quarta-feira, 3 de outubro de 2007

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“Todos nós temos anseio pelo que é selvagem.”
Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que Correm com os Lobos

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"O homem é lobo-fera, nem sequer merece a vida..."
Fábio Rocha
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Por que a claridade insiste em não vir até mim? Estou cansada desta escuridão soturna, preciso saber o que há do outro lado... Deus! Haverá um outro lado? Não agüento mais este breu infinito onde a morte aprisionou-me e onde assisti passivamente toda uma história de traição, vingança e sangue... tanto sangue. Só em pensar que todo este caos foi gerado por minha própria maternidade, chego a sentir dolorosos espasmos em minh’alma. Meu ventre foi uma porta de entrada para o infortúnio absoluto, permitiu ele que a desventura original se espalhasse sobre a Terra. Estou a sofrer encarcerada nesta prisão negra os piores horrores e tormentos que uma pessoa condenada a sofrimento e abandono pode ser submetida. Fui espectadora de um espetáculo sinistro que, após muita dor e ódio, parece ter acabado.
Aqui está ficando cada vez mais frio... Estou com medo! Temo que a morte não passe disto, deste negrume silencioso. Os ossos que não mais tenho, continuam a latejar como se teimassem em ferir minha carne já inexistente. Sempre pensei que a morte seria o fim... Deus, por que continuo a ter consciência, já que estou morta? O que guardar-me-á este lugar esquecido? Sinto meu espírito congelar, sucumbir ao gélido sopro que antes me dera a vida, e que, agora, me arranca a mesma aos gomos.
Preciso falar a fim de esquecer esta cela de treva e solidão... Contar-te-ei minha história. Não! Perdoa-me o terrível engano! Esta história não mais a mim pertence, pois tornei-me outra com a morte. Vou contar a história “dela”, da jovem outrora feliz que vivia em meu passado, em meus tempos de quando viva. Assim será mais fácil seguir adiante em meu relato e certamente também não me causará maiores rompantes e angústias.
O que irei falar agora, não deverá ser transmitido às gerações porvindouras. Não permitam que as crianças conheçam o medo, a aflição, como eu conheci.
Ó, criatura imersa na ausência de teu próprio rosto! É a ti que não posso ver, mas tu és aquele capaz de interpretar nas trevas o real significado de minhas palavras. Saibas que deverás guardar tais fatos em sepulcral sigilo, para que assim ninguém mais venha a conhecer o mal autêntico. Contar-te-ei a história não apenas “dela”, mas também a daqueles que não sangram como homens, mas como lobos...







Em meados de 1873, seu corpo já dava sinais de que ela estava prestes a irromper em uma encantadora mulher. Todavia, ela passava pela própria metamorfose distraída, como flores primaveris que apenas se dão conta de que suas pétalas já desabrocharam quando o encanto dos homens por elas acaba por colhê-las no auge da formosura, para então fazê-las murcharem em velocidade cruel e assombrosa.
Nova Friburgo, com ares de debutante, também se encontrava bem-aventurada e fomentada pela rota do café, o que permitia que a vila continuasse a crescer e prosperar em passo acelerado. Já não se faziam tão necessárias as habituais caravanas de mulas para que se viajasse até a capital do império. O Rio de Janeiro, que ficava a quatro dias de viagem, já se encontrava a apenas quatro horas, graças ao trem que agora levava e trazia toda a espécie de produtos que pudessem ser transportados entre Nova Friburgo e a capital.
O ritmo de crescimento de sua terra parecia ter contaminado por completo seu frágil corpo de menina, fazendo com que delicados, sensuais e perfumados botões de feminilidade brotassem em cada poro de sua pele, como se vergéis estivessem sendo cultivados em segredo em sua nuca escondida sob aloirados cabelos, em seus mamilos que ousavam desobedecer a infância ainda tão presente, em seus olhos cuja curiosidade desafiava o direito de certas realidades permanecerem ocultas sob inocentes pálpebras. Sua pele macia e fraca... tão fraca! As mãos graciosas, as atitudes de uma menina perdidas na carne e no viço de uma mulher. Nesta época, ela já estava em seus quinze anos de idade e chamava-se Alba Gobete.
Alba vivia na companhia de seus pais, Gaspar e Martina Gobete, também de seus dois irmãos, o mais velho chamado Nicolau e o mais moço de nome Cristiano, e uma velha escrava liberta que outrora fora sua ama-de-leite, chamada Zarina. Alba era tal qual o retrato fiel de uma adolescente feliz, sem maiores problemas ou preocupações além de encantar convivas diante de um piano ou acertar os pontos ao trabalhar na companhia da mãe e da ama com o bordado. Ela ainda não sabia o significada da palavra infortúnio... Ela jamais fizera por merecer experimentar tal palavra.
Cristiano sempre a levava para passeios na mata – longe do costumeiro barulho das vilas que anseiam em tornarem-se cidades – onde ela brincava com pequenos pássaros e outros animais selvagens, enquanto seu irmão caçava os mesmos com suas arapucas traiçoeiras e estilingues mortais. A companhia do irmão a deleitava porque este parecia desafiar a natureza e recusar-se a tornar-se um homem, apesar de seus dezessete anos de vida. Já sua mãe passava todos os dias entretida em rendas e bordados, na tentativa frustrada de esquecer da morte do filho que havia morrido em um incêndio, antes mesmo de Alba ter vindo ao mundo. Tornara-se uma mulher mumificada por dentro, incapaz de sorrir ou de dizer qualquer palavra amiga, uma morta-viva a queixar-se me mil moléstias inexistentes, a chorar todas as tardes, remoendo dentro de si o fel de suas lembranças. Seu pai, a duras penas, havia se tornado um promissor comerciante, enviava ele para o Rio de Janeiro batatas, toucinho, milho, maçãs, pêras e muitas flores, principalmente cravos e rosas, produtos bastante apreciados na capital. O velho Gaspar era um homem ambicioso e repleto de planos hiperbólicos, seus planos o sufocavam, sufocavam a todos. Quanto a Nicolau, o primogênito da família Gobete, era um homem de porte físico abrutalhado e escassas palavras, ocupava-se quase que o tempo inteiro em ajudar seu pai a comprar barato e vender caro aquilo que comercializavam. O único momento que Nicolau reservava para si mesmo era guardado em mistério, envolto pelo véu das noites das quais ele retornava apenas alta madrugada, como um ladrão, saltando cautelosamente a mesma janela que todos os dias lhe permitia a necessária fuga. Enfim, de modo diverso, apesar das gritantes diferenças entre seus entes queridos, Alba amava com afinco cada um de seus familiares, procurava compreendê-los, apesar de suas angústias, suas cobiças, seus segredos. Porém, de todas as pessoas que viviam em sua casa, aquela que Alba dedicava maior afeição era a velha Zarina, podia-se dizer que aquela negra de rosto cansado, mas luminoso, era a própria personificação da palavra amor, amor pela menina que amamentara com o leite que faria seu próprio filho ter crescido um homem saudável caso a pneumonia não o houvesse levado embora tão cedo. A relação das duas era quase que um desrespeito à Dona Martina, amavam-se incondicionalmente e eram amigas íntimas, daquelas que fazem juras eternas, que trocam confidências.
Esta era a pacata e doce vida de Alba, todos os dias eram os mesmos, tão semelhantes que davam a sensação de já terem sido vividos, e quem sabe, talvez houvessem sido mesmo. A tranqüilidade, a paz, a leveza, tudo que havia sido arquitetado ao longo de tantos anos, acabou por fragmentar-se como uma taça de cristal indo de encontro ao chão, e os cacos afiados foram capazes de abrir feridas que ainda hoje não cicatrizaram, e sangram... Infelizmente, o sangue flui cada vez mais, incessante.










Ainda naquele ano, Nova Friburgo teve que aprender a conviver não somente com o seu progresso comercial e financeiro, mas também, com o horror. Antes, uma vila já habituada a delitos criminosos motivados por brigas de bar ou disputas de terra, agora se encontrava atemorizada diante da brutalidade com a qual algumas mulheres do prostíbulo local estavam sendo assassinadas, metodicamente. O ritual utilizado para a realização dos crimes era o mesmo, o que levava as autoridades a acreditarem que não havia dúvidas de que os assassinatos haviam sido praticados pelo mesmo mal-feitor.
O Jornal A Voz da Serra não tardou em batizar o realizador de tais atrocidades de “A Fera do Morro Queimado”, fazendo alusão ao local onde a vila de Nova Friburgo havia sido edificada por imigrantes suíços, saídos de sua terra natal para realizarem uma sofrida travessia do Atlântico, chagando ao Brasil em 1819, fugindo da fome que assolara seu país e encontrando em terras tupiniquins situação tão ou mais precária que aquela em que viviam em sua pátria, sendo instalados em um pedaço de chão que não propiciava o cultivo, onde a miséria e força de vontade daquele povo acabou por transformar em solo aproveitável.
Três prostitutas já haviam sido atacadas e mortas pela tal fera que primeiro agarrava-lhes com os dentes pelo pescoço a fim de imobilizá-las para logo em seguida banquetear-se com as entranhas de suas vítimas. Apesar de todos os indícios apontarem para a ação de algum predador selvagem, o modus operandi com o qual as carnificinas eram realizadas levantava suspeitas de que tamanha barbárie pudesse estar sendo realizada por ação humana. Afinal, o corpo das mulheres molestadas sempre era deixado às portas da igreja, tendo as mãos deitadas sobre o peito ensangüentado e os pés unidos, como se costuma endireitar o corpo dos cadáveres em seus caixões abertos, durante os velórios.
O povo em geral encontrava-se atônito, ao mesmo tempo que experimentava de um imoral alívio, pois nenhuma donzela ou senhora de família havia sido vitimada pelo apetite feroz daquela criatura saída das páginas de alguma novela de terror. Estranhamente, apenas as prostitutas estavam sendo ceifadas, dilaceradas com crueldade por um monstro noturno que parecia apreciar a carne das damas de vida fácil. Dividiam-se em conjecturas, tentando adivinhar se os crimes estavam a ser realizados por uma besta infernal ou por um anjo do Senhor. Apesar da predileção da fera por aquelas mulheres às quais o crivo popular julgava rameiras, tornou-se urgente que todos se guardassem em vigílias, aguardando que a noite passasse da mesma forma que aguardaram os hebreus que o anjo da morte levasse embora as almas dos primogênitos egípcios. As mulheres que agradeciam em suas turvas orações pela morte das meretrizes que roubavam o apetite sexual de seus esposos eram as mesmas que temiam que a fera viesse lhes devorar carne e ossos quando a última prostituta fosse depositada na soleira da porta da casa de Deus. O Diabo parecia estar a fazer-lhes um favor, certamente não tardaria em cobrar a paga.
Em uma dada manhã de domingo, Alba acordou com as batidas enérgicas do irmão mais moço na porta de seu quarto. Atordoada, a menina levantou-se a contragosto e resolveu vestir-se, enquanto resmungava para que o irmão tivesse paciência, que o atenderia antes que a última labareda daquele incêndio se dissipasse. Ao abrir a porta, Cristiano agarrou-a pela mão e arrastou-a sorrateiramente pela casa, a fim de que de lá saíssem sem que fossem impedidos pela censura materna. Antes que ela pudesse repreender Cristiano por sua postura inoportuna, seu irmão acabou por revelar que outra prostituta da casa de Rose Bijou havia sido encontrada morta, a mais jovem de todas, de nome Julieta. Cristiano perdia-se em um misto de horror e fascínio pelas mortes que estavam acontecendo na vila, desenhava em sua mente e descrevia para a irmã como ele imaginava o homem-fera que parecia ter um gosto especial pela carne das damas da casa de Rose Bijou. Da mesma forma que todas as outras vítimas, Julieta estava jogada diante da entrada da igreja, tendo a garganta dilacerada, um dos seios arrancados e o abdômen completamente estripado, faltando-lhe também rins, coração e mutiladas as pontas dos dedos apontador, anular e médio de uma de suas mãos, a pele branca e lisa, manchada pela fúria vermelha de seu próprio sangue.
Uma grande multidão já havia se formado ao redor do corpo, que ora era cutucado com varas por crianças traquinas, ora lambido por cães sarnentos e vadios. Não tardou para que Padre Santiago saísse de sua igreja a fim de complementar o entretenimento macabro, e, inflamado de tremenda fúria, pôs-se a chutar o corpo de Julieta escadaria abaixo, fazendo com que o mesmo rolasse até o chão. Neste mesmo instante, escutou-se um grito feminino histérico ecoar no meio das pessoas curiosas e aflitas, tratava-se de Rose Bijou, acompanhada das outras jovens que ainda restavam em sua casa. Movida por grande desespero, a mulher agarrou-se ao corpo morto da jovem e soluçou angustiada, em seguida, ergueu os olhos na direção do padre e implorou para que ele encomendasse a Deus ao menos a alma de Julieta, já que ele havia se recusado a abençoar as outras moças que haviam morrido nas mesmas circunstâncias. Tendo o semblante impassível sobre as súplicas da mulher diante de si, Padre Santiago escarrou com desprezo sobre o corpo da jovem meretriz e em seguida deu as costas para o povaréu, caminhando resoluto em direção à sua igreja. Certa de que nenhum dos presentes lhe prestaria auxílio de qualquer natureza, Rose Bijou retornou a seu pranto, acompanhada de suas outras protegidas, unidas na dor de terem perdido mais uma amiga para aquele espetáculo de horrores que havia se formado na vila de Nova Friburgo. Alba observou por alguns instantes respeitosamente o corpo de Julieta, a jovem deveria ter sua mesma idade, pouco mais era que uma criança. Desde que nascera, Alba havia sido criada para o lar e para a Igreja, mas, que Deus a perdoe, aquilo que Padre Santiago havia feito ao corpo da pobre menina fora pura maldade, o avesso daquilo que podemos tomar por gesto cristão.
No decorrer de todo aquele terrível dia, a vila inteira deteve-se naquele único assunto, mas pareciam em animação suspensa, não procuravam tomar nenhuma atitude acerca daquelas horrendas mortes, não se preocupariam em reagir enquanto os corpos postos diante da igreja continuassem sendo os das meretrizes. Ao funeral da pobre moça, apenas as mulheres do prostíbulo compareceram, pois as pessoas da cidade haviam sido proibidas pelo padre até mesmo a condoerem-se da aflição daquelas assustadas mulheres. Padre Santiago não era simplesmente respeitado por seus fiéis, antes de tudo, era temido. Diziam que ele falava com Deus e isto tornava as pessoas obedientes e servis, fáceis de serem manipuladas por sua vontade e sua religiosidade fanática e arbitrária. Naquela mesma noite, a antes alegre casa de Rose Bijou permaneceu fechada. A pobre senhora não conseguia compreender o que estava lhe ocorrendo, por que haviam matado quatro de suas amigas? Por que quatro leitos vazios? Por que quatro corpos dilacerados na escadaria da igreja? Ela não sabia.
Naquela mesma noite, Alba não conseguiu jantar, a figura de Julieta não abandonava seus pensamentos, devia ter sua mesma idade, seus mesmos desejos. Como Deus era capaz de permitir em sua sagrada benevolência que aquilo acontecesse a alguém tão jovem? Deus também sabe como ser cruel em sua santidade e sabedoria. Ao deitar-se em sua cama, na escuridão de seu quarto, Alba pôde ver com maior nitidez o rosto de Julieta, era linda, não merecia ter morrido tão moça, é bem provável que ela não tivesse culpa de sua triste sorte, a de viver do comércio do próprio corpo. Julieta devia ter tantos sonhos quanto Alba, também devia ansiar por dias melhores.
Durante a madrugada, Alba acordou repentinamente ao escutar passos pelo corredor que dava para os quartos de sua casa. Sentiu então uma brisa gélida percorrer sua coluna espinhal, causando-lhe calafrios, trazendo medo para dentro de seu jovial coração. Seria ela a primeira vítima da Fera do Morro Queimado a merecer lágrimas do povo de Nova Friburgo? Amedrontada, a menina levantou-se e caminhou até a porta de seu quarto, respirando tão timidamente que seus pulmões mal podiam sentir o alívio propiciado pela respiração. Cautelosamente, Alba pôs a mão sobre o ferrolho da porta de seu quarto e o fez deslizar vagarosamente a fim de espiar através da fresta que face teria o monstro que certamente havia invadido sua morada para levar-lhe embora a vida. Porém, aquele que Alba encontrou foi seu irmão Nicolau, retornando de mais um de seus enigmáticos passeios noturnos. A menina observou-o com discrição pela porta entreaberta, calculou que aquela maneira sorrateira de caminhar deveria ser típica de criminosos, de mal-feitores. Preferiu não pensar em Julieta e resolveu novamente deitar-se, antes fechando a porta cuidadosamente a fim de que seus perigosos pensamentos e temores permanecessem do lado de fora de seu leito.

4 Comentários:

Blogger alessandro disse...

Não vejo a hora de ler a continuação! Pelo título do livro, já deu pra perceber quem está por trás dos assassinatos... Mas por que apenas prostitutas?!

3 de outubro de 2007 11:45  
Blogger Vida Bandida disse...

Rapaz..

4 de outubro de 2007 10:35  
Blogger Klaindson disse...

Texto conciso, linguagem de fácil compreensão, clareza de idéias, tudo isso aliado a uma história que se mostra, "ab initio", bastante interessante e envolvente. Contudo, uma curiosidade: as referências feitas a datas e lugares, costumes e épocas, são frutos da liberalidade que assiste ao autor ou decorrem de uma pesquisa? Parabéns pelo texto! Vou continuar a lê-lo, apesar do tempo escasso, mas farei aquilo que possa pra sempre acompanhar. Grande abraço.

6 de outubro de 2007 16:54  
Blogger ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga disse...

Klaidson, a pesquisa histórica é muito complicada, mas necessária. Acredito que uma boa ficção se faz sobre elementos históricos. Datas, lugares, costumes... são reais. A única coisa falsa é o meu combustível: INSPIRAÇÃO! Você vai gostar do que vem por aí... Grande abraço!

6 de outubro de 2007 19:08  

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