentando concentrar-se a fim de conter o choro, enquanto observava atentamente seu agressor. Naquele instante, teve ela certeza do quanto o diabo poderia ser sedutor, quase se pegou a admirar aquele corpo primoroso e repleto de vigor, aquela pele que simulava sobre si um falseado aspecto de delicadeza, aquele rosto equilibrado e belo que escondia por detrás dos olhos um demônio insensível. Então, na tentativa de salvar a qualquer custo sua própria vida, a mulher chamou a atenção de Abel e tentou com o mesmo negociar valendo-se da única moeda de troca que conhecia, a luxúria.&lt;br /&gt;_ Senhor... Escuta-me! Farei tudo que desejares... Já não sou tão jovem, os pudores ficaram para trás, em minha mocidade, entende? Despido como te encontras agora, poderemos poupar teu precioso tempo... Nada cobrarei por meus serviços. Não será nenhum sacrifício, para esta desgraçada que sou, deitar com vossa senhoria... És tão belo!&lt;br /&gt;_ Eu não quero teu corpo... – respondeu Abel, sem encarar a mulher.&lt;br /&gt;_ Então... Bem, tenho pouco dinheiro... E o que isto importa? Como sou tola! É mais justo que o senhor...&lt;br /&gt;_ Eu não quero teu dinheiro... – interrompeu Abel as palavras da mulher como se tudo que ela dissesse de nada fosse servir para salvar-lhe a vida.&lt;br /&gt;_ Nada fiz contra ti! Deixa-me viver! – gritou a mulher, certa da própria morte.&lt;br /&gt;_ Eu não quero tua vida... – revidou Abel, sem dar menor importância às súplicas que lhes eram dirigidas.&lt;br /&gt;_ Então... O que queres?! – perguntou a prostituta, sentindo o coração apertar dentro de seu inquieto peito.&lt;br /&gt;_ Bem... – disse Abel acomodando-se ao lado da mulher e afrouxando os laços que prendiam a parte dianteira de seu vestido – Quero apenas que tu amamentes meus filhos...&lt;br /&gt;_ Como?! Não posso... Jamais fui parideira... Não tenho leite... – protestou a mulher, sentindo o fôlego rarear em seus pulmões.&lt;br /&gt;_ Eles não se importam, querida...&lt;br /&gt;_ Eu vi o senhor... O senhor é o diabo!&lt;br /&gt;_ Talvez eu realmente o seja, mas, quanto a meus filhos, não te preocupes... São dois anjinhos. – lançou Abel, fazendo a mulher quase sentir nos ossos a frialdade daquele sorriso assassino.&lt;br /&gt;Ao retornar com as roupas que Abel havia solicitado, Zarina atirou-as ao chão e tapou os ouvidos a fim de não escutar os desesperados pedidos de socorro da pobre mulher. Sentindo-se perversa e cruel por compactuar com tão vil assassinato, a velha escrava preferiu mais uma vez ausentar-se da torre, deixando Abel vestindo-se com tranqüilidade e esmero, enquanto a prostituta a xingava de bruxa maldita e negra dos infernos.&lt;br /&gt;_ Livra-te destes trapos! – exigiu Abel, demonstrando certa impaciência.&lt;br /&gt;Repentinamente, um brilho acendeu nos olhos da inocente vítima. Procurou ela retirar as roupas às pressas, sem se importar mais com a excentricidade daquele cenário de horrores.&lt;br /&gt;_ Sim! Gostarás de meus serviços! Quando terminarmos, partirei e nada falarei sobre esta noite! Sou famosa dentre meus clientes casados por minha discrição.&lt;br /&gt;Após ficar completamente despida, a mulher atirou-se nos braços de Abel e tentou beijar-lhe a boca, gesto este que ele recusou terminantemente tanto pela ausência de libido quanto pelo receio de petrificar-se ali mesmo.&lt;br /&gt;_ Deita-te sobre a cama. – ordenou Abel, sendo prontamente atendido pela mulher, enquanto esta o observava partindo um velho lençol em quatro tiras.&lt;br /&gt;_ O que pretendes fazer, senhor? – indagou a mulher, sentindo a proximidade de seu terrível fim.&lt;br /&gt;_ Não gostas deste jeito? – perguntou Abel sentando-se ao lado da mulher e massageando-lhe os mamilos rijos, não por volúpia, mas por temor.&lt;br /&gt;_ ...Claro. – respondeu a mulher engolindo uma porção de saliva seca.&lt;br /&gt;Ao ver-se completamente vulnerável, tendo mãos e pernas imobilizadas por potentes nós, a meretriz chorou copiosamente e pediu que Abel não a matasse. Sem incomodar-se com o clamor da mulher, o homem-gárgula levou o dedo indicador aos lábios, sugerindo que sua refém fizesse silêncio. Em seguida, Abel caminhou até o berço e pegou o jovem filho de Alba em seus braços.&lt;br /&gt;_ O que farás?! – quis saber a mulher, envergonhada por sua nudez exposta diante da infantil presença.&lt;br /&gt;_ Até onde vai tua ignorância?! Não me escutaste?! Amamentarás meus filhos! – gritou Abel, trazendo para junto de seu peito a cabecinha do pequenino herdeiro de Enéas.&lt;br /&gt;_ Criatura abominável! Monstro infernal! Eu não tenho leite! – berrou a meretriz debatendo-se sobre a cama, na tentativa inútil de livrar-se das amarras.&lt;br /&gt;_ Detalhe meramente descartável, querida dama-da-noite!&lt;br /&gt;Sem mais perder tempo, Abel segurou o recém-nascido deitado sobre o peito da mulher. Instintivamente, o jovenzinho abocanhou o seio da prostituta que lhe estava sendo oferecido e pôs-se a sugá-lo com força, arrebentando os poros dos vulgares mamilos, deixando escorrer por sua faminta garganta o líquido vivificante e morno, enquanto a mulher gritava, experimentando uma indescritível dor.&lt;br /&gt;_ Como te chamas, meu bem?! – perguntou Abel, rindo friamente.&lt;br /&gt;_ ...Carola, senhor! Por Deus, poupa-me desta tortura! Que fel tem esta maldita criança nos lábios?! – admirou-se atordoada a mulher, como se descobrisse através do próprio sofrimento que não se tratava aquele menino de uma cria humana.&lt;br /&gt;_ Acalma-te, Carola. Dentro de alguns dias, quando não restar mais sangue algum em tuas veias, terás a tua tão ambicionada paz... Morrerás, querida.&lt;br /&gt;Saciado o pequeno filho de Enéas, teve então sua vez de satisfazer o apetite voraz a garotinha. Quando esta terminou de sorver sangue o suficiente para apetecê-la, Abel a deitou novamente ao lado de seu satisfeito irmão, que já dormia. Atordoada, Carola ainda sentiu as potentes mãos da Abel arrastando-a até a porta de um alçapão, onde ela foi atirada em um cubículo repleto de insetos asquerosos e lá trancafiada, para que noite após noite a tortura se renovasse, até que a vida desistisse de fazer morada em um corpo adoecido por descomunal padecimento.&lt;br /&gt;A meretriz de nome Carola veio a falecer e, quem sabe, encontrar alívio, apenas duas semanas após seu rapto. Talvez, se houvesse recusado comer dos restos que lhes eram oferecidos, a morte tivesse vindo resgatá-la bem mais cedo. E, devido ao inevitável passamento de Carola, o ritual que lhe arrancou dolorosamente a vida continuou a ser repetido por muitas e muitas noites. Através dos dedos furados de Zarina, Abel vez ou outra assumia a forma de Licaon e então corria Nova Friburgo e suas redondezas em busca do sangue que mantinha seus pequenos donos vivos. Durante cinco anos estenderam-se as caçadas, inúmeras mulheres desapareceram por todas as localidades próximas ao Casarão Caronte e nunca se descobriu coisa alguma acerca do sumiço de tantas pessoas. Todas elas não passavam de fantasmas banidos do convívio de seus iguais, criaturas invisíveis que apenas descobriram a razão de suas tristes vidas quando sentiram suas existências escoarem para dentro de dois famintos abismos. Era inacreditável como havia pessoas no mundo, como havia sangue o suficiente para manter vivos os dois filhos do anjo que um dia cometera o proibido ato de apaixonar-se por uma natureza que ao mundo só viera para empanturrar-lhe o mortal desejo de devorar um número indescritível de almas. Mas o sangue já não bastava para aquelas duas crianças dotadas do poder de arbitrar sobre vidas humanas. Quando elas descobriram o prazeroso sabor da carne, a morte acabara por ganhar dois nomes: Ortros e Neméia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3046022492888605741-8661223056295476110?l=livroalcateia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/8661223056295476110/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3046022492888605741&amp;postID=8661223056295476110&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/8661223056295476110'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/8661223056295476110'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/2007/11/trata-se-de-algo-muito-simples-zarina.html' title=''/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RzR0GIzRYXI/AAAAAAAAAC8/0HMHEAA7UwA/s72-c/amamenta%C3%A7%C3%A3o.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741.post-5641104591977432750</id><published>2007-10-30T12:14:00.000-07:00</published><updated>2007-10-30T12:18:13.664-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RyeDYT9GayI/AAAAAAAAACc/J_KvP5JBBN4/s1600-h/alba+grÃ¡vida.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5127211154481244962" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RyeDYT9GayI/AAAAAAAAACc/J_KvP5JBBN4/s400/alba+gr%C3%A1vida.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Alba não sabia ao certo se poderia realmente chamar de vida aquele cárcere de solidão no qual se encontrava aprisionada. O amor de Zarina e a presença constante de Abel não eram suficientes para livrá-la da sensação de completo abandono, de tristeza absoluta. Chorar e gritar às escondidas, em muitos dos quartos do casarão, protegida pela espessura de suas portas e paredes, já havia se tornado costumeiro e indispensável à manutenção de sua sanidade. Jamais conseguiria chamar de lar aquela morada da morte, aquele sepulcro onde agora ela jazia em vida. Haveria algum dia florescido amor pelos corredores daquele palacete? Teriam Amúlio Caronte e Réia Sílvia, pais de Enéas, experimentado em suas vidas amor autêntico? Alba temia passar o resto de seus dias enclausurada em uma tumba totalmente desprovida de qualquer lampejo de bondade, impregnada apenas de tortura e dor.&lt;br /&gt;_ Abel, o que houve com os pais de Enéas? – quis saber Alba certa noite, obtendo de seu servo as costumeiras respostas francas e sem o mínimo de hesitação.&lt;br /&gt;_ Amúlio e Réia... Eles eram irmãos carnais, gêmeos... Cuidei dos dois desde que nasceram. – respondeu Abel, causando grande espanto em Alba.&lt;br /&gt;_ De que falas, Abel?! Enéas é fruto de um incesto?! Então, por isso... Deus, a maldição do lobo! – admirou-se Alba, levando a mão à boca, transtornada e assustada.&lt;br /&gt;_ Juro que, caso eu tivesse senso de humor, agora certamente estaria às gargalhadas! – desdenhou Abel das fantasiosas elucubrações de Alba – Não há &lt;em&gt;maldição do lobo&lt;/em&gt; nenhuma, senhora, isto não passa de folclore, de histórias contadas por velhas ciganas. Enéas nasceu hemanubis por que seus genitores também o eram. É necessário que tu compreendas, Alba, que as regras sociais de tua espécie de nada servem para a linhagem da qual Enéas descendeu... Quando se vive em uma alcatéia, copula-se e procria-se com aqueles que são do bando: irmãos, primos, tios, pais, filhos... Desde que me lembro, a Alcatéia Caronte jamais permitiu que qualquer hemanubis de uma outra família viesse fazer morada em seu covil.&lt;br /&gt;Alba caminhou por seu quarto apreensiva, tentando fazer com que sua circulação sangüínea dissolvesse aquela história em algo mais fácil de ser digerido. Aquele não era seu mundo. Parecia-lhe uma tarefa árdua e praticamente impossível aceitar com naturalidade o grotesco universo que estava se abrindo diante de seus olhos como um pesadelo palpável, real. Mas, apesar de sua negação a tudo que estava ouvindo da boca do homem-gárgula, acabou por decidir escutar tudo de uma vez, não faria sentido continuar deglutindo aquela medonha história aos poucos, precisava tragá-la por inteiro, sem inúteis intervalos.&lt;br /&gt;_ Então, o que houve com eles, Abel? O que houve com os pais de Enéas? Retornaram para a Europa... Para junto de sua alcatéia?&lt;br /&gt;_ Não. Eles morreram. – respondeu Abel com sua gélida insensibilidade.&lt;br /&gt;_ Morreram...? Como? – condoeu-se Alba, apesar de não ter conhecido os falecidos pais de seu anjo.&lt;br /&gt;_ Enéas os encontrou na floresta do outro lado deste monte um dia após sua &lt;em&gt;lupercália&lt;/em&gt;... um dia após o futuro jovem barão de Nova Friburgo ter se tornado um hemanubis completo. Seus pais devoraram-se até a morte, atacaram-se ferozmente até que não houvesse mais meios de serem salvos pela incrível regeneração típica de um hemanubis. Não sei o que houve, eles nutriam grande estima e respeito entre si... Nem mesmo Enéas entendeu porque seus pais tiraram a vida um do outro.&lt;br /&gt;_ Creio que eles cometeram suicídio... Não suportavam mais suas próprias vidas e, então, decidiram morrer... – disse Alba, sentando-se sobre a cama a fim de restabelecer-se do impacto daquelas revelações.&lt;br /&gt;_ Bem, não sei dizer ao certo, senhora...&lt;br /&gt;_ Assassinatos, incesto, canibalismo, suicídio... Deus do céu! O que fiz de minha vida?! Como tudo isso pode ser verdade, Abel? – lamentou Alba, tendo os olhos marejados.&lt;br /&gt;_ &lt;em&gt;Quid verati est&lt;/em&gt;, Alba? Vamos, o que é a verdade? – perguntou Abel, sentando-se sobre à cama, junto à sua senhora.&lt;br /&gt;_ Eu não sei mais, Abel... – respondeu Alba, fitando os olhos sem vida de Abel e deixando que uma lágrima corresse por seu rosto belo e naufragado em mil lamentos.&lt;br /&gt;_ Acho que já conversamos demais, senhora. Irei ajudar Zarina com os afazeres domésticos. A propósito, faz muitas noites que não durmo, seria proveitoso caso a senhora permitisse que eu me petrificasse esta noite.&lt;br /&gt;_ E o que devo fazer...?&lt;br /&gt;_ Primeiro, precisarei de uma gota de teu sangue a fim de que eu recobre minha forma bestial, e, em seguida, apenas ingerir um pouco de tua saliva. Todavia, caso desejes ter a estátua de um belo mancebo a ornamentar o salão principal da Casa Caronte, bastar-me-á tua saliva, senhora, e tornar-me-ei a escultura de um deus pronta para encher os olhos de teus futuros convidados. – desdenhou Abel da solidão de sua dona.&lt;br /&gt;_ Por que brincas comigo? Não podes estar a dizer a verdade... – duvidou Alba das palavras do servo.&lt;br /&gt;_ Não te esqueças, Alba... Eu não minto.&lt;br /&gt;Após pedir licença e fazer uma reverência à sua senhora, Abel retirou-se do quarto. Alba então lançou-se sobre a cama e abraçou com todas as suas forças o travesseiro, como se tal gesto fosse capaz de trazer-lhe paz e conforto. Era inconcebível para ela, em sua tenra juventude, ter se tornado dona de tudo aquilo que um dia pertencera ao homem, ao ser, que outrora amara. Enéas era possuidor de muitos dotes, o que permitia que Abel deixasse o Casarão uma vez por mês, tomando o caminho secreto e inacessível – para aqueles que o desconheciam – através da mata espessa e, de suas rápidas viagens, sempre retornava trazendo alimentos, especiarias, jóias, perfumes, sapatos, roupas finas, vestidos... muitos vestidos. Mas todo aquele luxo não servia de consolo para a pobre amante de Enéas Caronte, sem o ar da presença de seu hediondo anjo enamorado, nada seria capaz de trazer-lhe consolação, de trazer-lhe alívio. Bastaria uma única palavra de Enéas e o coração de Alba tornar-se-ia novamente leve, sua ausência era um golpe cotidiano no peito da jovem Gobete, e seu silêncio, a mais ensurdecedora das vozes. Vagar pelos corredores do casarão, acabou por se tornar para Alba um hábito que dava-lhe o aspecto de uma sonâmbula trajada para uma festa na corte. E Zarina, perdida no turbilhão afetivo que prendia-lhe à sua afilhada, entregava-se à mesma triste sorte, a de viver na clausura, escondida do mundo, condenada a nunca mais manter o menor contato com outro ser humano.&lt;br /&gt;Com o passar das semanas, que arrastavam-se feito vermes assombrosos e gigantescos, Alba caiu doente. Pouco comia e cada vez mais freqüentemente recusava-se a sair da cama, encontrava-se anêmica e regurgitava qualquer comida ou líquido que viesse a ingerir. Zarina tentou de tudo, utilizou-se de todos os segredos de sua alquimia de cozinha, com seus chás e remédios caseiros, valeu-se inclusive de seus rituais pagãos e rezas africanas, mas nada parecia capaz de fazer com que Alba recobrasse a saúde. Enquanto Zarina encontrava-se completamente atordoada pela enfermidade de sua menina, Abel assistia a tudo com assustadora indiferença, como se soubesse ele que as tentativas da velha escrava de salvar a vida de Alba seriam todas em vão.&lt;br /&gt;_ Não te preocupes, Alba. Ficarás curada. – disse Abel certa noite após sentar-se ao lado de sua dona, aproveitando-se da ausência da velha Zarina, como se ele soubesse de algo que o discernimento de Alba ainda ignorava.&lt;br /&gt;_ O que tenho, Abel? – sussurrou Alba tendo seu rosto empalidecido e as pálpebras a tremularem sobre olhos cujas íris se encontravam escondidas.&lt;br /&gt;_ Aconteceu com todas, senhora, logo isto passará. Mas, não posso garantir-te que viverás por muito tempo... És uma humana, é provável que teu corpo não resista ao que está por vir. O problema, Alba, é que um hemanubis não é apenas vigoroso, ávido por caças, longevo e sedutor... Ele também é fértil, cara senhora, muito fértil. – respondeu Abel, encostando sua boca ao ouvido da jovem agonizante, como um fantasma a murmurar.&lt;br /&gt;Não tardou para que as palavras de Abel se confirmassem, Alba estava grávida. Com o tempo, a menina curou-se dos enjôos, dos desmaios, dos delírios e já não sentia mais febre, porém, continuava anêmica, tendo a pele amarelada e os olhos enegrecidos, a gravidez não a deixara mais bela.&lt;br /&gt;A barriga logo surgiu e Zarina não perdeu tempo em tricotar roupinhas para a criança que estava por vir. O homem-de-pedra recebeu a incumbência de preparar um mimoso berçário do modo como Zarina o instruíra. A velha escrava nutria sinceras esperanças de que a vinda de um filho trouxesse um pouco de luz para o alquebrado coração de sua amada menina. Todavia, de certa forma, antes mesmo da criança nascer, Alba já se encontrava experimentando de uma certa felicidade, pois estava concebendo o filho daquele que amou como apenas se ama uma única vez na vida... e na morte. Mas, algo a incomodava, a anemia incessante a tornava desconfiada acerca da natureza da criança que levava em seu ventre, Alba temia amar o próprio filho, temia amar por uma segunda vez uma criatura amaldiçoada e novamente cair em desgraça. Porém, seria uma tarefa impossível não amar aquele filho, ela podia senti-lo pulsando dentro de si, como amoroso músculo, um doce pedaço de carne surgido de uma inacreditável união. A cada novo dia, sua barriga ganhava novos contornos, o que a deixava cotidianamente emocionada, em estado de graça. Apesar do mal e do fel, Alba queria aquele filho, e estava preparada para recebê-lo.&lt;br /&gt;E, naquele noite singular, tudo aconteceu.&lt;br /&gt;Primeiro uma pontada lancinante em seu ventre, depois, uma forte dor que parecia querer destroçá-la por dentro, fizeram com que Alba despertasse de seu sono e caísse em uma derradeira e angustiada provação. A jovem tentou dar alguns passos a partir de sua cama, apoiando-se nos móveis, mas acabou indo de encontro ao chão, para logo em seguida pôr-se a vomitar sofregamente. Uma angústia colossal tomava conta de seu espírito enquanto assistia impotente seu corpo a debater-se, incapaz de controlar os próprios reflexos. A dor. Alba gritou por Zarina em um dado segundo no qual recobrara o poder sobre si mesma, sentindo seu sangue ferver e correr veloz através de veias e artérias, fazendo com que ela experimentasse uma sensação como nenhuma outra, insuportável. Pouco tempo após ouvirem as súplicas de Alba, Zarina e Abel entraram às pressas no quarto, encontrando a jovem Gobete agonizando no chão, sofrendo fortes espasmos musculares e apresentando uma preocupante hemorragia nasal. Limitada por sua humanidade, Zarina viu-se prisioneira de seu desespero, incapaz de ajudar sua menina naquele tenebroso momento de aflição.Todavia Abel, em sua frieza mineral, não tardou em pegar Alba nos braços e deitá-la sobre a cama, pondo uma escova dentre os dentes de sua senhora a fim de que a mesma não contraísse novos ferimentos. Após prender seus longos cabelos castanhos, Abel voltou-se para Zarina e gritou:&lt;br /&gt;_ Desperta desta letargia, maldita escrava! Traz-me agora mesmo algumas toalhas e água quente. Teremos uma longa noite!&lt;br /&gt;Como se de repente se libertasse de um estado hipnótico, Zarina apressou-se em seguir as instruções de Abel e correu às pressas do quarto. Aproveitando a ausência da velha ama-de-leite, Abel acomodou-se deitado ao lado de Alba e passou o dorso de sua mão sobre a testa suada da menina, como se não se importasse com a dor de sua senhora.&lt;br /&gt;_ Serás mãe, querida... – disse Abel sorrindo com seus dentes alvos e frios, para logo em seguida saltar da cama, arrancar com brutalidade a camisola de Alba, e abrir as pernas da mesma, deixando-as bem flexionadas.&lt;br /&gt;_ Tire esta coisa de mim!!! – gritava Alba, enquanto Zarina apegava-se às suas orações ditas em um mal pronunciado latim mesclado ao dialeto africano falado em sua terra natal, suas mãos não eram fortes o suficiente para trazerem ao mundo o filho de sua querida menina.&lt;br /&gt;_ Tire esta coisa de mim!!! – implorava Alba aos prantos, enquanto Abel forçava seu ventre com as duas mãos, a fim de que ela expelisse o feto.&lt;br /&gt;_ Assim ambos morrerão, Alba e a criança! – interveio Zarina, temendo que aquele terrível espetáculo resultasse em uma provável tragédia.&lt;br /&gt;_ Mantém-te fora disto, negra Zarina! Sei o que estou fazendo! – disse Abel, ignorando as súplicas da desesperada mulher.&lt;br /&gt;_ Ele está a tirar-me a vida! Arranque-o de dentro de mim! Por favor!... Por favor!... – implorou Alba, castigada por indescritível dor.&lt;br /&gt;_ Calma, senhora, ele está vindo. – disse Abel, não simplesmente para tranqüilizar a pobre mãe, mas porque tratava-se da verdade.&lt;br /&gt;Então, repentinamente, a criança nasceu. Silenciosamente, sem chorar, o filho de Alba e Enéas chegou ao mundo. Ao tomar o pequenino em suas mãos, Zarina envolveu-o em cueiros e aproximou-se sorrindo de Alba.&lt;br /&gt;_ Tiveste um lindo menino! – disse a ama, logo em seguida pondo cuidadosamente o recém-chegado dentro do berço que Abel havia construído.&lt;br /&gt;_ Pronto, Alba. Acabou. – sentenciou Abel com sua voz seca.&lt;br /&gt;_ Então... Por que a dor não passa?!... Morrerei! Ai, Deus! Toma-me em tuas divinas mãos de uma vez! Poupa-me desta tortura, Senhor! Deus...!!! – gritou Alba invadida por descomunal desespero.&lt;br /&gt;_ O que está havendo, Abel?! – impacientou-se Zarina, tocando o ombro do homem-gárgula.&lt;br /&gt;_ Acho que teremos gêmeos para esta noite, cara amiga. – respondeu Abel com seu sorriso incolor.&lt;br /&gt;E mais uma vez fez-se o tremendo sacrifício. A dor. Alba já não possuía mais forças e a pressão que Abel imprimia sobre sua barriga seria suficiente para matar qualquer criança normal. O sofrimento apenas encontrou seu fim quando o choro infantil ecoou pelo quarto, anunciando a chegada de um novo visitante. Abel segurou a pequena criatura nos braços e disse:&lt;br /&gt;_ Aproxima-te, Zarina. Ganhamos uma choramingas baronesa.&lt;br /&gt;Zarina acolheu a pequenina garota com cuidadosos mimos e tratou com todo zelo e carinho da jovem hóspede do Casarão Caronte. Após lavar-se, Abel aproximou-se de Alba e sussurrou em seu ouvido para que ela não se preocupasse, pois ainda não morreria, ao menos não aquela noite. Esgotada, a jovem mãe ainda tentou encarar seu soturno servo, antes de cair exausta em sono profundo.&lt;br /&gt;Antes que o dia raiasse, Abel ordenou à Zarina que esta fechasse todas as cortinas do Casarão. Mesmo sem entender direito o que Abel pretendia com aquilo, a velha senhora preferiu acatar as instruções daquele estranho homem pois até então ele havia se mostrado tremendamente hábil em tudo aquilo que fizera. Através do grosso cortinado, o sol não encontrou meios de invadir os corredores e cômodos do casarão. O dia permaneceu lá fora.&lt;br /&gt;_ Queres ver teus filhos, meu bem? – Perguntou Zarina à Alba, assim que esta despertou dos terríveis sonhos que a atormentaram durante todo o repouso.&lt;br /&gt;_ Ela não deseja vê-los, Zarina. – comentou Abel, com ares de malícia.&lt;br /&gt;_ Qual a cor dos olhos deles, Zarina? – quis saber Alba, revelando em seu tom de voz que ainda se encontrava tremendamente debilitada.&lt;br /&gt;Inocente, Zarina caminhou até o berço tendo um candelabro nas mãos e iluminou as crianças. Em seguida, retornou para Alba sorrindo e disse com pueril ternura:&lt;br /&gt;_ Eles têm olhos lindos, cor-de-mel, parecem mais quatro pedras de topázio!&lt;br /&gt;_ Não!!!... Meu Deus, por favor... Não!!! – lamentou Alba, entregando-se a uma comovente agonia.&lt;br /&gt;_ Sinto muito, senhora. Mas, o que esperavas de teus filhos? Acreditavas que a tua natureza fraca e de vida curta iria sobrepujar a de um hemanubis? Teus pensamentos chegam a ser ingênuos... – esmiuçou com sua frialdade Abel as últimas esperanças de Alba.&lt;br /&gt;_ De que falam? Por que nada me dizem? Não compreendo... Estas... Estas duas crianças...?!!! – exclamou Zarina, apavorada.&lt;br /&gt;_ Estou preparada, Abel... Traga-os para mim. – disse Alba resoluta, com a firmeza de quem está prestes a partir sem olhar para trás.&lt;br /&gt;_ Preparada para o que, filha de minha alma?! – quis saber a velha escrava liberta, prisioneira do Casarão Caronte, temendo o desconhecido.&lt;br /&gt;_ Acalma-te, negra! Não precisas ser tão melíflua... Alba precisa apenas amamentar os dois... anjinhos. – lançou Abel, logo em seguida entregando as duas crianças à Alba para que esta as alimentasse.&lt;br /&gt;_ Por favor, Abel, cuide bem deles e de Zarina... – pediu Alba emocionada, encarando com seus olhos úmidos e cheios de despedida o vazio semblante de Abel.&lt;br /&gt;_ Claro, senhora. É esta a minha função. – respondeu o homem-gárgula com a prontidão de um verdadeiro lacaio.&lt;br /&gt;_ Abel... Não deixe que eles matem pessoas ao crescerem... – pediu Alba, encarecidamente.&lt;br /&gt;_ Isto eu não poderei prometer, senhora. É a natureza deles que os guiará. A morte dos humanos é necessária para que eles sobrevivam. – argumentou Abel, deixando claro que uma das últimas vontades de Alba seria em vão.&lt;br /&gt;_ Juraste-me obediência! Ordeno que tu não permitas que eles matem pessoas! – irritou-se Alba, reunindo suas últimas forças a fim de demonstrar firmeza em suas palavras.&lt;br /&gt;_ Acontece, senhora, que tu morrerás ainda hoje. Estas duas crianças serão meus novos donos... Quando eles chorarem de fome, estarão na verdade delegando-me uma primeira ordem, a de que Licaon deverá caçar. É o instinto primeiro daquele que nasce hemanubis, Alba, eu não poderei evitar...&lt;br /&gt;Vendo que não teria como impedir o que já era um fato, Alba expôs os seios a fim de alimentar seus filhos. Enquanto as crianças mamavam, Alba murchava como uma vela que paulatinamente se extingue. Ao perceber que junto ao leite materno, as crianças também sugavam o sangue de Alba, Zarina ausentou-se do quarto correndo, sabendo-se incapaz de assistir com indiferença a vida de Alba sendo drenada pelo apetite feroz dos próprios filhos.&lt;br /&gt;_ Ela pariu monstros! Eles bebem o sangue dela... Bebem o sangue dela! – gritou Zarina para si mesma ao chegar na cozinha, antes de cair desmaiada sobre a farinha que havia atirado ao chão durante seu desatino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Desde então, dentre trevas, padeço. Doei minha própria vida para que meus filhos tivessem a oportunidade de trazerem um novo terror ao mundo. Minha história acabou aqui, e, para a infelicidade daqueles que possuíam carne nos ossos e sangue nas veias, aqui também teve início a história da prole de um anjo. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3046022492888605741-5641104591977432750?l=livroalcateia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/5641104591977432750/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3046022492888605741&amp;postID=5641104591977432750&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/5641104591977432750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/5641104591977432750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/2007/10/alba-no-sabia-ao-certo-se-poderia_30.html' title=''/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RyeDYT9GayI/AAAAAAAAACc/J_KvP5JBBN4/s72-c/alba+gr%C3%A1vida.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741.post-5478055202717287380</id><published>2007-10-24T07:47:00.000-07:00</published><updated>2007-10-24T08:30:10.092-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/Rx9k1Bq8veI/AAAAAAAAACI/SyKhpwRFlHA/s1600-h/Porta+do+casarÃ£o.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5124925763115335138" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/Rx9k1Bq8veI/AAAAAAAAACI/SyKhpwRFlHA/s400/Porta+do+casar%C3%A3o.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Alba acordou em um lugar claro, procurou enxergar a face de seu anjo através de seu olhar enfraquecido e turvo, mas não o encontrou. Achava-se em um quarto enorme, suas feridas estavam tratadas e ela estava deitada sobre lençóis de seda. Assustada, sem saber ao certo se realmente se encontrava desperta, Alba olhou para os móveis luxuosos e as paredes do quarto, percebendo que eram familiares pois assemelhavam-se aos do salão principal do Casarão Caronte, sem dúvidas, ela se encontrava no quarto de Enéas.&lt;br /&gt;Do outro lado de uma enorme porta de carvalho, Alba escutou o som de passos que pareciam caminhar na direção do quarto. Indefesa, a jovem apenas fixou seus olhos na direção da porta, observando a maçaneta que brevemente iria apresentá-la a seu visitante. Alba apenas encontrou meios de acalmar seu coração quando viu o gentil rosto de Zarina, que trazia em suas mãos uma bandeja com água, lenços e medicamentos. Ao ver sua menina acordada, Zarina pôs a bandeja sobre a mesa-de-cabeceira e caminhou até Alba, sentando-se a seu lado e abraçando-a com suavidade, talvez por temer machucá-la.&lt;br /&gt;_ Há dois dias que tu dormes, Alba! Pensei que tu não...&lt;br /&gt;_ Dois dias?!... – disse a convalescente, sem querer acreditar no que dizia sua ama.&lt;br /&gt;_ Sim!... Teu irmão Nicolau... Ele, ele está morto. Teve a infelicidade de ser atingido no rosto por um coice. Todos pensam que parti... que voltei para minha terra-natal...&lt;br /&gt;_ E quanto a Cristiano?&lt;br /&gt;_ Achei melhor que ele também não soubesse. Ao encontrar-te... Achei que tu... – tentou falar Zarina, repentinamente sendo tomado por inconsolável pranto.&lt;br /&gt;_ Pobre Cristiano... Mamãe irá culpá-lo pelo resto da vida! Fizeste o que havia de ser feito, Zarina. É seguro para meu bom irmão que ele nada saiba. Não chores, Zarina, estou bem... Estou forte.&lt;br /&gt;_ Do que falas, querida?! Estás na verdade bem fraca. Aguarda enquanto preparo algo leve para que te alimentes! – disse Zarina antes de retornar à cozinha, sem compreender a que tipo de força Alba estava se referindo.&lt;br /&gt;Na solidão do quarto de Enéas, Alba pegou-se pensando na crueldade da vida, em como o destino havia sido traiçoeiro com ela. De todas as tragédias do mundo, a sua parecia a maior, a mais sofrida. O amor, em sua bilateralidade destrutiva, mostrou-lhe a mais amarga de suas facetas. O amor não lhe parecia mais o mesmo sentimento que ela um dia idealizara em seus sonhos, agora, quando pensava em tal sentimento, sentia apenas medo e solidão profundos, como um poço escuro e infinito. Agora ela se encontrava na casa de seu anjo, deitada sobre uma cama recoberta por lençóis de seda, mas nada poderia valer à pena sem ele, sem seu guarda, seu amigo. Alba sentia-se vazia, em seus quinze anos de idade, não conhecia muito sobre a dor e, quando teve a oportunidade de conhecê-la, acabou tornando-se protagonista da história mais odiosa da qual já se ouviu falar. Como pôde tanta agonia ser o principal ingrediente de uma história que parecia ser de amor? &lt;em&gt;Deus! Como posso amar um assassino?!&lt;/em&gt; O quarto, apesar de enorme, não era grande o suficiente para acomodar a história que Alba havia vivido... A dor.&lt;br /&gt;Após meia-hora, Zarina retornou ao cômodo no qual Alba se encontrava instalada, trazendo uma suculenta sopa de legumes para que sua criança recobrasse as energias, afinal, ela havia passado mais de quarenta e oito horas inconsciente. Alba engoliu a comida com tanta gula que só naquele instante pôde constatar que realmente dormira por dois longos dias. Após a leve refeição, Zarina tocou o rosto de Alba e falou com um sorriso morno:&lt;br /&gt;_ É incrível que não tenham destruído a casa! Mas, caso ousassem, como explicariam à Coroa? Certamente, o padre inventará alguma desculpa sobre o desaparecimento do barão e Nova Friburgo retomará sua vida e guardará tais fatos no esquecimento. Estás segura aqui. As pessoas não ousam vir até o casarão, uma cerca agora percorre toda extensão de terra que cerca este monte, repleta de marcos religiosos e sinais que indicam agouro. Padre Santiago amaldiçoou este lugar... As pessoas têm medo.&lt;br /&gt;_ E é assim que eu as quero, amedrontadas! – disse Alba, tendo fel em seus olhos.&lt;br /&gt;_ Não alimente ódio dentro de teu peito, Alba! Temo tanto por ti! – preocupou-se sinceramente Zarina.&lt;br /&gt;_ Não tema por mim, Zarina! Tema por aqueles que nos fizeram isto!&lt;br /&gt;_ Não fale assim...&lt;br /&gt;_ É a única linguagem que conheço agora!&lt;br /&gt;_ Alba...&lt;br /&gt;_ Eu amaldiçôo a todos! Todos! Os dias de todos eles começaram a ser contados a partir do momento em que tiraram a vida de meu anjo! Tema por eles, Zarina... Não por mim.&lt;br /&gt;Durante todo aquele dia, ela permaneceu deitada a fim de recobrar suas forças, como se soubesse instintivamente que muito em breve precisaria de todas elas. Com o cair da noite, Zarina deitou-se na mesma cama que Alba, movida por intenso sentimento maternal, amou aquela menina desde a primeira vez em que a amamentara, já que os seios da mãe de Alba haviam secado, como todo o resto de seu corpo adoecido de rancor.&lt;br /&gt;Quando a madrugada instalou-se sobre Nova Friburgo, Alba acordou repentinamente em um dado momento em que os sons da noite silenciaram por completo. Uma estranha presença parecia estender seus tentáculos por todo o quarto, como se o fantasma de um gigante dividisse o espaço com elas. Ainda muito pálida e frágil, Alba contemplou com o olhar enlouquecido a escuridão ao seu redor, perguntou: &lt;em&gt;Quem está aí?&lt;/em&gt; O vento passava através das frestas silvando inquieto, como se tentasse lhe revelar algo, avisá-la. A presença se fez cada vez mais intensa, levando Alba a – em uma falha esperança – erguer-se da cama e perguntar: &lt;em&gt;Enéas, és tu?&lt;/em&gt; E mais uma vez respondeu-lhe apenas o sibilo do vento, aquela triste brisa uivante. Porém, para seu temor e surpresa, Alba escutou a mesma voz quimérica que havia sentido na noite do grande mal. &lt;em&gt;Segue-me.&lt;/em&gt; Alba não teimou em perguntar quem estava ali, pois sabia que aquela voz era parte de seu próprio ser. Então, pé ante pé, ela caminhou na direção da porta e abandonou o quarto, valendo-se de extremo cuidado para não despertar Zarina. &lt;em&gt;Segue-me. Levar-te-ei a um lugar.&lt;/em&gt; Possuída por um arrojo que não era comum à sua natureza serena, Alba caminhou pelo enorme corredor que encontrou após abrir a porta do leito no qual há pouco se encontrava. &lt;em&gt;Segue-me, Alba.&lt;/em&gt; A jovem enfraquecida deixou-se guiar cambaleante por aquela voz abstrata até chegar à uma escadaria em espiral, sentindo ossos e carne a latejarem dolorosamente. &lt;em&gt;Apressa-te, Alba! Apressa-te e sobe!&lt;/em&gt; A menina experimentou cuidadosamente cada degrau, como se ansiasse que aquela escadaria de pedra revelasse os segredos daquele caminho que estava a caracolar, sem saber o que a aguardaria no final. &lt;em&gt;Abra.&lt;/em&gt; Disse a voz no momento em que Alba deparou-se com uma porta. Ignorando o que poderia encontrar, Alba resolveu atender a ordem daquele apelo sonoro e abrir a pesada porta de madeira. Tratava-se da torre do casarão. Uma tempestade terrível se fazia lá fora, chuva, relâmpagos, trovões e a torre. &lt;em&gt;Entre, Alba.&lt;/em&gt; Em seu interior, a torre mais parecia um depósito de quinquilharias, nada de muito interessante parecia haver ali, apenas mimos e caprichos que pareciam haver perdido a graça para a família Caronte. &lt;em&gt;Segue até a janela quebrada. Ele aguarda-te.&lt;/em&gt; Alba, se estivesse em pleno condicionamento físico, certamente teria corrido até a janela, movida pela indomável expectativa de reencontrar Enéas. A tempestade mostrou-se ainda mais violenta, como se o céu fosse partir-se ao meio, tornando impossível que algo do lado de fora pudesse ser visto com clareza. &lt;em&gt;Aproxima-te.&lt;/em&gt; No momento em que Alba praticamente colou o rosto à janela, um relâmpago clareou o negrume noturno com tamanha intensidade que acabou por permitir que Alba vislumbrasse com riqueza de detalhes o monstro de pedra que ornamentava a torre, um pouco abaixo e à direita da janela na qual se encontrava. Tomada de um grande susto ao deparar-se com a estampa grotesca da medonha gárgula, Alba acabou por cortar-se no vitral da janela que se encontrava quebrada. A água da chuva suavemente lambeu seu dedo ferido e levou duas gotas de seu sangue, que depositaram-se sobre o olho esquerdo da estátua. Enquanto tentava conter a pequena hemorragia, Alba manteve seus olhos fixos na janela, podendo ver a cabeça do monstro de pedra a cada novo relâmpago. Porém, durante um dos rápidos clarões, algo diferente se passou, trazendo novo assombro para o coração da jovem Gobete. A gárgula moveu a cabeça e encarou-a ferozmente, tendo em seu olhar gélido a frieza natural das bestas sanguinárias. Diante da terrível cena, Alba desceu as escadas correndo, arriscando-se a tombar e ferir-se gravemente, nem se quer ousou dar uma única olhada para trás, temendo que aquele monstro a perseguisse. Apenas sentiu-se segura quando chegou ao quarto onde Zarina ainda repousava pesadamente e, como fazia nos tempos de menina, Alba lançou-se sobre a cama e abraçou-se com força a uma assustada ama. A velha acolheu-a com zelo e em seguida perguntou:&lt;br /&gt;_ O que houve, Alba?&lt;br /&gt;_ Tive um pesadelo... – tentou esquivar-se a amedrontada menina.&lt;br /&gt;_ E onde molhaste tuas roupas de tal forma? – quis saber Zarina, intrigada com a jovem tremulando dentre seus amáveis braços.&lt;br /&gt;_ Acolhe-me, ama! Acolhe-me!...&lt;br /&gt;Apesar de perturbada, Zarina pegou Alba em um forte abraço e a embalou para que esta voltasse a dormir. Talvez motivada pelo cansaço da fuga, Alba adormeceu em pouco tempo e logo viu-se envolvida em sonhos onde experimentou um misto de visões passadas, desde o seu próprio nascimento até o encontro com a gárgula, tornando-se a noite, assim, demasiadamente comprida.&lt;br /&gt;Ao acordar, Alba de imediato deu-se conta de que Zarina não se encontrava mais no quarto. Lembrou-se por um instante dos pesadelos que havia tido durante a noite e então sentiu um imenso alívio, acreditando ela que o monstro de pedra a movimentar-se não havia passado de uma horrenda manifestação de seu inconsciente. Porém, um dedo cortado e que ainda latejava acabou por revelar a veracidade bizarra da noite anterior. Alba caminhou até uma das janelas de seu quarto e, com um desconfortável jogo de pescoço, conseguiu ver a torre na qual estivera por alguns instantes na noite anterior, todavia, a estátua do lobo do tamanho de um urso, posto em posição de ataque, esculpido de forma a revelar a vastidão dos pêlos dispersos por sua musculatura colossal e sua mandíbula monstruosa a ameaçar a noite, não se encontrava mais lá, apenas o pedestal vazio, inútil. De repente, Alba escutou passos a se aproximarem do quarto, aquela firmeza no andar certamente não pertencia à Zarina. Quem quer que fosse, era dotado de uma passada forte e incrivelmente ritmada, sonora, inquietante. Afim de proteger-se do desconhecido, Alba agarrou um candelabro e pôs-se ao lado da porta, à espera da fera, quase não conseguia acreditar que o sobrenatural havia invadido sua vida de modo avassalador. Lentamente, a porta foi aberta e, para alívio de Alba, o estranho que adentrou o quarto era um homem e não o monstro de pedra da torre, um homem jovem, forte e belo. Ao perceber que Alba trazia um candelabro em suas mãos, o estranho sorriu-lhe de forma insossa e falou:&lt;br /&gt;_ Espero que isto não seja para mim.&lt;br /&gt;Desconcertada, Alba largou o candelabro no chão e tentou explicar-se, mas o homem interrompeu-lhe a fala e lançou:&lt;br /&gt;_ Primeiro, aquela gentil senhora na cozinha. E agora, uma menina no quarto de Enéas. Quem sois vós? – perguntou o homem, apesar de suas expressões não revelarem curiosidade ou surpresa alguma.&lt;br /&gt;_ Minha graça é Alba.&lt;br /&gt;_ Alba. Enéas falou-me sobre ti.&lt;br /&gt;_ ...Ele está morto. – disse Alba sentindo um enxame de abelhas atacando-lhe as palavras.&lt;br /&gt;_ Verdade? – perguntou o homem, com insuportável indiferença.&lt;br /&gt;_ Sim...&lt;br /&gt;_ Bem, então acredito que deverei cuidar de ti agora.&lt;br /&gt;Intrigada com a frieza daquele homem, Alba olhou-o diretamente nos olhos e perguntou curiosa:&lt;br /&gt;_ Enéas... Tu conhecia-o bem?&lt;br /&gt;_ Desde que nascera.&lt;br /&gt;_ E não diz-me nada?! Recebeste a notícia da morte dele com uma calma assustadora!&lt;br /&gt;_ Desculpe-me Alba, mas... Eu não nutro sentimentos por nada e nem por ninguém.&lt;br /&gt;_ Então... Por que cuidarás de mim agora?&lt;br /&gt;_ Porque esta era a vontade de meu dono. Deixou-me ele claras instruções caso algo acontecesse-lhe. Agora pertenço-te, Alba.&lt;br /&gt;Como uma criança que tenta descobrir o segredo de um truque de mágica, Alba caminhou ao redor daquele misterioso sujeito que dizia-lhe apenas palavras insípidas, despidas de qualquer sentimento humano. Posta novamente diante do olhar daquela interrogação em forma humana, Alba mirou-lhe firmemente e exclamou:&lt;br /&gt;_ Tu és a estátua... A gárgula da torre!&lt;br /&gt;_ Vejo que és bastante perspicaz, jovem senhora, podes então deduzir agora porque não me importo com a morte de Enéas?&lt;br /&gt;_ Não. Por quê?&lt;br /&gt;_ Porque tenho um coração de pedra.&lt;br /&gt;_ És incapaz de sentir qualquer coisa?!&lt;br /&gt;_ Qualquer coisa. Eu fui criado para servir, não para sentir.&lt;br /&gt;_ Não creio que isto seja realmente possível...&lt;br /&gt;_ Devo provar-te? Se quiseres, trazer-te-ei agora mesmo o coração daquela escrava que se encontra lá embaixo.&lt;br /&gt;_ Proíbo-te! Não ouse tocar nela!&lt;br /&gt;_ Acalma-te, senhora! Apenas farei aquilo que for de teu agrado.&lt;br /&gt;_ Não sei dizer ao certo se devo embevecer-me por isto...&lt;br /&gt;_ Precisarás de mim. Caberá a mim providenciar que aqui tu vivas em segurança. Já que Enéas está morto, deverei conseguir junto à Coroa que o Casarão Caronte e o título de barão de Nova Friburgo não voltem a ser ocupados tão cedo. Aquela velha escrava disse-me tudo o que ocorreu nos últimos dias e que as pessoas da vila não ousam vir até aqui, o que nos será bastante proveitoso, até que a senhora decida para qual lugar do mundo deseja partir.&lt;br /&gt;_ Não pretendo ir embora...&lt;br /&gt;_ Viverás na clausura?&lt;br /&gt;_ Em qualquer lugar que eu vá, sentir-me-ei enclausurada... Como te chamas?&lt;br /&gt;_ Abel.&lt;br /&gt;Abel era um tanto quanto assustador. Seus olhos eram vazios e inexpressivos, seus sorrisos, hipócritas, e suas palavras, secas. Alba sentia tremendo receio em tê-lo por perto, mas, ao mesmo tempo, sentia-se segura. Abel era extremamente servil, capaz de executar qualquer ordem de sua nova mestra, por mais que esta parecesse absurda.&lt;br /&gt;A gárgula da torre era um ser completamente transparente, respondia sem tremer a voz ou piscar os olhos a qualquer pergunta que o fizessem, por mais inconveniente que esta pudesse vir a ser.&lt;br /&gt;_ Já mataste alguém? – perguntou Alba de supetão a Abel, enquanto este servia-lhe o café em uma manhã de sábado.&lt;br /&gt;_ Já. Inúmeras pessoas. – respondeu Abel com a tranqüilidade de quem acrescenta mecanicamente mais açúcar ao chá.&lt;br /&gt;_ Enéas ordenou-te tais mortes? – quis saber Alba, receosa.&lt;br /&gt;_ Apenas executo ordens, senhora, não tenho vontade própria.&lt;br /&gt;Ao ouvir aquilo, Alba movimentou-se na cama como se repentinamente a mesma houvesse se tornado desconfortável, para ela era terrível constatar que o homem a quem entregara suas paixões românticas era o mesmo que havia sido o responsável pelo assassinato de dezenas, talvez centenas de pessoas.&lt;br /&gt;_ Por que ele ordenava-te tais crimes? – insistiu em prosseguir a jovem com seu triste interrogatório.&lt;br /&gt;_ Por uma questão de hábitos alimentares. Enéas às vezes sentia-se tão enojado com algumas pessoas do clero e da nobreza que recusava-se a alimentar-se delas. Todavia, também não suportava vê-las, então, para livrar-se de presenças tão inconvenientes, ele ordenava que eu as matasse.&lt;br /&gt;_ Como puderam? Como ousavam arrancar a vida de alguém por razões tão torpes e frívolas?! – indignou-se Alba, fitando os belos e inexpressivos olhos de Abel.&lt;br /&gt;_ De acordo com Enéas, torpes e frívolas eram tais existências... Não me responsabilize por nada, Alba. Sou apenas o &lt;em&gt;faxineiro...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Como pude amá-lo?... como posso amá-lo?...&lt;/em&gt; Perguntava-se Alba, sem conseguir evitar que novas perguntas saltassem de sua boca, sem que seus ouvidos se encontrassem devidamente preparados para acolher as medonhas respostas.&lt;br /&gt;_ Onde Enéas alimentava-se antes? As mortes das mulheres da casa de Rose Bijou apenas começaram a acontecer...&lt;br /&gt;_ Enéas nunca havia experimentado o sangue de ninguém desta vila. Todas os meses, escravos eram trazidos para este casarão por um mercador. Enéas fazia isto a fim de tornar-se tão humano quanto os cidadãos de Nova Friburgo. Sendo ele também um torturador e caçador de negros, quem poderia julgá-lo? – ironizou Abel, causando grande desconforto no coração de Alba.&lt;br /&gt;_ Então, por que agora?&lt;br /&gt;_ Por ti. – respondeu Abel, secamente.&lt;br /&gt;_ Por mim?!&lt;br /&gt;_ Desde a primeira vez que Enéas viu-te, perdeu ele o discernimento. Tu estavas a comprar rendas na feira da praça, descreveu-me ele tuas vestes e tuas feições com a precisão de um artista... Isto foi o suficiente para que o revés do amor despertasse dentro dele.&lt;br /&gt;_ Mas, não entendo... Por que ele matou as mulheres?!&lt;br /&gt;_ Por vingança. As prostitutas não pareciam-lhe mais capazes de saciar-lhe os apetites passionais. Enlouquecido, Enéas culpou todas elas por amar-te, culpou todas elas por ter ele sucumbido aos próprios traiçoeiros sentimentos. Seres especiais como Enéas, Alba, nascem com o dom da sedução, e, como a natureza humana é fraca, vós sois fáceis de serem seduzidos. Seres como Enéas vivem em ininterrupto estado de cio, secretando constantemente o perfume sexual que enlouquece os humanos. Mas, às vezes, um elemento muito raro que apenas algumas criaturas humanas possuem pode levar o coração adormecido de um ser como Enéas às raias da loucura...&lt;br /&gt;_ Que elemento é este?! – impacientou-se Alba, sentindo-se, de certa forma, responsável pela morte das mulheres da casa de Rose Bijou.&lt;br /&gt;_ A virtude. Da primeira vez em que o Barão invadiu teu quarto, quando ainda vivias na companhia dos teus, Alba, ele o fez para tirar-te a vida. Mas, não teve ele suficiente coragem, meu dono tornou-se fraco por causa do amor que nutria por ti. O Barão era feliz enquanto libertino, tu o transformaste em um homem fiel, apaixonado e triste. Mas a fera dentro dele preferia o boêmio dissoluto, por isso as meretrizes tiveram de ser sacrificadas, para acalmar o &lt;em&gt;hemanubis&lt;/em&gt; que se escondia na alma de Enéas.&lt;br /&gt;_ "Hemanubis"...? – repetiu Alba, deixando claro que não conhecia aquela estranha expressão.&lt;br /&gt;_ Chame como quiser, querida: licantropo, homem-lobo, lobisomem... Todas estas figuras folclóricas são manifestações míticas da criatura real, do homem capaz de transmudar-se em lobo, de um hemanubis.&lt;br /&gt;_ Se o que dizes é verdade... Então... Jamais amei Enéas, não é mesmo? Ele seduziu-me com seus poderes ocultos, com suas artes sombrias... – deduziu Alba, como se tentasse esquivar-se da culpa de amar um monstro cruel e feroz.&lt;br /&gt;_ Desculpe-me desapontá-la em sua pressa em justificar teus próprios atos, senhora. Enéas jamais usou de sua capacidade sensual para encurralar-te em miragens amorosas. O que sentiste por ele partiu de ti, Alba, amaste Enéas por tua própria vontade e não pela dele.&lt;br /&gt;_ Então... A culpa de toda esta desventura é minha! – suspirou Alba, rendendo-se a uma verdade que ela não poderia negar a si mesma.&lt;br /&gt;_ Não seja tola, senhora. A culpa é deste coração pérfido que os hemanubis possuem... E os humanos também.&lt;br /&gt;_ E tu, Abel? Também és um lobisomem... Um hemanubis?&lt;br /&gt;_ Não. Sou apenas um pedaço de pedra.&lt;br /&gt;_ Mas como?! – tentou entender a metamorfose, Alba.&lt;br /&gt;_ Simples, querida. Quando deixaste que duas gotas de teu sangue caíssem sobre mim, tornei-me Abel, que é minha forma humana.&lt;br /&gt;_ De que falas? Possuis outra forma?! – quis saber Alba, sentindo o estômago revolver-se antes mesmo de escutar a resposta de Abel.&lt;br /&gt;_ Sim. Caso precises de meus serviços em minha forma bestial, que trata-se da mesma estampa que possui a gárgula, bastar-me-á uma única gota. Daí não serei Abel, mas sim, Licaon.&lt;br /&gt;_ Feitiçaria! Enéas era um mago, um bruxo! Por isso conseguiu cegar ele Padre Santiago! – apressou-se Alba em suas conclusões.&lt;br /&gt;_ Um hemanubis não é um feiticeiro, senhora. Mas, para um simples humano, é deveras custoso resistir ao grandioso poder de sugestão de seres como meu finado mestre. O velho padre que fez-se cego, Enéas apenas sugeriu-lhe a idéia.&lt;br /&gt;_ Espero que eu jamais precise de ti encarnado naquela medonha criatura!&lt;br /&gt;_ Mais cedo ou mais tarde, nossos monstros acabam emergindo de nossas entranhas. É inevitável, Alba, Licaon terá que aparecer. Agora, dê-me licença, senhora. – disse Abel recolhendo a bandeja do café-da-manhã e ausentando-se do quarto. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3046022492888605741-5478055202717287380?l=livroalcateia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/5478055202717287380/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3046022492888605741&amp;postID=5478055202717287380&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/5478055202717287380'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/5478055202717287380'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/2007/10/alba-acordou-em-um-lugar-claro-procurou.html' title=''/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/Rx9k1Bq8veI/AAAAAAAAACI/SyKhpwRFlHA/s72-c/Porta+do+casar%C3%A3o.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741.post-6814828211764596559</id><published>2007-10-17T12:25:00.000-07:00</published><updated>2007-10-17T12:30:46.300-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RxZiQxq8vdI/AAAAAAAAACA/FJ6hciydolI/s1600-h/EnÃ©as+Morto.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5122389666531425746" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RxZiQxq8vdI/AAAAAAAAACA/FJ6hciydolI/s400/En%C3%A9as+Morto.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;O anjo, a fera e o barão agora se revelavam diante do semblante estupefato de Alba com um único e indivisível ser. E, naquele momento, ele desempenhava o seu papel mais horrendo: o da besta. O anjo – &lt;em&gt;Ela&lt;/em&gt; prefere chamá-lo assim – atirou-se sobre Luísa como se tivesse sede, como se tivesse fome. Seus dentes ferozes morderam com extrema avidez a jugular da prostituta, fazendo o sangue jorrar intensamente, desperdiçando a vida da jovem Luísa. A partir daquele momento também estaria ela condenada à escuridão na qual me encontro, pois sei que junto a mim, nesta prisão de esquecimento, também fenece cada uma de suas finadas &lt;em&gt;irmãs&lt;/em&gt;. Louco de pavor, Nicolau afastou-se da pavorosa cena correndo e gritando, enquanto o monstro banqueteava-se com a carne que há pouco aquele beijava. Chegando ao alarme de incêndio, o irmão mais velho de Alba pôs-se a badalá-lo incessantemente, enquanto gritava que o Barão Enéas era o diabo e que havia matado Luísa. Vendo que a proximidade de um grande malogro estava se formando, Alba correu até Enéas e suplicou aos gritos para que ele fugisse. O anjo tentou encobrir seu rosto tomado por uma grossa camada de pêlo e pediu para que Alba não o olhasse, açoitado por tremenda vergonha. Ele não lembrava as gravuras estampadas nos livros de contos, nada nele assemelhava-se ao quadrúpede de focinho comprido e rabo esvoaçante posto sobre duas patas, como se imitasse um homem. Ainda era possível reconhecer humanidade naquela criatura, apesar dos pêlos de um negrume estonteante que recobriam todo seu corpo, de suas unhas transformadas em garras disformes e poderosas, de sua bocarra assassina incapaz de acomodar dentro de si aquela medonha dentadura, tudo nele fazia lembrar o corpo esbelto do Enéas humano, resistia na fera a mesma anatomia que caracteriza os seres pensantes, ainda restava beleza em sua face hedionda e feroz.&lt;br /&gt;            Ignorando por completo os perigos que poderia lhe oferecer a figura de estampa monstruosa posta diante de si, Alba enlaçou-o em um forte abraço e beijou-lhe o rosto com doloroso afeto, em seguida, empurrou-o e caiu sentada sobre o chão, confusa, assustada e terrivelmente apaixonada. Ao escutar o som das vozes que se aproximavam, a menina catou algumas pedras do chão e pôs-se a atirá-las em seu amante, gritando para que ele fugisse. Em pouco tempo a praça foi tomada por uma grande multidão vinda de todos os lados, uns choravam, outros gritavam e muitos rezavam em busca de coragem para lutar contra aquele ser inominável. Temerosa, Alba mergulhou no olhar animalesco de Enéas e gritou com todas as suas forças, das profundezas abissais de sua alma:&lt;br /&gt;            _ Vai-te!!!&lt;br /&gt;            Enéas então pôs-se a correr no sentido de seu casarão, ora sobre dois pés, ora como fariam os lobos que lhe inspiraram a assustadora mutação, enquanto as pessoas se aglomeravam em frente à igreja, a fim de escutar o relato de Nicolau acerca do que havia ocorrido. Após contar em detalhes entrecortados por lágrimas e acessos de fúria como tudo havia se passado, Nicolau convidou a todos para que juntos dessem cabo da vida daquela criatura maldita que havia trazido a morte para dentro de Nova Friburgo. Toda a gente manteve-se inerte, de olhos esbugalhados, silenciosos, sem fazer a menor idéia de como poderiam aniquilar um espírito do mal, um demônio. Porém, bastou apenas que as pessoas vislumbrassem padre Santiago saindo de sua igreja com uma tocha na mão e um grande crucifixo de prata na outra para que no coração de todos acendesse o estopim da sede de vingança. Em questão de segundos, a praça povoou-se de pessoas de todas as idades armadas de pau, pedra, espingardas, facas, fogo, ódio e medo. Quando o populacho tomou em deslocamento o caminho do casarão, Alba acabou por ser arrastada pelo escarcéu das pessoas, onde encontrou uma também desnorteada Zarina. Preocupada, a velha escrava perguntou por onde Alba havia andado, revelou aos prantos o quanto estava abalada, por um instante havia pensado que sua doce menina havia sido vitimada pela Fera do Morro Queimado.&lt;br /&gt;            _ Matarão meu anjo, Zarina! Preciso ajudá-lo!!! Não posso deixá-lo morrer!!! Não posso... – gritou Alba enlouquecida, sacudindo os ombros de sua ama como se a pobre mulher fosse responsável por seu desespero.&lt;br /&gt;            De um salto, que nem mesmo ela compreendeu como fora capaz de realizar, Alba montou em Tifão e cavalgou velozmente na direção da majestosa casa de Enéas, seguindo o atalho no qual brincava quando criança na companhia de Cristiano. O cavalo parecia saber de suas intenções, atendeu como se estivesse sob o comando do próprio dono as súplicas de pressa daquela estranha agarrada à sua vistosa crina. Um fantasma de camisola sobre um cavalo negro que pertencia a um monstro: uma visão bela e assombrosa... uma diabólica miragem.&lt;br /&gt;            Chegando ao casarão, Alba encontrou os portões escancarados e, alcançando as portas do salão principal, abriu-as com um safanão, sendo instintivamente atacada pela fera que, ao derrubá-la contra o chão e após rugir diante de seu belo rosto, adquiriu o semblante de um animal dócil e, logo em seguida, dela afastou-se, aninhando-se sobre uma poltrona e encarando o vão de seu jardim, escutando o som da morte que se aproximava. Alba atirou-se ao colo de seu anjo e pediu angustiada que ele fugisse, pois seus assassinos em breve tomariam todo o lugar. Enéas saltou da poltrona com a precisão de um animal selvagem e em seguida gritou para sua jovem amada, sua mulher, tendo sua voz catarral e quase incompreensível:&lt;br /&gt;            _ És tu quem deve fugir! Não é prudente que encontrem-te em minha companhia!&lt;br /&gt;            _ Podes falar? Tens a habilidade de compreender-me?! Primo por ver-te ainda capaz de dominar teu raciocínio. Escuta-me, matar-te-ão!!! – disse Alba tentando aproximar-se de seu abominável anjo.&lt;br /&gt;            _ Pois que eu padeça! – grunhiu ele afastando-se do toque de sua jovem amante –&lt;br /&gt;            _ Não! –recusou-se Alba, energicamente.&lt;br /&gt;            _ É preciso! Não percebes?! Olhe para mim! Eu não sou humano! Eu não sou humano! A boca que tu beijavas traz a morte para as outras pessoas!&lt;br /&gt;            _ O meu amor por ti curar-te-á desta doença... Desta maldição!&lt;br /&gt;            _ Não trata-se de doença ou maldição, Alba! É minha natureza! E não me fale de amor, eu não o conheço!&lt;br /&gt;            _ Conheces! Por nosso amor, querido, foge! Vai-te agora mesmo daqui, meu anjo! – pediu Alba, finalmente conseguindo acariciar a face de seu estimado mal-feitor.&lt;br /&gt;            _ Não me chame assim... Sinto-me mal... – disse Enéas rendendo-se aos afagos, permitindo que seus lábios grossos e banhados em sangue tocassem a palma da mão de Alba.&lt;br /&gt;            _ És meu anjo e amo-te por isso! És minha vida... Meu amigo...&lt;br /&gt;            _ Escuta! São as pessoas, elas estão chegando! Esconde-te, Alba! Esconde-te! – ordenou o anjo, afastando de si o corpo de Alba.&lt;br /&gt;            _ Prometa-me que permanecerás vivo!&lt;br /&gt;            _ Esconde-te agora!!!&lt;br /&gt;            Protegida por um volumoso cortinado, Alba observou ofegante o exato momento em que padre Santiago adentrou o salão principal liderando uma multidão de seguidores clamando por desforra. Enéas abriu os braços e sorriu com seus dentes de fera, em seguida falou:&lt;br /&gt;            _ Bem-vindos à minha casa, sintam-se todos como bons filhos de meu Pai.&lt;br /&gt;            _ Teu pai é a danação eterna, monstro! – esbravejou o padre, cuspindo furiosa saliva de sua boca trêmula.&lt;br /&gt;            _ E o teu pai, quem é ele, Santiago? Aquele velho sujo que te queimava com ferro em brasa? Aquele que matou tua irmã afogada em uma tina? Minha mãe sempre contava-me histórias de tua família para que eu pudesse adormecer em paz.&lt;br /&gt;            _ Do que falas, abominação? É mentira!&lt;br /&gt;            _ É verdade! Bem sabes disto! Bem sabes de quantos outros &lt;em&gt;monstros&lt;/em&gt; existem ainda em Nova Friburgo! És tu filho de um deles! Mas... Acalma-te, Santiago. Eu posso acabar com a tua dor, garanto que tu não sentirás nada além de deleite.&lt;br /&gt;            _ Cala-te, anticristo! – bradou o padre empunhando o grande crucifixo de prata na direção de Enéas – Meus filhos! Morte à besta!!!&lt;br /&gt;            Sem conseguir mais encontrar meios de manter-se às escondidas, Alba acabou por revelar seu esconderijo e transformou-se em um escudo de carne diante do corpo de seu inumano amante. Com lágrimas nos olhos, sua mãe olhou-a estupefata e exclamou:&lt;br /&gt;            _ Alba!...&lt;br /&gt;            _ Eu o amo, senhora! Não permita que o matem! Por favor, mãe, não deixe...&lt;br /&gt;            Repentinamente, o rosto de Dona Martina adquiriu um aspecto sombrio, olhou então ela para a filha como se não a reconhecesse, como se fosse negar seu nome para o resto de seus dias em vida.&lt;br /&gt;            _ Eu não sou tua mãe, mulher! Não... Eu não sou mãe de uma bruxa!!! Peguem-na! Devemos queimá-la na fogueira! Ela o pertence! Ela o pertence!&lt;br /&gt;            Pobres tolos aqueles que aventuraram-se em sua euforia e tentaram agarrar Alba, acabaram arremessados para longe pela descomunal força de Enéas, sendo que muitos deles tiveram a face e o peito feridos pelas potentes garras, enquanto outros gemiam de dor por ter seus braços e pernas quebrados pelo fatal golpe contra as paredes ou o rés-do-chão. A fera rugia enquanto de sua boca escorria uma baba espessa, como um cão raivoso, prestes a realizar uma carnificina. Ao perceber que a luta seria em vão, pois não era contra um homem que lutavam, Padre Santiago ergueu seu crucifixo e gritou:&lt;br /&gt;            _ Irei acabar contigo agora, demônio!&lt;br /&gt;            _ O que há, padre? Parece que não estás a enxergar bem? – perguntou Enéas, simulando sobre o rosto algo que em muito pouco lembrava um sorriso.&lt;br /&gt;            _ Meus olhos... Meus olhos!!! O que fizeste, criatura infernal??? Deus, devolve-me a luz!!!&lt;br /&gt;            Guiado apenas pelo ódio que contaminava sua alma como um fungo, Padre Santiago empunhou o crucifixo, do mesmo modo que assassinos seguram suas adagas, e investiu contra o coração de seu algoz, cravando neste a parte inferior do sagrado objeto. Enéas então olhou para a cruz prateada presa em seu peito e em seguida encarou cada um de seus inimigos, que se encontravam mergulhados em um perturbador silêncio. Quando seu olhar feroz encontrou o rosto triste e angelical de Alba, Enéas liberou um uivo estarrecedor, fantasmagórico, que fez por um segundo com que o coração de todos cessasse as necessárias batidas, logo depois deixou seu corpo cair sobre o chão e contorceu-se penosamente de dor, a morte agora podia tocá-lo, a longevidade parecia tê-lo abandonado de vez. Dentre lágrimas, Alba atirou-se sobre ele e jurou diante de todos os presentes amor e fidelidade eternos, beijando o rosto disforme de seu anjo antes que ele morresse, selando uma promessa de união infinita.&lt;br /&gt;            Quando o último delicado fio de vida foi expirado do corpo de Enéas, este recobrou diante do olhar assustado de todos sua forma natural. Naquele instante, para alguns, assemelhou-se ele a um indefeso jovem, de pele macia e clara, de cabelos negros e rebeldes, assassinado por um levante de insanos. Porém, antes que se deixassem seduzir pelo disfarce frágil e sedutor daquele terrível assassino, os homens não tardaram em atear fogo ao corpo de Enéas, incendiando-o diante dos olhos da mulher que o amara francamente.&lt;br /&gt;            _ Precisas sair daqui, minha irmã. – sussurrou Cristiano ao abraçar Alba, enquanto deitava a cabeça da mesma em seu peito, a fim de que ela não visse o corpo de seu anjo em chamas.&lt;br /&gt;            _ Afasta-te, paspalho, se não queres ter um destino igual ao que está reservado para esta inimiga de Nova Friburgo! – gritou Nicolau arrancando a irmã caçula dos braços de Cristiano, arrastando-a pelos cabelos para o exterior do casarão, enquanto a carne de Enéas ainda ardia.&lt;br /&gt;            _ O que estás a fazer, Nicolau?! Enlouqueceste?! Esta é nossa irmã! – protestou Cristiano, tentando evitar que seu irmão amarrasse à sela de Tifão a corda com a qual havia imobilizado as mãos de Alba.&lt;br /&gt;            Nicolau aplicou contra Cristiano um golpe tão potente que o jovem caiu quase desfalecido contra a grama do jardim, sendo acolhido pelos braços de seu pai.&lt;br /&gt;            _ Senhor, meu pai... Por favor...&lt;br /&gt;            _ É inevitável, meu filho. Se queres ser poupado desta loucura, deixa que nos tirem tua irmã. Deus sabe de sua inocência, cuidará bem de sua injustiçada alma... – disse o velho Gaspar como se sentisse vergonha de si mesmo, pois jamais abrira mão de um vintém em toda sua vida, porém, facilmente acabou por permitir em um misto de impotência e resignação que sua única filha fosse de seu convívio arrancada.   &lt;br /&gt;            Planejando assistir Alba sendo arrastada por toda a mata até chegar ao centro da vila, Nicolau encostou nas ancas de Tifão uma tocha chamejante, fazendo com que o cavalo desabalasse a cavalgar ferozmente, ferindo o corpo da menina que debatia-se contra galhos e pedras, torturando-a impiedosamente. O irmão mais velho de Alba apenas não contava com o potente coice que o cavalo aplicaria em seu rosto, devido a dor provocada pela queimadura. Enquanto isso a multidão, aprisionada em sua febre por mais mortes, acompanhou às pressas o cavalo enlouquecido, deixando para trás a mãe de Alba chorando a morte de Nicolau, com a cabeça esfacelada do filho deitada sobre seu colo.&lt;br /&gt;            Chegando à praça, as pessoas encontraram Alba ainda amarrada à sela de Tifão, ela estava muito machucada, quase morta, todavia, insistia em manter-se de pé. Após matarem Tifão – que ainda tentou proteger a menina, ameaçando com seus cascos dianteiros os agressores – com golpes de pau, tiros e foiçadas, os homens da vila se puseram a improvisar uma fogueira, já não eram mais homens, pareciam bem piores que a fera por eles exterminada. Temendo ser espectador da inaceitável desgraça que estava por acontecer, Cristiano recorreu à Zarina e pediu que a velha não permitisse que sua irmã morresse. Então, em nome do grande amor que nutria por aquela pobre menina, Zarina chamou a atenção de todos e gritou:&lt;br /&gt;            _ Escutem-me! Se vós queimardes esta criança na fogueira, não voltarei eu a realizar nem mais um único parto em Nova Friburgo. Sou a única parteira a dezenas de léguas de distância! Caso eu me recuse a trazer vossos filhos ao mundo, nenhum criança vingará de hoje em diante!&lt;br /&gt;            _ Estás a favor da bruxa?! – Quis saber Padre Santiago, tendo seus olhos vacilando nas órbitas e a mão posta sobre o ombro do sacristão que agora serviria-lhe de guia.&lt;br /&gt;            _ Não, santíssimo padre. Bem sabes o quanto sou temente a Deus e da fé que tenho na Igreja Católica. Mas esta criança não tem culpa, ela foi apenas um instrumento nas mãos da Besta! – blefou Zarina, na tentativa de salvar a vida de Alba.&lt;br /&gt;            _ Não vejo parteiras com bons olhos... São todas uma matilha de feiticeiras! – falou o padre rancorosamente, como se por um instante esquecesse de sua repentina cegueira – Ainda mais parteiras de cor, oriundas da África, com todos os seus falsos deuses e cultos pagãos. Mas, talvez tu estejas certa, negra Zarina. Talvez a jovem Gobete tenha sido manipulada pelo diabo. Agora, quem garantir-nos-á que isto não acontecerá novamente?! Ela cedeu ao pecado uma vez, porque não aceitaria um segundo chamado Daquele que habita as profundezas?!&lt;br /&gt;            _ Mande-a embora daqui, padre! Escorrace-a de nossa vila! Deixe que ela sofra as piores mazelas do mundo, sem amigos, sem família, talvez assim ela aprenda a nunca mais deixar-se seduzir pelo mal! Santo padre! Já temos sangue demais em nossas mãos por uma noite! Nicolau, Luísa e a própria fera estão mortos! Demonstremos a Deus que somos benevolentes e que daremos a esta traidora maldita a chance de redimir-se de seus maus-passos. – sugeriu Zarina trincando os dentes, enquanto seu coração sangrava de dor e dó.&lt;br /&gt;            _ Que assim seja. – disse o padre após um longo silêncio.&lt;br /&gt;            Com o aval de Padre Santiago, a multidão não tardou em colher do chão pedras de todos os tamanhos, enquanto Cristiano desamarrava as mãos de sua irmã. Antes que Alba fugisse às cegas e cambaleante, Cristiano implorou soluçando de ira, medo e piedade para que Alba insistisse em sobreviver, apesar das chagas abertas, que ela não desistisse de sua vida.&lt;br /&gt;            O povo da Vila de Nova Friburgo perseguiu a jovem amante da Fera por algumas dezenas de metros, enquanto ela, com a alma e a carne feridas, tentava não escutar os xingamentos, as pragas rogadas, correndo até encontrar um bom esconderijo no mato, onde caiu desfalecida.&lt;br /&gt;            Assim iniciou-se a triste sina. O destino dos amantes havia sido traçado.&lt;/p&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3046022492888605741-6814828211764596559?l=livroalcateia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/6814828211764596559/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3046022492888605741&amp;postID=6814828211764596559&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/6814828211764596559'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/6814828211764596559'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/2007/10/o-anjo-fera-e-o-baro-agora-se-revelavam_5811.html' title=''/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RxZiQxq8vdI/AAAAAAAAACA/FJ6hciydolI/s72-c/En%C3%A9as+Morto.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741.post-4800648467476981137</id><published>2007-10-09T10:49:00.000-07:00</published><updated>2007-10-09T12:44:41.040-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RwvaAxq8vYI/AAAAAAAAABY/NoC6HV3bhM4/s1600-h/Sexo+Alba-EnÃ©as.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5119425108305034626" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RwvaAxq8vYI/AAAAAAAAABY/NoC6HV3bhM4/s400/Sexo+Alba-En%C3%A9as.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RwvZ1Rq8vXI/AAAAAAAAABQ/qdJqk0jYGm4/s1600-h/Sexo+Alba-EnÃ©as.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Naquele mesmo dia, durante o jantar na casa dos Gobete, o assunto inevitavelmente acabou por ser o mesmo que estava sendo discutido em todas as residências de Nova Friburgo: a Fera do Morro Queimado havia matado um homem. Alba tentou por várias vezes trocar olhares com Cristiano, mas o mesmo se encontrava absorto, encarando Nicolau como se estudasse o comportamento de seu irmão, cada colherada que o mesmo levava à boca, cada gole d’água, cada grunhido que ele liberava sempre que o velho Gaspar cogitava alguma teoria acerca dos crimes. Ao perceber o modo como Cristiano o fitava, Nicolau levantou-se da mesa sem dizer palavra alguma e dirigiu-se para os fundos da casa. Poucos minutos depois, como se estivesse a esperar por um momento oportuno, Cristiano pediu permissão ao pai para também ausentar-se da mesa antes que terminasse sua refeição e repetiu os mesmos passos de Nicolau.&lt;br /&gt;_ O que tens aí, meu irmão? – quis saber Cristiano ao encontrar Nicolau agachado nos fundos do quintal, cavando a terra com suas próprias mãos.&lt;br /&gt;_ Deixa-me! De meus assuntos cuido eu! – disse Nicolau erguendo-se transtornado, tendo nos braços algumas peças de roupa.&lt;br /&gt;_ O que há? Acordei quando chegaste nesta última madrugada. Vi-te a banhar-se às pressas para logo em seguida enterrar tuas próprias roupas nesta cova. O que estás a esconder? – insistiu Cristiano, enquanto erguia um lampião a fim de estudar melhor aquilo que Nicolau parecia não querer de modo algum que fosse visto.&lt;br /&gt;_ Queres apanhar até borrar as calças?! Deixa-me! – gritou o homem tomado por grande exaltação, tendo os olhos febris postos sobre o irmão.&lt;br /&gt;Antes que Cristiano falasse qualquer coisa, uma faca caiu do amontoado de roupas, causando grande espanto ao jovem que repentinamente teve seus sentidos invadidos por tremendo horror.&lt;br /&gt;_ O que fizeste?! É sangue o que vejo nesta faca?! O que fazes quando abandonas nossa casa tarde da noite e só retornas alta madrugada?!– perguntou Cristiano apavorado, afastando-se lentamente de Nicolau, como se o desconhecesse.&lt;br /&gt;Possesso, Nicolau livrou-se das peças de roupa que trazia em seus braços e avançou sobre Cristiano na tentativa desesperada de silenciá-lo para sempre, fazendo com que o jovem deixasse que o lampião se espatifasse, causando um pequeno incêndio no quintal. Aterrorizado, Cristiano pôs-se a debater-se e a gritar por ajuda, enquanto seu próprio irmão, com mãos poderosas, tentava estrangular-lhe o pescoço. Apenas o som de um tiro foi capaz de fazer com que Nicolau largasse seu irmão, que já se encontrava quase em choque, sem condições de recobrar o fôlego. Ao ver o pai apontando a espingarda em sua direção, Nicolau deixou-se cair de joelhos e chorou como quem admite a própria derrota, não haveria mais como manter seu erro sepultado. Vendo que a situação já se encontrava sob controle, Alba correu a fim de auxiliar Cristiano, temendo que Nicolau mais uma vez o atacasse.&lt;br /&gt;_ Eu o matei, pai... Envergonhei o senhor! – revelou Nicolau, desenrolando o amontoado de roupas sujas de sangue e revelando algo ainda mais grotesco. Vísceras e órgãos humanos encontravam-se envolvidas na blusa de Nicolau, atestando que ele havia realmente feito algo abominável.&lt;br /&gt;_ Zarina, recolhe estas roupas e estas entranhas e atira tudo nesta fogueira! Senhor, não é prudente que continues a apontar esta arma na direção de teu varão. Acalma-te! Tenho certeza de que Nicolau nos dará uma explicação para tudo isto! – disse Dona Martina com uma espantosa frieza, a fim de poupar seu filho de um destino semelhante ao do primogênito que havia perdido em um incêndio.&lt;br /&gt;_ Ele é a Fera, mãe!!! Nicolau é a Fera do Morro Queimado!!! – gritou Cristiano ainda abraçado à Alba.&lt;br /&gt;_ Fecha esta maldita boca, asno insolente! Queres que todos escutem teus despautérios? Entremos todos, independente do que esteja a ocorrer aqui, resolveremos isto como uma família. Palavra alguma acerca de tais fatos sairá desta casa! – impôs Dona Martina, pegando Nicolau pelo braço e conduzindo-o trôpego para o interior da casa.&lt;br /&gt;Nicolau havia matado o boticário. Revelou com uma assombrosa riqueza de detalhes como havia praticado seu brutal crime, desde como havia ludibriado sua vítima a acompanhá-lo em uma noitada de bebedeira até executá-lo friamente. Todavia, negou em nome da santa cruz qualquer participação na morte das mulheres do prostíbulo, disse que havia assassinado o boticário por razões passionais.&lt;br /&gt;_ Ele iria levar minha Luísa embora... – falou Nicolau arrancando seus cabelos com as próprias mãos, chorando como uma criança enlouquecida.&lt;br /&gt;_ Luísa?! A meretriz da casa de Rose Bijou?! – perguntou indignada Dona Martina.&lt;br /&gt;_ Sim, minha mãe. Eu a amo... Mas não tenho posses para tirá-la da vida. O boticário prometeu que a levaria embora para o Rio de Janeiro, prometeu casar-se com ela e transformá-la em uma dama da sociedade. Fiquei desesperado...&lt;br /&gt;_ Então querias tu dar-me por nora uma vadia imoral e depravada?! Que deixasses o feioso do Heitor enfeitar sua cabeça medonha com os córneos que aquela mundana certamente lhe aplicaria! – bradou dona Martina, decepcionada com a atitude do filho.&lt;br /&gt;_ Eu pedi para que ele a deixasse! Eu não queria matá-lo, foi um acidente... – tentou justificar-se Nicolau.&lt;br /&gt;_ Acidente?! – protestou Cristiano, passando uma das mãos sobre as marcas que ainda tingiam-lhe de vermelho e roxo o pescoço – Arrancaste os olhos e as tripas daquele pobre infeliz por acidente?!&lt;br /&gt;_ Foi o único jeito! Dei-lhe na cabeça um potente golpe com um porrete. Arrependi-me, tentei acordá-lo, mas o homem já estava sem vida. Lembrei então da Fera do Morro Queimado e estripei-o... Deixei seu corpo diante da igreja... assim ninguém suspeitaria de mim... – confessou Nicolau os detalhes sórdidos de seu terrível ato, enquanto seu pai o observava envergonhado.&lt;br /&gt;_ Por que arrancaste os olhos do senhor Heitor, Nicolau? – quis saber Alba, já que a Fera de Nova Friburgo jamais havia feito o mesmo com suas vítimas.&lt;br /&gt;_ Para que ele nunca mais pusesse os olhos sobre aquilo que me pertence. Luísa é minha, Alba. Minha! – disse com um tom de voz firme Nicolau, batendo o punho cerrado sobre a mesa.&lt;br /&gt;_ O nome dos Gobete agora não mais passa de um amontoado de esterco. Estamos falidos moralmente... – suspirou Gaspar, sem conseguir olhar o filho nos olhos.&lt;br /&gt;_ Meu marido, foi a Fera quem matou o boticário. E ninguém que viva sob este teto dirá algo diferente. Aconselho-te a manter silêncio absoluto sobre esta atrocidade, Cristiano, caso não queiras que eu mesma parta teu pescoço ao meio! Que isto sirva-te de aviso também, Alba. Quanto a ti Zarina, prometo que coloco-te novamente em ferros se ousares levantar falso testemunho contra meu filho. Tu, Nicolau, nunca mais voltarás a esfregar-te com meretrizes... Que Deus transmude-me em uma suína antes que eu torne-me avó de um bastardo. Agora, nos deitemos. Esta noite acaba aqui. – fez valer sua vontade Dona Martina, indo deitar-se como se o gesto hediondo do filho não houvesse passado de uma banalidade.&lt;br /&gt;Encolhida sob as cobertas, Alba pegou-se pensando em como faria para carregar consigo aquele terrível segredo. Não imaginava com que olhos enxergaria o próprio irmão quando o dia raiasse, apesar da compaixão que por ele sentia, apesar do mesmo encontrar-se visivelmente arrependido e assustado, para ela seria por demais difícil aceitar que Nicolau permanecesse impune diante da desumanidade de seu gesto impensado.&lt;br /&gt;Durante a madrugada, Alba acordou atordoada devido a um triste som que timidamente ecoava por seu quarto, era seu anjo, e ele chorava. Como um menino ferido, ele lamentava. Alba levantou-se e caminhou pelo quarto, guiando-se pelo som do pranto de seu anjo. Ao encontrá-lo sentado sobre o chão e recostado à parede, Alba ajoelhou-se diante dele e ergueu a mão para tocá-lo, mas, com um gesto brusco, o anjo a impediu, segurando seu braço com força e dizendo:&lt;br /&gt;_ Por favor, não me toque!&lt;br /&gt;_ Por que choras? – perguntou Alba preocupada, na tentativa de fazer com que a dor de seu protetor cessasse.&lt;br /&gt;_ Porque estou amaldiçoado! O meu amor por ti nos amaldiçoou...&lt;br /&gt;_ De que falas? O amor não amaldiçoa, ele liberta!&lt;br /&gt;_ E o que sabes tu acerca das coisas do amor?! Mal deixaste de ser uma menina!&lt;br /&gt;_ Mas, meu anjo...&lt;br /&gt;_ Não sou um anjo! Estou bem mais perto do Diabo que de Deus! Pensas que me conheces?! Pois saibas tu que, na primeira noite que adentrei teu quarto, vim a fim de trazer a morte para dentro de tua casa, mas... ao ver-te com íntima proximidade, o teu respirar, o teu cabelo disperso sobre o travesseiro, o teu sono... O criminoso dentro de mim tornou-se um fraco e então amei-te ainda mais! E ainda amo-te, desgraçadamente!&lt;br /&gt;_ Querido, amo-te com a mesma intensidade e também sou ignorante quanto às razões que levaram-me a amar-te!&lt;br /&gt;_ Se tu pudesses ver meu rosto agora? E se eu te parecesse um homem de feições repulsivas? Ainda assim me amaria?&lt;br /&gt;_ Não tenhas dúvida!&lt;br /&gt;_ Tu não sabes nada! Não conheces a dor de se viver em função da morte! Tu não sabes!&lt;br /&gt;_ Por que me falas de tais coisas às quais não entendo?&lt;br /&gt;_ Por que hoje vim aqui a fim de despedir-me de ti...&lt;br /&gt;_ Não! O que dizes?! Prometeste-me que virias todas as noites! Juraste-me!&lt;br /&gt;_ Juras são tão frágeis, meu bem, tão fáceis de serem quebradas!&lt;br /&gt;_ ... Por que, meu anjo?&lt;br /&gt;_ Não me chame assim! Não sou um anjo! Não sou nada além de um desencadeador do caos, apenas isto! – sussurrou o estimado intruso com tal ímpeto que mais parecia estar aos berros.&lt;br /&gt;_ Meu amado... – disse Alba com um triste gemido, novamente tentando acariciar o anjo, notoriamente aturdido.&lt;br /&gt;_ Pára! – exclamou ele repreendendo-lhe o gesto – Não me conheces! Não sabes quem sou! Como podes dirigir-me amor? ... Preciso ir!&lt;br /&gt;_ Leva-me contigo! - exigiu Alba, pondo-se como uma muralha diante de seu soturno companheiro.&lt;br /&gt;_ O que me pedes, Alba? Não posso... – relutou o anjo, sentindo-se cada vez mais enfraquecido devido à assustadora força daquela jovem mulher.&lt;br /&gt;_ Então, dê-me a graça de seu amor e despose-me!&lt;br /&gt;_ Enlouqueceste?! Isto não! Tua honra...&lt;br /&gt;_ Deve-me isto!&lt;br /&gt;_ Por favor, Alba...&lt;br /&gt;_ Desonra-me!!!&lt;br /&gt;Convicta de seus desejos, Alba agarrou com ternura a mão de seu amante e pôs sobre seu seio. Perdido na imensidão do que sentia, aquele maldito anjo não teve subterfúgios que o impedissem de consumar sua mais ensandecida vontade, precisava loucamente amar Alba. Delicadamente, as roupas foram jogadas ao chão, a fricção das peles despidas arrancou silenciosos gemidos de ambos, amaram-se. E o amor fez-se como um ritual de carne, os odores oriundos dos poros, as palavras incompreensíveis sussurradas aos ouvidos ensurdecidos pelo êxtase orgástico, a lágrima da despedida.&lt;br /&gt;Após a consumação do amor, o anjo decaído ergueu-se da cama e disse com a voz engasgada: &lt;em&gt;"Este parece ser o início do fim, minha criança"&lt;/em&gt;. E, em seguida, a sensação de presença desapareceu do quarto. Mais uma vez Alba encontrou-se sozinha, experimentando a triste certeza de que sua solidão estenderia-se por tempo indefinido.&lt;br /&gt;O dia raiou com o movimento e o falatório do povaréu correndo aos montes em direção à igreja. Cristiano, como se não se importasse mais com as determinações de seu pai e de sua mãe, novamente havia convencido Alba a acompanhá-lo, do mesmo modo que fizera desde que o corpo da primeira vítima havia sido encontrado diante da casa de Deus. A fatal lâmina da morte havia ceifado a vida de Margarida, chagando seu pobre corpo com uma atrocidade tão pavorosa quanto às outras, o pescoço dilacerado, a cútis empalidecida, os olhos vidrados guardando na íris uma expressão de horror.&lt;br /&gt;A algazarra dos basbaques apenas cessou quando os cacos de Tifão anunciaram que o jovial e garboso Barão Enéas Caronte estava a se aproximar. Ao ver o estado no qual o corpo da jovem prostituta se encontrava, o barão suspirou surpreso e procurou não encarar o semblante de Rose Bijou, histérica, adoecida pelo medo e pela dor da perda, que apenas conseguiu arrastar os olhos de seu maior protetor para dentro dos seus quando gritou:&lt;br /&gt;_ Por favor, Enéas! Faça com que estes crimes parem!&lt;br /&gt;_ Luísa... leve Rose para casa. É prudente que ela descanse a alma e a mente, senão correremos o risco de perder seu bom coração.&lt;br /&gt;_ Enéas... – disse Luísa, após amparar o corpo de Rose Bijou ao seu.&lt;br /&gt;_ Sim, Lulu? – quis saber gentilmente o barão o que a moça queria dizer-lhe.&lt;br /&gt;_ Eu sou a última. Eu... eu não quero morrer! – suplicou a mulher, tentando evitar o pranto a fim de não causar maior comoção à sua protetora.&lt;br /&gt;_ Acalma-te. Preocupa-te em cuidar de Rose e deixe que cuidarei eu destas atrocidades.&lt;br /&gt;Confiante nas palavras daquele homem que sempre havia protegido Rose Bijou e suas meninas do assédio moral daqueles que eram contra a existência de um prostíbulo na Vila de Nova Friburgo, Luísa preferiu conduzir Rose Bijou para longe daquela tragédia incessante.&lt;br /&gt;_ Deus, por que tu não fazes com que o corpo destas rameiras amanheça na soleira de quem as mereça?! – Gritou Padre Santiago, que aproximou-se febril da multidão instantes após a saída de Rose e Luísa.&lt;br /&gt;_ Se for por merecimento, o corpo desta mulher que tu chamas de rameira está na porta certa! – ironizou o barão, causando estrondoso reboliço dentre os presentes.&lt;br /&gt;_ Ora, Enéas Caronte... – tentou revidar a ofensa a ele dirigida o Padre, todavia, sendo abruptamente interrompido por um Cristiano cada vez mais ousado em suas intromissões.&lt;br /&gt;_ Nova Friburgo urge de pressa, não temos mais tempo disponível para apreciarmos novo debate dentre os senhores, barão! – gritou Cristiano – Algo precisa ser feito!&lt;br /&gt;_ Isto é desespero ou pura arrogância, rapaz?! – repreendeu Enéas a atitude de Cristiano, logo em seguida, respondendo aos apelos do jovem – Apesar de teus abusos e de teu incômodo mau costume de interpelar nossos harmoniosos duelos verbais, sou obrigado a concordar contigo. Prometo que algo será feito!&lt;br /&gt;_ E quanto às tuas cavalgadas noturnas, Barão? Nada viste de suspeito em nenhuma delas? – perguntou temerosamente o açougueiro.&lt;br /&gt;_ Ora, Giordano, seu insolente animal! De que me acusas?! De compactuar com a Fera, acobertando seus crimes?! Trate-me com prudência pois teu nobre ofício é o mesmo que pode vir a atirar-te na latrina dos suspeitos!&lt;br /&gt;_ Perdoe-me, senhor!... – implorou o homem, temendo que a histeria popular acabasse por vitimá-lo – Perguntei por perguntar. Também estou assustado... Dizem que a fera que matou o boticário é outra, que a morte dele foi diferente... – Explicou-se o homem, fazendo com que Alba pressionasse sua mão contra o braço de Cristiano.&lt;br /&gt;_ Compreendo que estejam todos muito assustados, mas o temor à própria sombra nestas horas de aflição é péssimo conselheiro.&lt;br /&gt;_ Sim, Barão, é uma sombra que devemos temer... – manifestou-se o Padre, tendo na face um olhar aterrador – A mesma sombra que te cerca como um véu de pústulas demoníacas!&lt;br /&gt;_ Cala-te lunático! Cansei-me de tuas excentricidades! – esbravejou o Barão, girando a cabeça de seu cavalo na direção do sacerdote.&lt;br /&gt;_ Silencia para sempre tu, infiel! Agora é a voz de Deus que fala através de mim! Dentre os presentes, tenho como testemunhas os mais velhos de Nova Friburgo... Eles confirmarão minhas palavras! Quem, dentre vós aqui não se lembraria do dia em que Amúlio Caronte e Réia Sílvia chegaram em nossa vila?&lt;br /&gt;Um punhado de populares um pouco mais ousados que os demais ergueu o braço, timidamente, temendo represálias por parte de Enéas Caronte, confirmando que realmente recordavam do evento.&lt;br /&gt;_ Pois bem. – deu prosseguimento o Padre, sem se importar com o olhar inquisidor do Barão quase ateando fogo a seu hábito – Se os conhecem de longas datas, então lembram-se de quando eles vieram viver em Nova Friburgo, eram recém-chegados de Portugal e estavam indo viver no Casarão que haviam mandado construir com antecedência, reproduzindo em sua arquitetura o estilo de seculares castelos europeus, ornamentando-o com aquela estátua medonha que parece guardar os portões do próprio inferno. Quando Amúlio Caronte e Réia Sívia, ainda sem filhos, teus pais – bradou o padre apontando um dedo acusador para o barão – vieram viver aqui, eu era apenas um inocente mancebo, ainda na flor da juventude. Todavia, como rege a natureza e os desígnios divinos, eu envelheci. Porém, meu caro barão, o tempo dobrou uma curva e não passou por aqueles dois forasteiros! Mantiveram-se por décadas com o mesmo viço da juventude. Como aquilo poderia ser possível senão através de artes satânicas?! Por que tu, que já deve estar às portas dos trinta anos de idade, mantém-se jovial, tendo na pele e no vigor o viço de uma debutante?! E, para aumentar ainda mais o grande mistério acerca de teus pais, ambos fizeram há dez anos uma viagem da qual jamais retornaram, deixando-te como único herdeiro de todos os bens e de teu título. Diz-me onde estão, Enéas... Seria no inferno? Antes eles jamais houvessem gerado criança alguma! Partiram para a morada da besta mas deixaram a semente de seus pecados germinando em nossa amada terra!&lt;br /&gt;_ Basta, réptil ingrato! Meus pais foram responsáveis pela transformação desta sentina na vila promissora que é hoje. E é assim que vós agradeceis?! Já escutei muitos rumores difamatórios motivado pelo fanatismo religioso que tu impões a estes ignorantes! Vós acusais meus pais de bruxaria, sacrifícios humanos e outras insinuações bárbaras! É realmente bem típico de gente parva como vós não aceitar o modo de vida reservado de meus pais... E inclusive o meu!&lt;br /&gt;_ Ignorantes?! Barão, sejamos francos! O que esperas que eu pense de pessoas que levam no sobrenome de família o nome da criatura mitológica do mundo inferior grego que transportava os recém-mortos na sua barca para o Hades, o inferno grego, barão?!&lt;br /&gt;_ Precisas conhecer minha prima... Perséfone! – revidou Enéas com um traiçoeiro sorriso esboçado em seus lábios.&lt;br /&gt;_ Monstro!&lt;br /&gt;_ Amordaça de uma vez esta tua boca repleta de falsos juízos! E aqui, dentre vós, aqueles que estiverem de acordo que expulsemos este louco da cidade, ergam o braço! – inquiriu Enéas, fazendo com que Tifão girasse, para que ele pudesse fitar os olhos de cada um dos cidadãos da Vila de Nova Friburgo.&lt;br /&gt;Para surpresa do barão, as pessoas mantiveram-se impassíveis, olhando anestesiadas para o homem montado sobre seu cavalo e vislumbrando em suas mentes, carregadas de fábulas e mitos, as palavras do padre. Nenhum dos presentes atreveu-se a erguer a mão. Decepcionado, Enéas lançou um olhar de desprezo sobre todos e, em seguida, voltou-se com doçura para Alba, dizendo: &lt;em&gt;"Este parece ser o início do fim, minha criança".&lt;/em&gt; Após dizer isto, o barão fincou as esporas em seu majestoso cavalo negro e desabalou cavalgando rumo ao seu casarão.&lt;br /&gt;Ao ouvir aquela frase, Alba afastou-se de Cristiano e pôs-se a perambular aturdida pelas ruas da cidade. Como poderia o barão ter pronunciado a mesma frase que seu anjo havia lhe dito no momento da amarga despedida? &lt;em&gt;"Este parece ser o início do fim, minha criança".&lt;/em&gt; Sua voz... A voz do Anjo... A voz do Barão... Os sussurros no breu do quarto haviam mascarado o som das palavras daquele que invadia sua dormida, seus sonhos. Repentinamente, Alba viu um homem a cavalo e – temendo mais uma vez deparar-se com o rosto que tantas vezes seu anjo havia se negado a revelar – invadiu uma casa que se encontrava de portas abertas e lá permaneceu escondida atrás de véus e cortinas até que o cavaleiro passasse. O toque de uma mão em seu ombro fez com que Alba desse um salto repentino, encontrando atrás de si o rosto sulcado de uma velha senhora que com certa cautela falou-lhe::&lt;br /&gt;_ Sei porque estás aqui, menina! Anda, senta-te à mesa para que eu possa ler-te a sorte. Quem indicou-me deve ter dito que nada cobro, apenas o silêncio. Temo que o Padre me lance aos cães caso descubra meu dom de família. Anda. Não seja tímida.&lt;br /&gt;Sob insistência da mulher, Alba sentou-se em uma cadeira e entregou sua mão direita à velha. A senhora então observou as linhas, os contornos, e exclamou:&lt;br /&gt;_ Hum! Estás amando, criança?! Vejo que tu sofres por causa deste amor... Que pena, és tão jovem! Sofres tanto, sofres bastante... – A expressão da mulher pouco a pouco transmudou-se do sereno para o angustiado, já não lia mais a mão de Alba, lia os olhos da menina – E virá muito mais sofrimento! ... Foge...! Foge deste homem a quem entregaste teu coração! Ele não pode amar... Nem ser amado... Ele traz a morte em sua boca! Estou vendo! Estou vendo! Foge dele, criança!... Foge!... Foge!...&lt;br /&gt;Tomada por um desconforto gigantesco, Alba desvencilhou-se das mãos enrugadas daquela mulher de rosto pacato e envelhecido e saiu correndo daquela tenda cigana disfarçada em casa. A jovem se encontrava à margem da loucura, não parava de correr e não sabia para onde seguir, que caminho tomar a fim de esquivar-se do fatal golpe que o destino havia aplicado contra sua tão recente mocidade. As pessoas olhavam para ela sem compreender seu desnorteio, sua infantil agonia ao esbarrar nos transeuntes como se estivesse às cegas, rodopiando, entorpecida por sua penosa descoberta.&lt;br /&gt;_ Sossega, Alba! Sou eu! – gritou Cristiano abraçando sua irmã com força, que reagiu esbofeteando-o energicamente, em prantos.&lt;br /&gt;Apenas quando sua irmã acalentou-se em seus braços e permitiu ser tranqüilizada, Cristiano resolveu levá-la para casa a fim de que nenhum conhecido a encontrasse naquele estado. Durante o caminho, Alba desculpou-se, ainda secando as lágrimas dos olhos, argumentando que seu repentino transtorno devia-se às fortes impressões que a morte de Margarida haviam lhe causado. Ainda consternado diante do surto nervoso que sua irmã havia sofrido, Cristiano preferiu acreditar em suas palavras e evitar desnecessárias perguntas que ela certamente se recusaria a responder, sabia ele que tais reações são inerentes ao comportamento feminino, que frágeis mulheres reagem muito mal diante daquilo que, aos olhos de um homem, não passaria de mera banalidade.&lt;br /&gt;A Roda da Fortuna&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=3046022492888605741#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt; que lançava a sorte de Alba parecia ter perdido completamente o controle. Naquele mesmo dia, a noite caiu como a promessa da chegada do pior suplício. Alba procurara o aconchego de seu quarto ainda cedo, apesar de não saber se realmente queria que seu falso anjo viesse visitá-la àquela noite. E, apesar da incerteza de seus próprios desejos, Alba sentia-se preparada, iria resistir o tempo que fosse necessário a fim de que o sono não a derrotasse, ansiava presenciar a chegada de seu anjo, seu guarda, seu demônio pessoal.&lt;br /&gt;As horas arrastaram-se sorumbáticas até as portas da madrugada. Alba mantinha a imensidão de seus olhos azuis fixada no escuro infinito do quarto, buscando um rosto oculto por uma máscara de sombras e trevas, um rosto que já amava antes mesmo de conhecê-lo. De repente, uma certeza estranha povoou seus pensamentos como se ela escutasse uma voz sussurrada pela própria escuridão. &lt;em&gt;"Ele não virá".&lt;/em&gt; Alba procurou manter-se calma, mas aquela manifestação espectral de som insistiu em convencê-la. &lt;em&gt;"Ele não virá".&lt;/em&gt; O tempo havia adquirido uma velocidade assombrosa, talvez aquela voz que murmurava sem palavras estivesse certa. &lt;em&gt;"Ele não virá. Ele morrerá em breve. Tu precisas vê-lo antes que ele morra".&lt;/em&gt; Alba saltou de sua cama experimentando uma terrível inflamação em seus sentidos, então, uma força quase que sobrenatural a transportou para a rua, para os perigos da noite. Como se tentasse ultrapassar os ponteiros de um implacável relógio, Alba pôs-se a correr em direção à igreja, precisava chegar lá antes que algo de horrível acontecesse, era necessário.&lt;br /&gt;Ao chegar à praça de Nova Friburgo, Alba cessou sua corrida e escondeu-se atrás de uma árvore, observando um casal no coreto, em pleno ato sexual. Um calafrio percorreu todo seu corpo quando seus olhos finalmente identificaram o homem e a mulher que se amavam no meio da rua sem nenhum recato ou pudor, como animais no cio. &lt;em&gt;"Nicolau... Luísa...",&lt;/em&gt; disse Alba baixinho aqueles dois nomes que agora lhe causavam um forte desconforto, temia as intenções do irmão que parecia adoecido por seus próprios sentimentos, talvez a proibição materna e a traição da amante que quase o deixara pelo boticário o levassem a cometer um novo e ainda mais passional delito.&lt;br /&gt;Após o gozo dos corpos e recompostas as vestimentas, Nicolau estendeu o braço para Luísa e saíram ambos a caminhar sorridentes, como se estivessem sob um dominical sol de verão. Discretamente, Alba seguiu-os sem deixar-se ser vista, não sabia o que procurava ou se ao menos realmente desejava encontrar algo, todavia, tinha ela indubitável certeza de que algo a encontraria. &lt;em&gt;"Meu irmão também é uma fera... Pobre mulher!",&lt;/em&gt; pensou a jovem, temendo as variações de humor do primogênito Gobete.&lt;br /&gt;No momento em que Nicolau e Luísa já se encontravam em frente à igreja, pôde-se escutar o bater das ferraduras arrancando faíscas das pedras toscas, o cavalgar como o pior horror da morte, a revelação do medo em sua total pureza. O homem sobre o cavalo era o Barão Enéas Caronte, pois aquele belíssimo eqüino era Tifão, apenas era possível reconhecer o cavaleiro devido sua rica montaria, pois... Meu Deus!... Seu rosto!... Seus olhos! Luísa olhou-o nos olhos, eram cor-de-mel, refletiam o sutil brilho do lusco-fusco dos postes, eram de um douro exuberante... E sua boca, sua boca trazia a morte... E a morte vinha nos dentes, dentes de uma fera maldita, que buscava carne, que buscava sangue, que devoraria Luísa. O que estava ali, diante dos olhos de três vultos perdidos na noite, era o até então mítico homem-fera, homem-lobo, uma lenda viva cavalgava e trazia na boca o sabor de um funeral... Um homem-lobo, meu Deus!... Um homem-lobo!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=3046022492888605741#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Roda da Fortuna: É o décimo arcano maior do tarô. Representa as situações de mudanças em nossa vida.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3046022492888605741-4800648467476981137?l=livroalcateia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/4800648467476981137/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3046022492888605741&amp;postID=4800648467476981137&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/4800648467476981137'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/4800648467476981137'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/2007/10/naquele-mesmo-dia-durante-o-jantar-na.html' title=''/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RwvaAxq8vYI/AAAAAAAAABY/NoC6HV3bhM4/s72-c/Sexo+Alba-En%C3%A9as.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741.post-2228367357978614389</id><published>2007-10-03T12:40:00.000-07:00</published><updated>2007-10-03T12:41:49.181-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RwPwbBq8vWI/AAAAAAAAABI/75g77OYR-Ko/s1600-h/Beijo+Alba-EnÃ©as.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5117197948718726498" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RwPwbBq8vWI/AAAAAAAAABI/75g77OYR-Ko/s400/Beijo+Alba-En%C3%A9as.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os dias passaram e a morte da jovem Julieta acabou por desvanecer-se dos pensamentos do povo. Paulatinamente, a vila de Nova Friburgo retornou aos mexericos, intrigas, bisbilhotices e comentários maldosos que faziam parte de sua original rotina: possíveis adultérios, famílias que vivam de pompa e ostentação apesar de se encontrarem à beira da falência, jovens donzelas que haviam sido levadas embora por algum poeta, casamentos feitos à pressas a fim de não se deixarem alcançar pelo escândalo de uma gravidez concebida antes do sagrado matrimônio. Tais falatórios pareciam capazes de trazer à vila de Nova Friburgo a sofisticação das conversas de salão que apenas existiam na corte, ninguém parecia perceber malícia alguma no ato de esmiuçar em detalhes sórdidos a vida das pessoas com as quais conviviam, a privacidade só era exigida do ponto de vista daqueles que eram vitimados por tais intrigas, geralmente caluniosas, porém capazes de abalar seriamente a reputação e o crédito de alguém perante o julgamento da sociedade friburguense.&lt;br /&gt;Todavia, pouco mais de três semanas duraram as usuais conversas imbuídas de difamações infundadas. Também acabaram por silenciar os idealistas que ansiavam por um Brasil republicano e os abolicionistas que exigiam o fim da escravidão. O único assunto que parecia ter tomado conta de toda a vila dizia respeito a mais nova vítima da Fera do Morro Queimado, uma outra prostituta, chamada Camila.&lt;br /&gt;Alba e Cristiano haviam saído bem cedo de casa a fim de pegarem na venda as peças de cambraia que Dona Martina havia solicitado uma semana atrás. Porém, antes mesmo que pudessem chegar à casa de tecidos, os jovens Gobete acabaram sendo arrastados pelo alarido de pessoas correndo em direção à praça da Igreja. Enquanto Alba gritava para o irmão que precisavam pegar a encomenda de sua mãe, Cristiano continuava a correr como se não a escutasse, puxando-a pela mão e levando-a de encontro aquilo que Alba sentia tratar-se de um novo crime bárbaro.&lt;br /&gt;A praça já se encontrava repleta de curiosos acotovelando-se a fim de darem uma atenta espiada no corpo de Camila. Após muito esforço, Cristiano conseguiu esgueirar-se dentre os presentes, tomando cuidado para não largar a mão de sua irmã, finalmente chegando ao cadáver jogado diante da entrada da Igreja. Pobre Camila. Estava praticamente decapitada, sua cabeça encontrava-se unida ao corpo apenas por um pedaço de pele, parte de suas vísceras – que haviam sobrado do tenebroso banquete – se encontravam ao lado de seu corpo, que mais parecia uma carcaça sem a substância dos órgãos que antes lhe garantiam a vida, que fora arrancada de maneira brutal.&lt;br /&gt;Da mesma forma que um espetáculo teatral que se repete para animar novos ou costumeiros espectadores, Padre Santiago abriu as portas de sua Igreja para vivenciar seu canastrão papel de maior representante de Deus na Terra. Antes que se pusesse a empurrar com os pés o corpo de Camila, o pároco foi subitamente interrompido por Rose Bijou que, aos gritos, exigiu que ele não ousasse tocar em sua protegida. E, possuído por um simulacro de fúria sacerdotal em prol de seu ofuscado rebanho, o padre iniciou seu inflamado discurso, arquitetado com as mesmas palavras de seus sermões, que pouco ilustravam bem-aventurança e muito diziam sobre seu hipotético inferno.&lt;br /&gt;_ Filhos de Nova Friburgo! Meus filhos! O que vós tende diante dos olhos nada mais é que pura e refinada manifestação satânica. O caminho que a Besta trilha para corromper nossas almas envereda pelas estradas e atalhos do pecado! E estas mulheres pecam contra a castidade, fornicam em busca de sensações viciosas e sensuais, deitam-se em gesto libidinoso tendo nas partes o fogo licencioso do inferno. Espero que o Demônio leve embora cada uma destas cadelas, inclusive à esta senhora que trouxe para a nossa vila a sua própria Babilônia!&lt;br /&gt;_ Eu não sei como suportas o peso de tuas próprias palavras! – revidou a cafetina, com lágrimas nos olhos – Estou diante de um crápula sem coração que se diz um pastor de Deus mas que pouco faz para cuidar de seu rebanho! O Bom Pastor cuidaria bem de todas as suas ovelhas, e não abandonaria principalmente às mais necessitadas. O problema não é o fato de eu e minhas rosas vivermos em função daquilo que tu chamas de pecado... O que alimenta-te os rompantes injuriosos é o fato de ovelhas magras não terem pêlos suficientes para tecer uma dalmática que possa vestir-te com primor!&lt;br /&gt;_ De que acusas, meretriz?! – gritou o padre, visivelmente ofendido.&lt;br /&gt;_ De voltar os olhos de Deus para o dinheiro dos fiéis que freqüentam a tua igreja! – gritou Rose Bijou, causando vertiginoso espanto dentre todos os presentes.&lt;br /&gt;_ Ora, sua... – disse o padre erguendo a mão em riste contra a mulher sentada ao chão, abraçada ao corpo de Camila.&lt;br /&gt;Repentinamente, a discussão foi interrompida pelo trote de um cavalo. Ao perceber de quem se tratava, a multidão respeitosamente abriu caminho e, do meio da loucura do povo, o Barão Enéas Caronte surgiu montado em seu garboso cavalo, Tifão. Apesar de sua aparência imberbe e rosto iluminado por gentil beleza, o Barão repreendeu com um olhar severo o gesto ameaçador do padre e em seguida voltou seus olhos com ar de cumplicidade para as prostitutas, falou:&lt;br /&gt;_ Margarida, Luísa... Levem madame Rose Bijou para casa. Danilo, providencie uma carroça e leve o corpo de Camila para o cemitério. – Ordenou Enéas, sendo prontamente atendido, enquanto todos o observavam com reverência quase semelhante àquela dirigida ao sacerdote da vila.&lt;br /&gt;Indignado diante da postura do Barão, Padre Santiago continuou a falar de modo que todos pudessem ouvi-lo:&lt;br /&gt;_ Então... Conheces estas prostitutas?&lt;br /&gt;_ Que nova tolice é esta agora, Padre Santiago? Bem sabes que sou um freqüentador assíduo de nossa melhor casa de diversões. Sem sombra de dúvidas, o lar de Rose Bijou é bem mais animado que a casa de Deus. – provocou o Barão com um cínico sorriso nos lábios.&lt;br /&gt;As pessoas comentaram assustadas, benzendo-se e erguendo os olhos na direção do céu, motivando o padre a dar prosseguimento às suas entusiasmadas admoestações:&lt;br /&gt;_ Como ousas comparar a casa de Deus a um prostíbulo?!&lt;br /&gt;_ Não estou a fazer comparações, padre. O prostíbulo, deveras é bem melhor. – continuou o Barão a excitar o povo ao seu redor.&lt;br /&gt;_ Animal imundo!!! – resmungou o padre, voltando-se para seus fiéis.&lt;br /&gt;_ Deverias policiar teus modos ao dirigir-me a palavra, padre. É prudente que tu evites perder esta tua tão ocupada língua. – ameaçou o Barão privando suas palavras do brilho de seus dentes alvos de tanto escárnio.&lt;br /&gt;_ Estás tu a ameaçar um representante da Santíssima Igreja, Barão Enéas Caronte?&lt;br /&gt;_ Basta que eu envie um mensageiro à Corte a fim de entregar uma única correspondência minha ao Bispo para que tu percas tua paróquia, pescas tudo.&lt;br /&gt;_ O Clero reconhece minha santidade! – disse o sacerdote, em tom de desafio.&lt;br /&gt;_ O Clero reconhece muito mais o meu bronze, não tenha dúvidas disto!&lt;br /&gt;_ Já que pretendes enviar um estafeta à Corte, por que não mandas que ele traga um investigador a fim de apurar a morte das prostitutas? Nossa polícia não possui técnica para apurar crimes tão hediondos! – Gritou uma voz no meio da multidão, causando alvoroço dentre os presentes.&lt;br /&gt;_ Ora, não precisamos de um investigador! Precisamos de um homem que seja o melhor na caça! – Sugeriu o Barão, recebendo sobre si um olhar geral de descrédito.&lt;br /&gt;_ Estás a insinuar que um homem é o autor destas atrocidades? – disse mais uma vez a voz, tornando a multidão ainda mais sobressaltada.&lt;br /&gt;_ Quem és tu? Por que permaneces às escondidas já que és tão atrevido?! – quis saber o Barão, fazendo com que Tifão girasse sobre os próprios cascos, a fim de identificar o dono da voz que parecia teimar em desafiá-lo – Não viram o estado do corpo daquela pobre mulher levada daqui por Danilo?! Vós acreditais que um ser humano foi o autor de uma atrocidade daquelas?! Que garras de fera e que bocarra cavernal teria um homem destes?!&lt;br /&gt;_ Animais não escolhem vítimas e muito menos locais para abandonar seus corpos depois de mortas! – Gritou uma outra voz, despertando grande euforia no povo de Nova Friburgo.&lt;br /&gt;_ Sou dono de vossas casas, do comércio onde trabalhais, das terras onde cultivais e onde vosso gado alimenta-se, portanto, eu decido o que está a ocorrer aqui! Quem tirou a vida destas mulheres foi um animal! Astuto e inteligente, reconheço... Mas um animal!&lt;br /&gt;_ E quem será a próxima a perder a vida para a Fera do Morro Queimado? Margarida? Luísa?... Ou uma de nossas esposas e filhas? – Gritou um terceiro manifestante oculto, arrancando hurras da multidão.&lt;br /&gt;Vendo que a situação estava se tornando insustentável, o Barão voltou-se para o padre e falou de modo imperioso:&lt;br /&gt;_ Santiago, procure conter os humores de seus fiéis! Estão muito excitados e és tu o maior responsável por esta paranóia coletiva! Prometo que tomarei em breve as devidas medidas.&lt;br /&gt;_ Ora, volte para seu Casarão, Caronte! – desdenhou o padre das advertências de seu interlocutor.&lt;br /&gt;_ Dirija-me a palavra com mais tato, velho! Trate-me por Barão. E não te esqueças que em todas as redondezas sou eu aquele que dá a última palavra.&lt;br /&gt;Dizendo isto, Enéas Caronte esporou Tifão, fazendo com que o cavalo desabalasse em direção à casa grande na qual o Barão vivia em sua própria ilha de solidão e poder, construída sobre uma elevação de terra que permitia uma visão panorâmica da vila de Nova Friburgo. Para o Barão era simplesmente inadmissível que o povo saísse de seu controle, não poderia permitir que sua autoridade fosse comprometida devido aos últimos eventos. Mas, como daria ele um fim à Fera do Morro Queimado? Como poderia ele conter a fúria de uma criatura que parecia incapaz de ser domada?&lt;br /&gt;Devido ao fato de terem chegado em casa sem a encomenda de Dona Martina, Alba acabou trancada em seu quarto por vários dias, enquanto Cristiano acabou por ser sentenciado a dez chibatadas na parte anterior de suas coxas com a férula de seu pai e também obrigado a realizar trabalhos braçais pesados no negócio de sua família. Há tempos Gaspar Gobete desejava contar com o apoio da mulher para que o filho mais moço finalmente começasse a ajudar no comércio que permitia que eles vivessem com mais dignidade que a maioria dos habitantes de Nova Friburgo. Algumas peças de cambraia esquecidas na venda de tecidos acabou por transformar completamente a vida dos caçulas da família Gobete. Não só Cristiano havia sido forçado a tornar-se um homem responsável, como também Alba vira-se tentada e seduzida a tornar-se mulher, após a primeira noite em que aquele estranho de voz triste invadiu seu quarto. Ele não era um ladrão nem tampouco um assassino, talvez fosse a mistura homogênea de ambos. Mas, antes de tudo, ele era um anjo.&lt;br /&gt;_ Quem está aí? – perguntou Alba com o coração em pânico, sentindo nitidamente que não se encontrava mais sozinha no cárcere de sua imprudência.&lt;br /&gt;_ Queres mesmo saber quem sou? – respondeu com outra interrogação a voz de um homem, e que voz doce ele possuía, não era simplesmente uma voz, era um som, sussurrada para dentro dos primaveris ouvidos de Alba, uma melodiosa canção.&lt;br /&gt;_ Não! Não me interessa! Por favor... Vá embora! Gritarei por meus irmãos e meu pai! Eles são homens fortes e caçar-te-ão sem piedade!&lt;br /&gt;_ Quanto desperdício de talento! Existe um monstro à solta na cidade e estes três bravos senhores que te guardam iriam se dar ao trabalho de dissipar dotes tão necessários, justamente neste momento de dor pelo qual tua vila passa, com alguém tão inofensivo quanto eu?&lt;br /&gt;_ Deixa-me, por Deus! – implorou Alba sentindo as lágrimas banharem seu rosto atemorizado diante da possibilidade daquele invasor escondido sob a escuridão do quarto fazer-lhe algum mal.&lt;br /&gt;_ Por qual motivo queres que eu parta? Não ofereci-te nenhum perigo! Nada disse que pudesse ofender-te...&lt;br /&gt;_ Tenho medo... – revelou a menina com a voz quase presa em sua garganta.&lt;br /&gt;_ Medo? De mim?&lt;br /&gt;_ Sim...&lt;br /&gt;_ Como? Não sabes quem sou... Não sabes porque estou aqui...&lt;br /&gt;_ ... Sei que o senhor pretende fazer-me algum mal... – falou a menina quase emudecida pelo pavor, irrompendo em lágrimas ainda mais volumosas.&lt;br /&gt;_ Não, minha criança! Jamais ousaria molestar-te! Como podes ser tão leviana? Por que precipita-te em julgar-me um mal-feitor?&lt;br /&gt;Alguém com uma voz tão pacata não pode ser o mesmo dono das mãos de um facínora... Pensou Alba, preferindo travar com aquele desconhecido uma conversa comum, apesar da extravagância daquele encontro.&lt;br /&gt;_ Então, o que vieste fazer aqui? Como entrou em minha casa... meu quarto?&lt;br /&gt;_ Escutei tuas preces, meu bem, foste tu que me chamaste.&lt;br /&gt;_ Quem és tu?&lt;br /&gt;_ Sou teu anjo... Estou aqui a fim de guardar-te do mal.&lt;br /&gt;_ Meu anjo?! – espantou-se Alba, diante de tal declaração.&lt;br /&gt;_ Se prometeres guardar minhas visitas em segredo, visitar-te-ei todas as noites. Agora, preciso ir...&lt;br /&gt;_ Para onde? Para o Céu?&lt;br /&gt;O anjo então quase comoveu-se diante da inocência daquela bela menina, respondendo-lhe a pergunta tendo a voz ainda mais suave, mais enternecida:&lt;br /&gt;_ Não, meu bem. O Céu é muito distante. Eu não suportaria ficar longe de teu belo rosto, de teus lindos olhos.&lt;br /&gt;_ Como podes saber-me bela? – perguntou Alba, curiosa.&lt;br /&gt;_ Sou um anjo, querida, a escuridão não atinge meus olhos. Acredite que posso vê-la como se estivesses sob a luz do mais estonteante dos amanheceres. Apenas eu em todo o mundo sei o quanto és bela.&lt;br /&gt;Enrubescida, Alba sorriu com enlevo e permaneceu alguns instantes em silêncio, temendo a ousadia que estava prestes a transformar em palavras.&lt;br /&gt;_ Voltarás mesmo amanhã?... – lançou, temendo parecer atrevida.&lt;br /&gt;_ Retornarei por todos os dias que nos forem dados... Todos os dias. Agora durma, meu bem.&lt;br /&gt;Alba sentiu-se repentinamente sonolenta, contaminada pela melodia daquela doce voz, hipnotizada pelas palavras do anjo. E, sem que ela escutasse o som de janelas ou portas batendo, ele partiu. Alba permaneceu sob as cobertas, enquanto os sonhos invadiam arbitrariamente seus frágeis pensamentos. Em seus sonhos ela agradecia a Deus por ter um anjo, um anjo apenas seu, que iria ouvi-la, guardá-la e amá-la. Ela estava feliz pelo presente que havia recebido da escuridão do quarto. Naquela noite, ela dormiu bem mais tranqüila que nas anteriores, pois ela sabia-se senhora de um anjo, e ele velaria seu sono, em algum lugar que não era o Céu, por este ser longe demais.&lt;br /&gt;Quantas noites foram por aqueles dois seres de naturezas distintas, absorvidas, devoradas sem compaixão alguma? As palavras fluindo sem nenhuma censura, as idéias libertas do crivo do dia-a-dia, superficial, mentiroso, falso. A cada novo encontro com aquele enigmático mensageiro de idéias que ela não conhecia, Alba tornava-se cada vez mais ciente do quanto ela vivia na ignorância das coisas, presa a uma família que não lhe permitia tomar aulas que possibilitassem um conhecimento além daquele que apenas lhe serviria de ferramenta para que ela sobrevivesse a um futuro e inevitável casamento arranjado com algum palerma de meia-idade e gestos rudes. Seu anjo a presenteava, noite após noite, com valiosas informações que ilustravam quão grande era o mundo que ela mal conhecia. Forneceu minuciosas descrições a respeito do Templo de Taleju e do Palácio de Hanuman Dhoka, em Katmandu; descreveu a Criação de Adão e o Juízo Final, primorosamente pintados na Capela Sistina, no Vaticano, pelo renascentista italiano Michelangelo; discorreu inúmeras vezes sobre a filosofia de Tales de Mileto, Platão, Sócrates, Maquiavel, Thomas More, Descartes, Voltaire, dentre outros célebres pensadores; demonstrou por várias vezes, através de uma nasalidade quase infantil – em uma imitação ingênua e caricata dos grandes mestres da música – os sons das mais belas óperas de Sebastian Bach, Antonio Vivaldi, Domenico Cimarosa e Wolfgang Amadeus Mozart. Alba deleitava-se diante de toda a beleza soprada para dentro de seus virginais ouvidos, imaginava-se a passear descalça sobre o som da voz de seu doce anjo, sentindo sob seus pequeninos pés o orvalho, a saliva, o perfume, que emanavam daquela boca vestida de sabedoria e sombras.&lt;br /&gt;_ Como consegues entrar aqui sem que ninguém de minha casa desperte? Como podes tu violar as janelas e as portas de nossa morada sem que os solavancos da invasão, indevidamente permitida por mim, te denunciem? – perguntou Alba ao seu anjo em uma das muitas noites que furtaram em segredo, justamente aquela que acabou por ser o marco do adeus que parecia espreitá-los.&lt;br /&gt;_ E por que tu sempre me recebes com uma pergunta? – Brincou o misterioso visitante, quase rindo do singelo ar de impaciência daquela doce menina que ele próprio arbitrara tratar da guarda.&lt;br /&gt;_ E tu sempre me respondes com outra! – disse Alba, fazendo com que o anjo deixasse fluir por entre seus lábios uma gostosa risada.&lt;br /&gt;_ Parece-me um pouco perturbada. – inquietou-se o gentil intruso – O que fiz? Acordei-te de um gracioso sonho?&lt;br /&gt;_ Não aprecio sonhos graciosos, tenho preferência por terríveis pesadelos.&lt;br /&gt;Curioso diante da declaração de Alba, o anjo inclinou-se um pouco mais na direção do rosto da menina e perguntou:&lt;br /&gt;_ Preferes ter sonhos ruins?! Não entendo...&lt;br /&gt;_ Explicar-te-ei! Quando tenho bons sonhos, sempre é frustrante o momento em que desperto, pois aquilo que me agradava durante o sono termina por revelar-se uma tola ilusão, um momento mágico interrompido pelo abrir dos olhos. Já os pesadelos, quando os tenho, acabam por proporcionar-me alívio e quietude sempre que dos mesmos acordo e descubro que tudo não havia passado de uma cruel armadilha de meus próprios pensamentos.&lt;br /&gt;_ Bravo! – alegrou-se o anjo com a forma de pensar da menina que guardava – Curiosa argumentação acerca da virtude de se ter um medonho pesadelo! Mas, responde-me. O que há? Pareces triste.&lt;br /&gt;_ Desculpe-me. – pediu Alba, delicadamente – Apenas impaciento-me por não poder contemplar teu rosto...&lt;br /&gt;_ Por que desejas tanto conhecer-me a face? – quis saber o anjo, censurando-lhe o natural desejo – Ainda ontem, não parecias tu vitimada por curiosidade tão frívola! Lembra-te da história que narrei-te certa madrugada, sobre Eros e Psique? Pois bem, querida Alba, nossa história, a minha e a tua, assemelha-se a destas criaturas mitológicas. Temo que uma maldição caia sobre nós dois caso venhas tu a conhecer minha verdadeira identidade.&lt;br /&gt;_ Psique temia ser desposada por um monstro quando, na verdade, sob a luz de uma lâmpada, ela acabou por encontrar o mais belo dos deuses. – retrucou Alba, tentando convencer o anjo a satisfazer seus anseios.&lt;br /&gt;_ E o que lhe disse então Eros diante da vil traição? “Não lhe imponho outro castigo, além de deixar-te para sempre. O amor não pode conviver com a suspeita”.&lt;br /&gt;_ Amor? Por que estás falando de amor? – perguntou a jovem mulher sentindo a natureza desabrochar dentro de si.&lt;br /&gt;_ Não fale mais, Alba! Cala-te! As palavras são más e traiçoeiras, fiquemos em silêncio! – Disse o anjo, claramente incomodado com a armadilha de perguntas que Alba parecia cavar sob seus pés.&lt;br /&gt;_ Não posso manter-me emudecida! Tenho algo a dizer-te! – revelou a menina, inundada por uma indomável vontade de chorar.&lt;br /&gt;_ Acalma-te, bela criança! – preocupou-se sinceramente o anjo com o arroubo de sua protegida – Pois então fale, já que isto te parece tão importante!&lt;br /&gt;_ Parece-me ser mais que a vida! – desabafou Alba permitindo que uma lágrima corresse por seu enervado rosto – Há algo dentro de mim que diz respeito ao senhor... Algo semelhante ao que sinto por minha família e por Zarina, porém... diferente... acolhedor e ao mesmo tempo lancinante! Como se meu corpo falasse comigo e me dissesse coisas novas e atraentes. Não sei como dizer-te, mas... Sinto conhecer-te de minha vida inteira! Se realmente és meu anjo, diz-me o que estou a passar?&lt;br /&gt;_ Não sei, criança. Eu não sei... – disse o anjo com um tom de voz transtornado, como se não soubesse o que dizer para acalentar o coração de Alba.&lt;br /&gt;_ Por que me negas as devidas respostas?! Deve-me isto! Conheces todos os lugares do mundo, és dotado de uma sabedoria fascinante, como não poderias saber o que há comigo?! E quanto a tua voz... por que ela é tão triste? Tu não pareces um anjo! – Falou Alba aquilo que, caso a clandestinidade daquela situação não impedisse, diria aos gritos.&lt;br /&gt;_ Mas o sou! – advertiu o anjo como se as palavras de Alba o houvessem ofendido profundamente – E se sou triste, é porque sou teu...E se sou teu, é porque te amo! Mas meu amor por ti é proibido! Estaríamos perdidos, Alba... Não podemos... Não é permitido...&lt;br /&gt;A menina então ergueu as mãos no ar e encontrou as palmas trêmulas e suadas de seu guarda, tocando-as com fervor, fazendo com que o anjo mais uma vez sentasse junto a ela.&lt;br /&gt;_ Conheço-te há tão pouco tempo... Conheço-te e não te conheço! Mas, Deus meu, que loucura! Será que o sentimento que eu nutro por ti... também seja amor?&lt;br /&gt;_ Reze para que não o seja, criança. Reze para que não o seja. – disse o anjo como se fizesse uma curta prece, envolvendo ainda mais aos seus os dedos da jovem Alba.&lt;br /&gt;_ Como te chamas?&lt;br /&gt;_ Para que nomes? Sou teu anjo, isto não basta?&lt;br /&gt;_ Não. Eu quero algo mais.&lt;br /&gt;E então, ela o beijou. Pela primeira vez em sua vida, Alba pôde experimentar o toque íntimo, sentir o sangue correr vivo pelas artérias e invadir seu coração como um maremoto de dúvidas desnorteadoras que a despertaram para o feminino, que a fizeram enxergar-se além das muralhas impostas por falsos pudores. Após o beijo, Alba sentiu uma leve vertigem e desfaleceu sobre os lençóis, enquanto a presença do anjo mais uma vez desaparecia do quarto, deixando Alba a ressonar com uma das mãos posta sobre os lábios, acariciando com leveza seu inocente pecado, o gosto doce que seu anjo havia deixado em sua boca. A partir daquela madrugada, Alba passaria a aguardar com maior fervor pela próxima noite, de coração aberto esperá-lo, sem culpa ou medo, pois descobrira, após aquele beijo, que sua repentina e fulminante doença, sem dúvida alguma, era amor.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, Alba foi acordada pela amável Zarina, que havia decidido agradar com o mimo de um café-da-manhã na cama a jovem filha dos Gobete. Ao sentir as mãos calejadas, porém carinhosas, de sua ama acariciando-lhe as madeixas, Alba foi tomada por um incontrolável ímpeto de contar-lhe tudo, de falar sobre seus encontros secretos para aquela mulher que a amava como uma filha. Sem medir conseqüências, Alba revelou à Zarina a amizade que estava nutrindo por um anjo, repetiu para a ama desde a primeira à derradeira palavra, os palácios do Nepal, os filósofos, os afrescos, as óperas, o toque, o calor, o beijo. Inocente, atada pela ignorância que herdara dos tempos de senzala, Zarina apenas sorriu e falou para Alba que anjos não beijam as pessoas que guardam, disse que, muito provavelmente, Alba deveria estar sonhando com algum belo mancebo que havia encontrado pelas ruelas da vila. A menina então sorriu e levou um pedaço de pão à boca a fim de manter-se calada, percebeu que aquilo deveria ser mantido em segredo, pois, apesar de extremamente crédulas e tementes a Deus, as pessoas não acreditavam em anjos, apenas fingiam para satisfazer as vontades do Deus que Padre Santiago havia criado para a Vila de Nova Friburgo.&lt;br /&gt;Após terminar seu dejejum, Alba vestiu-se com o auxílio de Zarina e em seguida dirigiu-se para a sala a fim de ajudar a mãe na preparação de uma vistosa toalha de renda. Repentinamente, Cristiano adentrou a sala com o rosto afogueado, tendo os olhos vidrados na direção da mãe que censurou-lhe com um gesto na boca sua notória inflamação.&lt;br /&gt;_ Mãe... – tentou falar o rapaz, engolindo uma porção de saliva seca.&lt;br /&gt;_ Diz-me a que veio, infeliz! Ou esperas que eu leia em tua face de paspalho o motivo deste frenesi?&lt;br /&gt;Como se buscasse em suas idéias algo conveniente para dizer, Cristiano hesitou por alguns segundos para logo em seguida falar, como se tivesse um lampejo.&lt;br /&gt;_ Acabei de encontrar com o tintureiro, disse-me ele que as colchas estão prontas!&lt;br /&gt;_ Então porque não as trouxeste de imediato, fastidioso animal? Esperas o quê? Que eu mesma vá buscá-las?&lt;br /&gt;_ Não entendo destas coisas! Pensei em levar Alba comigo para que ela verifique de imediato se há no trabalho alguma imperfeição.&lt;br /&gt;Suspeitosa da atitude de Cristiano, Dona Martina ergueu as sobrancelhas e analisou o filho mais moço como se procurasse algum sinal de embuste em sua atitude. Porém, como tinha o filho no conceito de alguém sem habilidade alguma, acabou por concordar que seria mais prudente um olhar feminino sobre a tintura que haviam posto sobre suas caras colchas.&lt;br /&gt;_ Zarina e eu daremos conta do rendado. E não me cheguem aqui de mãos abanando, senão trocarei o evangelho pela chibata, que muitas vezes acaba por ser a melhor das orações para quem não zela por aquilo que lhes é mandado.&lt;br /&gt;_ Sim, senhora! – Disse Cristiano pegando a irmã pela mão e praticamente arrastando-a para a rua.&lt;br /&gt;_ Não me enganas, Cristiano! Conheço-te! O que há? – quis saber Alba, enquanto o irmão a arrastava dentre uma multidão que seguia o mesmo caminho que ele estava tomando, avesso ao que levava à tinturaria.&lt;br /&gt;_ Outra pessoa foi encontrada morta! – revelou Cristiano, imerso em seu alvoroço. _ Deus! Que terrível praga caiu sobre aquelas mulheres? – pensou Alba em voz alta enquanto apertava dentre seus dedos o terço que levava em seu alvo pescoço.&lt;br /&gt;_ Engana-te, minha irmã! Desta vez a Fera do Morro Queimado atacou um homem!&lt;br /&gt;Ao ouvir aquilo, Alba sentiu uma forte pontada em seu coração, como se temesse que a vítima do monstro que estava a assombrar sua vila fosse aquele que a visitava na calada da noite. A fera matou um homem, não um anjo!, repetia para si mesma enquanto sentia as extremidades do crucifixo quase ferindo a palma de suas mãos.&lt;br /&gt;O homem que havia morrido chamava-se Heitor. Tratava-se de um boticário muito conhecido na vila, respeitado por todos e de boa posição financeira, mas de estampa franzina e modo abobalhado, talvez por isso fosse ele um costumeiro freqüentador da casa de Rose Bijou, por não ter lá muito traquejo com mulheres. Suas vísceras encontravam-se espalhadas pela escadaria da igreja e seus olhos tinham sido arrancados, juntamente com outros órgãos que haviam deixado-lhe o abdômen praticamente oco.&lt;br /&gt;Antes que o padre saísse de sua sacristia para inflamar ainda mais o imaginário dos fiéis com misticismo e crendices acerca das artes satânicas, o barão Enéas Caronte aproximou-se do povaréu e tentou forçar passagem dentre os curiosos, dando-lhes chicotadas nas costas com o açoite de Tifão a fim de verificar com os próprios olhos o que se passava. Ao encontrar o corpo do boticário estripado de forma hedionda, o barão levou as costas da mão a testa a fim de secar uma fina camada de suor e perguntou como se falasse de si para si:&lt;br /&gt;_ O que está a acontecer aqui?&lt;br /&gt;_ O diabo cansou-se das rameiras, barão! Agora ele irá nos devorar! – disse o coveiro, com a voz embargada de pavor.&lt;br /&gt;_ Acalma-te, Danilo! Providencie logo a remoção deste corpo antes que...&lt;br /&gt;Enéas Caronte não teve sequer tempo de concluir sua frase. Inflamado, pronto para dar continuidade à sua cruzada contra a Besta, Padre Santiago surgiu transfigurado na figura de um bizarro profeta, adivinhando o que se passava como se estivesse sendo acometido por visões estimuladas por gases sulfúricos.&lt;br /&gt;_ “Exterminai, pois, as vossas inclinações carnais; a prostituição, a impureza, a paixão, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria.” – gritou o padre, voltando seus olhos e punhos cerrados na direção do céu, fazendo com que boa parte das pessoas copiassem-lhe o gesto – Agora Deus envia seu Anjo da Morte para ceifar a vida daqueles que deitam-se em pecado com vis mulheres! Nova Friburgo, abandona de vez o caminho do mal ou seremos todos engolidos pela cloaca do inferno!&lt;br /&gt;_ Percebo que tens um grande problema em tuas divinas mãos, Santiago. – disse o Barão em tom de mofa – Se Deus exterminar todos os impuros, avarentos e idólatras de Nova Friburgo, não terás mais quem te empanturre a pança de adulações e mesas fartas!&lt;br /&gt;_ Recuso-me a dirigir-te a palavra! Pois tu, Barão, não passas...&lt;br /&gt;_ Às favas com as desavenças dos senhores! – gritou Cristiano, fazendo com que todos o encarassem em um misto de piedade e expectativa pelo devido castigo, que de certo, se não partisse do barão, partiria do padre.&lt;br /&gt;Percebendo que havia cometido um terrível erro, Cristiano preferiu apelar para a autoridade do Barão a fim de que não caísse em maus lençóis com Padre Santiago.&lt;br /&gt;_ Nobre Barão, perdoe-me a insolência! Fui tomado pelo ímpeto do desespero! Temo que algo de mau aconteça a um de meus familiares, tenho uma mãe, tenho esta irmã que jamais teria como defender-se desta fera demoníaca!&lt;br /&gt;_ Como te chamas, rapaz? – perguntou o Barão, observando com certa benevolência o comportamento de Alba agarrada ao braço de Cristiano, como se o protegesse.&lt;br /&gt;_ Cristiano, senhor.&lt;br /&gt;_ Prometo-te, jovem Cristiano, que tentarei resolver esta farândola sanguinária que apoderou-se de nossa vila. Agora leva tua irmã para casa, isto não convém aos olhos de uma menina. Aliás, é prudente que todos retornem aos seus lares e permaneçam encerrados nos mesmos. Tentarei resolver ao meu modo este odioso mistério. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Antes de retornarem para casa, Cristiano e Alba resolveram passar na tinturaria a fim de pegar a encomenda materna e assim evitar novas punições. Durante a caminhada, puseram-se a trabalhar as idéias em busca de algum subterfúgio que justificasse a demora em um afazer tão simples. Dadas as devidas explicações para Dona Martina, Alba ajudou a mãe a desdobrar cada uma das colchas para que o último aval no serviço fosse dado pela senhora da casa, enquanto Cristiano retornava ao comércio antes que o pai viesse buscá-lo pelas orelhas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3046022492888605741-2228367357978614389?l=livroalcateia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/2228367357978614389/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3046022492888605741&amp;postID=2228367357978614389&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/2228367357978614389'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/2228367357978614389'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/2007/10/os-dias-passaram-e-morte-da-jovem_5151.html' title=''/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RwPwbBq8vWI/AAAAAAAAABI/75g77OYR-Ko/s72-c/Beijo+Alba-En%C3%A9as.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741.post-5198503813960240583</id><published>2007-10-03T11:33:00.000-07:00</published><updated>2007-10-03T11:34:03.971-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RwPgkRq8vTI/AAAAAAAAAAk/qhsaIl7QSEY/s1600-h/AlcatÃ©ia.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5117180515446471986" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RwPgkRq8vTI/AAAAAAAAAAk/qhsaIl7QSEY/s320/Alcat%C3%A9ia.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3046022492888605741-5198503813960240583?l=livroalcateia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/5198503813960240583/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3046022492888605741&amp;postID=5198503813960240583&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/5198503813960240583'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/5198503813960240583'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/2007/10/blog-post.html' title=''/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_UjNtKBAhNRo/RwPgkRq8vTI/AAAAAAAAAAk/qhsaIl7QSEY/s72-c/Alcat%C3%A9ia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3046022492888605741.post-981225284740399380</id><published>2007-10-03T11:27:00.000-07:00</published><updated>2007-10-03T11:32:23.320-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;****&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;“Todos nós temos anseio pelo que é selvagem.”&lt;br /&gt;Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que Correm com os Lobos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; ****&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;"O homem é lobo-fera, nem sequer merece a vida..."&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Fábio Rocha&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;****&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;          Por que a claridade insiste em não vir até mim? Estou cansada desta escuridão soturna, preciso saber o que há do outro lado... Deus! Haverá um outro lado? Não agüento mais este breu infinito onde a morte aprisionou-me e onde assisti passivamente toda uma história de traição, vingança e sangue... tanto sangue. Só em pensar que todo este caos foi gerado por minha própria maternidade, chego a sentir dolorosos espasmos em minh’alma. Meu ventre foi uma porta de entrada para o infortúnio absoluto, permitiu ele que a desventura original se espalhasse sobre a Terra. Estou a sofrer encarcerada nesta prisão negra os piores horrores e tormentos que uma pessoa condenada a sofrimento e abandono pode ser submetida. Fui espectadora de um espetáculo sinistro que, após muita dor e ódio, parece ter acabado.&lt;br /&gt;            Aqui está ficando cada vez mais frio... Estou com medo! Temo que a morte não passe disto, deste negrume silencioso. Os ossos que não mais tenho, continuam a latejar como se teimassem em ferir minha carne já inexistente. Sempre pensei que a morte seria o fim... Deus, por que continuo a ter consciência, já que estou morta? O que guardar-me-á este lugar esquecido? Sinto meu espírito congelar, sucumbir ao gélido sopro que antes me dera a vida, e que, agora, me arranca a mesma aos gomos.&lt;br /&gt;            Preciso falar a fim de esquecer esta cela de treva e solidão... Contar-te-ei minha história. Não! Perdoa-me o terrível engano! Esta história não mais a mim pertence, pois tornei-me outra com a morte. Vou contar a história “dela”, da jovem outrora feliz que vivia em meu passado, em meus tempos de quando viva. Assim será mais fácil seguir adiante em meu relato e certamente também não me causará maiores rompantes e angústias.&lt;br /&gt;            O que irei falar agora, não deverá ser transmitido às gerações porvindouras. Não permitam que as crianças conheçam o medo, a aflição, como eu conheci.&lt;br /&gt;            Ó, criatura imersa na ausência de teu próprio rosto! É a ti que não posso ver, mas tu és aquele capaz de interpretar nas trevas o real significado de minhas palavras. Saibas que deverás guardar tais fatos em sepulcral sigilo, para que assim ninguém mais venha a conhecer o mal autêntico. Contar-te-ei a história não apenas “dela”, mas também a daqueles que não sangram como homens, mas como lobos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Em meados de 1873, seu corpo já dava sinais de que ela estava prestes a irromper em uma encantadora mulher. Todavia, ela passava pela própria metamorfose distraída, como flores primaveris que apenas se dão conta de que suas pétalas já desabrocharam quando o encanto dos homens por elas acaba por colhê-las no auge da formosura, para então fazê-las murcharem em velocidade cruel e assombrosa.&lt;br /&gt;            Nova Friburgo, com ares de debutante, também se encontrava bem-aventurada e fomentada pela rota do café, o que permitia que a vila continuasse a crescer e prosperar em passo acelerado. Já não se faziam tão necessárias as habituais caravanas de mulas para que se viajasse até a capital do império. O Rio de Janeiro, que ficava a quatro dias de viagem, já se encontrava a apenas quatro horas, graças ao trem que agora levava e trazia toda a espécie de produtos que pudessem ser transportados entre Nova Friburgo e a capital.&lt;br /&gt;            O ritmo de crescimento de sua terra parecia ter contaminado por completo seu frágil corpo de menina, fazendo com que delicados, sensuais e perfumados botões de feminilidade brotassem em cada poro de sua pele, como se vergéis estivessem sendo cultivados em segredo em sua nuca escondida sob aloirados cabelos, em seus mamilos que ousavam desobedecer a infância ainda tão presente, em seus olhos cuja curiosidade desafiava o direito de certas realidades permanecerem ocultas sob inocentes pálpebras. Sua pele macia e fraca... tão fraca! As mãos graciosas, as atitudes de uma menina perdidas na carne e no viço de uma mulher. Nesta época, ela já estava em seus quinze anos de idade e chamava-se Alba Gobete.&lt;br /&gt;            Alba vivia na companhia de seus pais, Gaspar e Martina Gobete, também de seus dois irmãos, o mais velho chamado Nicolau e o mais moço de nome Cristiano, e uma velha escrava liberta que outrora fora sua ama-de-leite, chamada Zarina. Alba era tal qual o retrato fiel de uma adolescente feliz, sem maiores problemas ou preocupações além de encantar convivas diante de um piano ou acertar os pontos ao trabalhar na companhia da mãe e da ama com o bordado. Ela ainda não sabia o significada da palavra infortúnio... Ela jamais fizera por merecer experimentar tal palavra.&lt;br /&gt;            Cristiano sempre a levava para passeios na mata – longe do costumeiro barulho das vilas que anseiam em tornarem-se cidades – onde ela brincava com pequenos pássaros e outros animais selvagens, enquanto seu irmão caçava os mesmos com suas arapucas traiçoeiras e estilingues mortais. A companhia do irmão a deleitava porque este parecia desafiar a natureza e recusar-se a tornar-se um homem, apesar de seus dezessete anos de vida. Já sua mãe passava todos os dias entretida em rendas e bordados, na tentativa frustrada de esquecer da morte do filho que havia morrido em um incêndio, antes mesmo de Alba ter vindo ao mundo. Tornara-se uma mulher mumificada por dentro, incapaz de sorrir ou de dizer qualquer palavra amiga, uma morta-viva a queixar-se me mil moléstias inexistentes, a chorar todas as tardes, remoendo dentro de si o fel de suas lembranças. Seu pai, a duras penas, havia se tornado um promissor comerciante, enviava ele para o Rio de Janeiro batatas, toucinho, milho, maçãs, pêras e muitas flores, principalmente cravos e rosas, produtos bastante apreciados na capital. O velho Gaspar era um homem ambicioso e repleto de planos hiperbólicos, seus planos o sufocavam, sufocavam a todos. Quanto a Nicolau, o primogênito da família Gobete, era um homem de porte físico abrutalhado e escassas palavras, ocupava-se quase que o tempo inteiro em ajudar seu pai a comprar barato e vender caro aquilo que comercializavam. O único momento que Nicolau reservava para si mesmo era guardado em mistério, envolto pelo véu das noites das quais ele retornava apenas alta madrugada, como um ladrão, saltando cautelosamente a mesma janela que todos os dias lhe permitia a necessária fuga. Enfim, de modo diverso, apesar das gritantes diferenças entre seus entes queridos, Alba amava com afinco cada um de seus familiares, procurava compreendê-los, apesar de suas angústias, suas cobiças, seus segredos. Porém, de todas as pessoas que viviam em sua casa, aquela que Alba dedicava maior afeição era a velha Zarina, podia-se dizer que aquela negra de rosto cansado, mas luminoso, era a própria personificação da palavra amor, amor pela menina que amamentara com o leite que faria seu próprio filho ter crescido um homem saudável caso a pneumonia não o houvesse levado embora tão cedo. A relação das duas era quase que um desrespeito à Dona Martina, amavam-se incondicionalmente e eram amigas íntimas, daquelas que fazem juras eternas, que trocam confidências.&lt;br /&gt;            Esta era a pacata e doce vida de Alba, todos os dias eram os mesmos, tão semelhantes que davam a sensação de já terem sido vividos, e quem sabe, talvez houvessem sido mesmo. A tranqüilidade, a paz, a leveza, tudo que havia sido arquitetado ao longo de tantos anos, acabou por fragmentar-se como uma taça de cristal indo de encontro ao chão, e os cacos afiados foram capazes de abrir feridas que ainda hoje não cicatrizaram, e sangram... Infelizmente, o sangue flui cada vez mais, incessante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Ainda naquele ano, Nova Friburgo teve que aprender a conviver não somente com o seu progresso comercial e financeiro, mas também, com o horror. Antes, uma vila já habituada a delitos criminosos motivados por brigas de bar ou disputas de terra, agora se encontrava atemorizada diante da brutalidade com a qual algumas mulheres do prostíbulo local estavam sendo assassinadas, metodicamente. O ritual utilizado para a realização dos crimes era o mesmo, o que levava as autoridades a acreditarem que não havia dúvidas de que os assassinatos haviam sido praticados pelo mesmo mal-feitor.&lt;br /&gt;            O Jornal A Voz da Serra não tardou em batizar o realizador de tais atrocidades de “A Fera do Morro Queimado”, fazendo alusão ao local onde a vila de Nova Friburgo havia sido edificada por imigrantes suíços, saídos de sua terra natal para realizarem uma sofrida travessia do Atlântico, chagando ao Brasil em 1819, fugindo da fome que assolara seu país e encontrando em terras tupiniquins situação tão ou mais precária que aquela em que viviam em sua pátria, sendo instalados em um pedaço de chão que não propiciava o cultivo, onde a miséria e força de vontade daquele povo acabou por transformar em solo aproveitável.&lt;br /&gt;            Três prostitutas já haviam sido atacadas e mortas pela tal fera que primeiro agarrava-lhes com os dentes pelo pescoço a fim de imobilizá-las para logo em seguida banquetear-se com as entranhas de suas vítimas. Apesar de todos os indícios apontarem para a ação de algum predador selvagem, o modus operandi com o qual as carnificinas eram realizadas levantava suspeitas de que tamanha barbárie pudesse estar sendo realizada por ação humana. Afinal, o corpo das mulheres molestadas sempre era deixado às portas da igreja, tendo as mãos deitadas sobre o peito ensangüentado e os pés unidos, como se costuma endireitar o corpo dos cadáveres em seus caixões abertos, durante os velórios.&lt;br /&gt;            O povo em geral encontrava-se atônito, ao mesmo tempo que experimentava de um imoral alívio, pois nenhuma donzela ou senhora de família havia sido vitimada pelo apetite feroz daquela criatura saída das páginas de alguma novela de terror. Estranhamente, apenas as prostitutas estavam sendo ceifadas, dilaceradas com crueldade por um monstro noturno que parecia apreciar a carne das damas de vida fácil. Dividiam-se em conjecturas, tentando adivinhar se os crimes estavam a ser realizados por uma besta infernal ou por um anjo do Senhor. Apesar da predileção da fera por aquelas mulheres às quais o crivo popular julgava rameiras, tornou-se urgente que todos se guardassem em vigílias, aguardando que a noite passasse da mesma forma que aguardaram os hebreus que o anjo da morte levasse embora as almas dos primogênitos egípcios. As mulheres que agradeciam em suas turvas orações pela morte das meretrizes que roubavam o apetite sexual de seus esposos eram as mesmas que temiam que a fera viesse lhes devorar carne e ossos quando a última prostituta fosse depositada na soleira da porta da casa de Deus. O Diabo parecia estar a fazer-lhes um favor, certamente não tardaria em cobrar a paga.&lt;br /&gt;            Em uma dada manhã de domingo, Alba acordou com as batidas enérgicas do irmão mais moço na porta de seu quarto. Atordoada, a menina levantou-se a contragosto e resolveu vestir-se, enquanto resmungava para que o irmão tivesse paciência, que o atenderia antes que a última labareda daquele incêndio se dissipasse. Ao abrir a porta, Cristiano agarrou-a pela mão e arrastou-a sorrateiramente pela casa, a fim de que de lá saíssem sem que fossem impedidos pela censura materna. Antes que ela pudesse repreender Cristiano por sua postura inoportuna, seu irmão acabou por revelar que outra prostituta da casa de Rose Bijou havia sido encontrada morta, a mais jovem de todas, de nome Julieta. Cristiano perdia-se em um misto de horror e fascínio pelas mortes que estavam acontecendo na vila, desenhava em sua mente e descrevia para a irmã como ele imaginava o homem-fera que parecia ter um gosto especial pela carne das damas da casa de Rose Bijou. Da mesma forma que todas as outras vítimas, Julieta estava jogada diante da entrada da igreja, tendo a garganta dilacerada, um dos seios arrancados e o abdômen completamente estripado, faltando-lhe também rins, coração e mutiladas as pontas dos dedos apontador, anular e médio de uma de suas mãos, a pele branca e lisa, manchada pela fúria vermelha de seu próprio sangue.&lt;br /&gt;            Uma grande multidão já havia se formado ao redor do corpo, que ora era cutucado com varas por crianças traquinas, ora lambido por cães sarnentos e vadios. Não tardou para que Padre Santiago saísse de sua igreja a fim de complementar o entretenimento macabro, e, inflamado de tremenda fúria, pôs-se a chutar o corpo de Julieta escadaria abaixo, fazendo com que o mesmo rolasse até o chão. Neste mesmo instante, escutou-se um grito feminino histérico ecoar no meio das pessoas curiosas e aflitas, tratava-se de Rose Bijou, acompanhada das outras jovens que ainda restavam em sua casa. Movida por grande desespero, a mulher agarrou-se ao corpo morto da jovem e soluçou angustiada, em seguida, ergueu os olhos na direção do padre e implorou para que ele encomendasse a Deus ao menos a alma de Julieta, já que ele havia se recusado a abençoar as outras moças que haviam morrido nas mesmas circunstâncias. Tendo o semblante impassível sobre as súplicas da mulher diante de si, Padre Santiago escarrou com desprezo sobre o corpo da jovem meretriz e em seguida deu as costas para o povaréu, caminhando resoluto em direção à sua igreja. Certa de que nenhum dos presentes lhe prestaria auxílio de qualquer natureza, Rose Bijou retornou a seu pranto, acompanhada de suas outras protegidas, unidas na dor de terem perdido mais uma amiga para aquele espetáculo de horrores que havia se formado na vila de Nova Friburgo. Alba observou por alguns instantes respeitosamente o corpo de Julieta, a jovem deveria ter sua mesma idade, pouco mais era que uma criança. Desde que nascera, Alba havia sido criada para o lar e para a Igreja, mas, que Deus a perdoe, aquilo que Padre Santiago havia feito ao corpo da pobre menina fora pura maldade, o avesso daquilo que podemos tomar por gesto cristão.&lt;br /&gt;            No decorrer de todo aquele terrível dia, a vila inteira deteve-se naquele único assunto, mas pareciam em animação suspensa, não procuravam tomar nenhuma atitude acerca daquelas horrendas mortes, não se preocupariam em reagir enquanto os corpos postos diante da igreja continuassem sendo os das meretrizes. Ao funeral da pobre moça, apenas as mulheres do prostíbulo compareceram, pois as pessoas da cidade haviam sido proibidas pelo padre até mesmo a condoerem-se da aflição daquelas assustadas mulheres. Padre Santiago não era simplesmente respeitado por seus fiéis, antes de tudo, era temido. Diziam que ele falava com Deus e isto tornava as pessoas obedientes e servis, fáceis de serem manipuladas por sua vontade e sua religiosidade fanática e arbitrária. Naquela mesma noite, a antes alegre casa de Rose Bijou permaneceu fechada. A pobre senhora não conseguia compreender o que estava lhe ocorrendo, por que haviam matado quatro de suas amigas? Por que quatro leitos vazios? Por que quatro corpos dilacerados na escadaria da igreja? Ela não sabia.&lt;br /&gt;Naquela mesma noite, Alba não conseguiu jantar, a figura de Julieta não abandonava seus pensamentos, devia ter sua mesma idade, seus mesmos desejos. Como Deus era capaz de permitir em sua sagrada benevolência que aquilo acontecesse a alguém tão jovem? Deus também sabe como ser cruel em sua santidade e sabedoria. Ao deitar-se em sua cama, na escuridão de seu quarto, Alba pôde ver com maior nitidez o rosto de Julieta, era linda, não merecia ter morrido tão moça, é bem provável que ela não tivesse culpa de sua triste sorte, a de viver do comércio do próprio corpo. Julieta devia ter tantos sonhos quanto Alba, também devia ansiar por dias melhores.&lt;br /&gt;            Durante a madrugada, Alba acordou repentinamente ao escutar passos pelo corredor que dava para os quartos de sua casa. Sentiu então uma brisa gélida percorrer sua coluna espinhal, causando-lhe calafrios, trazendo medo para dentro de seu jovial coração. Seria ela a primeira vítima da Fera do Morro Queimado a merecer lágrimas do povo de Nova Friburgo? Amedrontada, a menina levantou-se e caminhou até a porta de seu quarto, respirando tão timidamente que seus pulmões mal podiam sentir o alívio propiciado pela respiração. Cautelosamente, Alba pôs a mão sobre o ferrolho da porta de seu quarto e o fez deslizar vagarosamente a fim de espiar através da fresta que face teria o monstro que certamente havia invadido sua morada para levar-lhe embora a vida. Porém, aquele que Alba encontrou foi seu irmão Nicolau, retornando de mais um de seus enigmáticos passeios noturnos. A menina observou-o com discrição pela porta entreaberta, calculou que aquela maneira sorrateira de caminhar deveria ser típica de criminosos, de mal-feitores. Preferiu não pensar em Julieta e resolveu novamente deitar-se, antes fechando a porta cuidadosamente a fim de que seus perigosos pensamentos e temores permanecessem do lado de fora de seu leito.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3046022492888605741-981225284740399380?l=livroalcateia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://livroalcateia.blogspot.com/feeds/981225284740399380/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3046022492888605741&amp;postID=981225284740399380&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/981225284740399380'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3046022492888605741/posts/default/981225284740399380'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://livroalcateia.blogspot.com/2007/10/todos-ns-temos-anseio-pelo-que-selvagem_03.html' title=''/><author><name>ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16356065469547519324</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry></feed>
