quarta-feira, 3 de outubro de 2007


Os dias passaram e a morte da jovem Julieta acabou por desvanecer-se dos pensamentos do povo. Paulatinamente, a vila de Nova Friburgo retornou aos mexericos, intrigas, bisbilhotices e comentários maldosos que faziam parte de sua original rotina: possíveis adultérios, famílias que vivam de pompa e ostentação apesar de se encontrarem à beira da falência, jovens donzelas que haviam sido levadas embora por algum poeta, casamentos feitos à pressas a fim de não se deixarem alcançar pelo escândalo de uma gravidez concebida antes do sagrado matrimônio. Tais falatórios pareciam capazes de trazer à vila de Nova Friburgo a sofisticação das conversas de salão que apenas existiam na corte, ninguém parecia perceber malícia alguma no ato de esmiuçar em detalhes sórdidos a vida das pessoas com as quais conviviam, a privacidade só era exigida do ponto de vista daqueles que eram vitimados por tais intrigas, geralmente caluniosas, porém capazes de abalar seriamente a reputação e o crédito de alguém perante o julgamento da sociedade friburguense.
Todavia, pouco mais de três semanas duraram as usuais conversas imbuídas de difamações infundadas. Também acabaram por silenciar os idealistas que ansiavam por um Brasil republicano e os abolicionistas que exigiam o fim da escravidão. O único assunto que parecia ter tomado conta de toda a vila dizia respeito a mais nova vítima da Fera do Morro Queimado, uma outra prostituta, chamada Camila.
Alba e Cristiano haviam saído bem cedo de casa a fim de pegarem na venda as peças de cambraia que Dona Martina havia solicitado uma semana atrás. Porém, antes mesmo que pudessem chegar à casa de tecidos, os jovens Gobete acabaram sendo arrastados pelo alarido de pessoas correndo em direção à praça da Igreja. Enquanto Alba gritava para o irmão que precisavam pegar a encomenda de sua mãe, Cristiano continuava a correr como se não a escutasse, puxando-a pela mão e levando-a de encontro aquilo que Alba sentia tratar-se de um novo crime bárbaro.
A praça já se encontrava repleta de curiosos acotovelando-se a fim de darem uma atenta espiada no corpo de Camila. Após muito esforço, Cristiano conseguiu esgueirar-se dentre os presentes, tomando cuidado para não largar a mão de sua irmã, finalmente chegando ao cadáver jogado diante da entrada da Igreja. Pobre Camila. Estava praticamente decapitada, sua cabeça encontrava-se unida ao corpo apenas por um pedaço de pele, parte de suas vísceras – que haviam sobrado do tenebroso banquete – se encontravam ao lado de seu corpo, que mais parecia uma carcaça sem a substância dos órgãos que antes lhe garantiam a vida, que fora arrancada de maneira brutal.
Da mesma forma que um espetáculo teatral que se repete para animar novos ou costumeiros espectadores, Padre Santiago abriu as portas de sua Igreja para vivenciar seu canastrão papel de maior representante de Deus na Terra. Antes que se pusesse a empurrar com os pés o corpo de Camila, o pároco foi subitamente interrompido por Rose Bijou que, aos gritos, exigiu que ele não ousasse tocar em sua protegida. E, possuído por um simulacro de fúria sacerdotal em prol de seu ofuscado rebanho, o padre iniciou seu inflamado discurso, arquitetado com as mesmas palavras de seus sermões, que pouco ilustravam bem-aventurança e muito diziam sobre seu hipotético inferno.
_ Filhos de Nova Friburgo! Meus filhos! O que vós tende diante dos olhos nada mais é que pura e refinada manifestação satânica. O caminho que a Besta trilha para corromper nossas almas envereda pelas estradas e atalhos do pecado! E estas mulheres pecam contra a castidade, fornicam em busca de sensações viciosas e sensuais, deitam-se em gesto libidinoso tendo nas partes o fogo licencioso do inferno. Espero que o Demônio leve embora cada uma destas cadelas, inclusive à esta senhora que trouxe para a nossa vila a sua própria Babilônia!
_ Eu não sei como suportas o peso de tuas próprias palavras! – revidou a cafetina, com lágrimas nos olhos – Estou diante de um crápula sem coração que se diz um pastor de Deus mas que pouco faz para cuidar de seu rebanho! O Bom Pastor cuidaria bem de todas as suas ovelhas, e não abandonaria principalmente às mais necessitadas. O problema não é o fato de eu e minhas rosas vivermos em função daquilo que tu chamas de pecado... O que alimenta-te os rompantes injuriosos é o fato de ovelhas magras não terem pêlos suficientes para tecer uma dalmática que possa vestir-te com primor!
_ De que acusas, meretriz?! – gritou o padre, visivelmente ofendido.
_ De voltar os olhos de Deus para o dinheiro dos fiéis que freqüentam a tua igreja! – gritou Rose Bijou, causando vertiginoso espanto dentre todos os presentes.
_ Ora, sua... – disse o padre erguendo a mão em riste contra a mulher sentada ao chão, abraçada ao corpo de Camila.
Repentinamente, a discussão foi interrompida pelo trote de um cavalo. Ao perceber de quem se tratava, a multidão respeitosamente abriu caminho e, do meio da loucura do povo, o Barão Enéas Caronte surgiu montado em seu garboso cavalo, Tifão. Apesar de sua aparência imberbe e rosto iluminado por gentil beleza, o Barão repreendeu com um olhar severo o gesto ameaçador do padre e em seguida voltou seus olhos com ar de cumplicidade para as prostitutas, falou:
_ Margarida, Luísa... Levem madame Rose Bijou para casa. Danilo, providencie uma carroça e leve o corpo de Camila para o cemitério. – Ordenou Enéas, sendo prontamente atendido, enquanto todos o observavam com reverência quase semelhante àquela dirigida ao sacerdote da vila.
Indignado diante da postura do Barão, Padre Santiago continuou a falar de modo que todos pudessem ouvi-lo:
_ Então... Conheces estas prostitutas?
_ Que nova tolice é esta agora, Padre Santiago? Bem sabes que sou um freqüentador assíduo de nossa melhor casa de diversões. Sem sombra de dúvidas, o lar de Rose Bijou é bem mais animado que a casa de Deus. – provocou o Barão com um cínico sorriso nos lábios.
As pessoas comentaram assustadas, benzendo-se e erguendo os olhos na direção do céu, motivando o padre a dar prosseguimento às suas entusiasmadas admoestações:
_ Como ousas comparar a casa de Deus a um prostíbulo?!
_ Não estou a fazer comparações, padre. O prostíbulo, deveras é bem melhor. – continuou o Barão a excitar o povo ao seu redor.
_ Animal imundo!!! – resmungou o padre, voltando-se para seus fiéis.
_ Deverias policiar teus modos ao dirigir-me a palavra, padre. É prudente que tu evites perder esta tua tão ocupada língua. – ameaçou o Barão privando suas palavras do brilho de seus dentes alvos de tanto escárnio.
_ Estás tu a ameaçar um representante da Santíssima Igreja, Barão Enéas Caronte?
_ Basta que eu envie um mensageiro à Corte a fim de entregar uma única correspondência minha ao Bispo para que tu percas tua paróquia, pescas tudo.
_ O Clero reconhece minha santidade! – disse o sacerdote, em tom de desafio.
_ O Clero reconhece muito mais o meu bronze, não tenha dúvidas disto!
_ Já que pretendes enviar um estafeta à Corte, por que não mandas que ele traga um investigador a fim de apurar a morte das prostitutas? Nossa polícia não possui técnica para apurar crimes tão hediondos! – Gritou uma voz no meio da multidão, causando alvoroço dentre os presentes.
_ Ora, não precisamos de um investigador! Precisamos de um homem que seja o melhor na caça! – Sugeriu o Barão, recebendo sobre si um olhar geral de descrédito.
_ Estás a insinuar que um homem é o autor destas atrocidades? – disse mais uma vez a voz, tornando a multidão ainda mais sobressaltada.
_ Quem és tu? Por que permaneces às escondidas já que és tão atrevido?! – quis saber o Barão, fazendo com que Tifão girasse sobre os próprios cascos, a fim de identificar o dono da voz que parecia teimar em desafiá-lo – Não viram o estado do corpo daquela pobre mulher levada daqui por Danilo?! Vós acreditais que um ser humano foi o autor de uma atrocidade daquelas?! Que garras de fera e que bocarra cavernal teria um homem destes?!
_ Animais não escolhem vítimas e muito menos locais para abandonar seus corpos depois de mortas! – Gritou uma outra voz, despertando grande euforia no povo de Nova Friburgo.
_ Sou dono de vossas casas, do comércio onde trabalhais, das terras onde cultivais e onde vosso gado alimenta-se, portanto, eu decido o que está a ocorrer aqui! Quem tirou a vida destas mulheres foi um animal! Astuto e inteligente, reconheço... Mas um animal!
_ E quem será a próxima a perder a vida para a Fera do Morro Queimado? Margarida? Luísa?... Ou uma de nossas esposas e filhas? – Gritou um terceiro manifestante oculto, arrancando hurras da multidão.
Vendo que a situação estava se tornando insustentável, o Barão voltou-se para o padre e falou de modo imperioso:
_ Santiago, procure conter os humores de seus fiéis! Estão muito excitados e és tu o maior responsável por esta paranóia coletiva! Prometo que tomarei em breve as devidas medidas.
_ Ora, volte para seu Casarão, Caronte! – desdenhou o padre das advertências de seu interlocutor.
_ Dirija-me a palavra com mais tato, velho! Trate-me por Barão. E não te esqueças que em todas as redondezas sou eu aquele que dá a última palavra.
Dizendo isto, Enéas Caronte esporou Tifão, fazendo com que o cavalo desabalasse em direção à casa grande na qual o Barão vivia em sua própria ilha de solidão e poder, construída sobre uma elevação de terra que permitia uma visão panorâmica da vila de Nova Friburgo. Para o Barão era simplesmente inadmissível que o povo saísse de seu controle, não poderia permitir que sua autoridade fosse comprometida devido aos últimos eventos. Mas, como daria ele um fim à Fera do Morro Queimado? Como poderia ele conter a fúria de uma criatura que parecia incapaz de ser domada?
Devido ao fato de terem chegado em casa sem a encomenda de Dona Martina, Alba acabou trancada em seu quarto por vários dias, enquanto Cristiano acabou por ser sentenciado a dez chibatadas na parte anterior de suas coxas com a férula de seu pai e também obrigado a realizar trabalhos braçais pesados no negócio de sua família. Há tempos Gaspar Gobete desejava contar com o apoio da mulher para que o filho mais moço finalmente começasse a ajudar no comércio que permitia que eles vivessem com mais dignidade que a maioria dos habitantes de Nova Friburgo. Algumas peças de cambraia esquecidas na venda de tecidos acabou por transformar completamente a vida dos caçulas da família Gobete. Não só Cristiano havia sido forçado a tornar-se um homem responsável, como também Alba vira-se tentada e seduzida a tornar-se mulher, após a primeira noite em que aquele estranho de voz triste invadiu seu quarto. Ele não era um ladrão nem tampouco um assassino, talvez fosse a mistura homogênea de ambos. Mas, antes de tudo, ele era um anjo.
_ Quem está aí? – perguntou Alba com o coração em pânico, sentindo nitidamente que não se encontrava mais sozinha no cárcere de sua imprudência.
_ Queres mesmo saber quem sou? – respondeu com outra interrogação a voz de um homem, e que voz doce ele possuía, não era simplesmente uma voz, era um som, sussurrada para dentro dos primaveris ouvidos de Alba, uma melodiosa canção.
_ Não! Não me interessa! Por favor... Vá embora! Gritarei por meus irmãos e meu pai! Eles são homens fortes e caçar-te-ão sem piedade!
_ Quanto desperdício de talento! Existe um monstro à solta na cidade e estes três bravos senhores que te guardam iriam se dar ao trabalho de dissipar dotes tão necessários, justamente neste momento de dor pelo qual tua vila passa, com alguém tão inofensivo quanto eu?
_ Deixa-me, por Deus! – implorou Alba sentindo as lágrimas banharem seu rosto atemorizado diante da possibilidade daquele invasor escondido sob a escuridão do quarto fazer-lhe algum mal.
_ Por qual motivo queres que eu parta? Não ofereci-te nenhum perigo! Nada disse que pudesse ofender-te...
_ Tenho medo... – revelou a menina com a voz quase presa em sua garganta.
_ Medo? De mim?
_ Sim...
_ Como? Não sabes quem sou... Não sabes porque estou aqui...
_ ... Sei que o senhor pretende fazer-me algum mal... – falou a menina quase emudecida pelo pavor, irrompendo em lágrimas ainda mais volumosas.
_ Não, minha criança! Jamais ousaria molestar-te! Como podes ser tão leviana? Por que precipita-te em julgar-me um mal-feitor?
Alguém com uma voz tão pacata não pode ser o mesmo dono das mãos de um facínora... Pensou Alba, preferindo travar com aquele desconhecido uma conversa comum, apesar da extravagância daquele encontro.
_ Então, o que vieste fazer aqui? Como entrou em minha casa... meu quarto?
_ Escutei tuas preces, meu bem, foste tu que me chamaste.
_ Quem és tu?
_ Sou teu anjo... Estou aqui a fim de guardar-te do mal.
_ Meu anjo?! – espantou-se Alba, diante de tal declaração.
_ Se prometeres guardar minhas visitas em segredo, visitar-te-ei todas as noites. Agora, preciso ir...
_ Para onde? Para o Céu?
O anjo então quase comoveu-se diante da inocência daquela bela menina, respondendo-lhe a pergunta tendo a voz ainda mais suave, mais enternecida:
_ Não, meu bem. O Céu é muito distante. Eu não suportaria ficar longe de teu belo rosto, de teus lindos olhos.
_ Como podes saber-me bela? – perguntou Alba, curiosa.
_ Sou um anjo, querida, a escuridão não atinge meus olhos. Acredite que posso vê-la como se estivesses sob a luz do mais estonteante dos amanheceres. Apenas eu em todo o mundo sei o quanto és bela.
Enrubescida, Alba sorriu com enlevo e permaneceu alguns instantes em silêncio, temendo a ousadia que estava prestes a transformar em palavras.
_ Voltarás mesmo amanhã?... – lançou, temendo parecer atrevida.
_ Retornarei por todos os dias que nos forem dados... Todos os dias. Agora durma, meu bem.
Alba sentiu-se repentinamente sonolenta, contaminada pela melodia daquela doce voz, hipnotizada pelas palavras do anjo. E, sem que ela escutasse o som de janelas ou portas batendo, ele partiu. Alba permaneceu sob as cobertas, enquanto os sonhos invadiam arbitrariamente seus frágeis pensamentos. Em seus sonhos ela agradecia a Deus por ter um anjo, um anjo apenas seu, que iria ouvi-la, guardá-la e amá-la. Ela estava feliz pelo presente que havia recebido da escuridão do quarto. Naquela noite, ela dormiu bem mais tranqüila que nas anteriores, pois ela sabia-se senhora de um anjo, e ele velaria seu sono, em algum lugar que não era o Céu, por este ser longe demais.
Quantas noites foram por aqueles dois seres de naturezas distintas, absorvidas, devoradas sem compaixão alguma? As palavras fluindo sem nenhuma censura, as idéias libertas do crivo do dia-a-dia, superficial, mentiroso, falso. A cada novo encontro com aquele enigmático mensageiro de idéias que ela não conhecia, Alba tornava-se cada vez mais ciente do quanto ela vivia na ignorância das coisas, presa a uma família que não lhe permitia tomar aulas que possibilitassem um conhecimento além daquele que apenas lhe serviria de ferramenta para que ela sobrevivesse a um futuro e inevitável casamento arranjado com algum palerma de meia-idade e gestos rudes. Seu anjo a presenteava, noite após noite, com valiosas informações que ilustravam quão grande era o mundo que ela mal conhecia. Forneceu minuciosas descrições a respeito do Templo de Taleju e do Palácio de Hanuman Dhoka, em Katmandu; descreveu a Criação de Adão e o Juízo Final, primorosamente pintados na Capela Sistina, no Vaticano, pelo renascentista italiano Michelangelo; discorreu inúmeras vezes sobre a filosofia de Tales de Mileto, Platão, Sócrates, Maquiavel, Thomas More, Descartes, Voltaire, dentre outros célebres pensadores; demonstrou por várias vezes, através de uma nasalidade quase infantil – em uma imitação ingênua e caricata dos grandes mestres da música – os sons das mais belas óperas de Sebastian Bach, Antonio Vivaldi, Domenico Cimarosa e Wolfgang Amadeus Mozart. Alba deleitava-se diante de toda a beleza soprada para dentro de seus virginais ouvidos, imaginava-se a passear descalça sobre o som da voz de seu doce anjo, sentindo sob seus pequeninos pés o orvalho, a saliva, o perfume, que emanavam daquela boca vestida de sabedoria e sombras.
_ Como consegues entrar aqui sem que ninguém de minha casa desperte? Como podes tu violar as janelas e as portas de nossa morada sem que os solavancos da invasão, indevidamente permitida por mim, te denunciem? – perguntou Alba ao seu anjo em uma das muitas noites que furtaram em segredo, justamente aquela que acabou por ser o marco do adeus que parecia espreitá-los.
_ E por que tu sempre me recebes com uma pergunta? – Brincou o misterioso visitante, quase rindo do singelo ar de impaciência daquela doce menina que ele próprio arbitrara tratar da guarda.
_ E tu sempre me respondes com outra! – disse Alba, fazendo com que o anjo deixasse fluir por entre seus lábios uma gostosa risada.
_ Parece-me um pouco perturbada. – inquietou-se o gentil intruso – O que fiz? Acordei-te de um gracioso sonho?
_ Não aprecio sonhos graciosos, tenho preferência por terríveis pesadelos.
Curioso diante da declaração de Alba, o anjo inclinou-se um pouco mais na direção do rosto da menina e perguntou:
_ Preferes ter sonhos ruins?! Não entendo...
_ Explicar-te-ei! Quando tenho bons sonhos, sempre é frustrante o momento em que desperto, pois aquilo que me agradava durante o sono termina por revelar-se uma tola ilusão, um momento mágico interrompido pelo abrir dos olhos. Já os pesadelos, quando os tenho, acabam por proporcionar-me alívio e quietude sempre que dos mesmos acordo e descubro que tudo não havia passado de uma cruel armadilha de meus próprios pensamentos.
_ Bravo! – alegrou-se o anjo com a forma de pensar da menina que guardava – Curiosa argumentação acerca da virtude de se ter um medonho pesadelo! Mas, responde-me. O que há? Pareces triste.
_ Desculpe-me. – pediu Alba, delicadamente – Apenas impaciento-me por não poder contemplar teu rosto...
_ Por que desejas tanto conhecer-me a face? – quis saber o anjo, censurando-lhe o natural desejo – Ainda ontem, não parecias tu vitimada por curiosidade tão frívola! Lembra-te da história que narrei-te certa madrugada, sobre Eros e Psique? Pois bem, querida Alba, nossa história, a minha e a tua, assemelha-se a destas criaturas mitológicas. Temo que uma maldição caia sobre nós dois caso venhas tu a conhecer minha verdadeira identidade.
_ Psique temia ser desposada por um monstro quando, na verdade, sob a luz de uma lâmpada, ela acabou por encontrar o mais belo dos deuses. – retrucou Alba, tentando convencer o anjo a satisfazer seus anseios.
_ E o que lhe disse então Eros diante da vil traição? “Não lhe imponho outro castigo, além de deixar-te para sempre. O amor não pode conviver com a suspeita”.
_ Amor? Por que estás falando de amor? – perguntou a jovem mulher sentindo a natureza desabrochar dentro de si.
_ Não fale mais, Alba! Cala-te! As palavras são más e traiçoeiras, fiquemos em silêncio! – Disse o anjo, claramente incomodado com a armadilha de perguntas que Alba parecia cavar sob seus pés.
_ Não posso manter-me emudecida! Tenho algo a dizer-te! – revelou a menina, inundada por uma indomável vontade de chorar.
_ Acalma-te, bela criança! – preocupou-se sinceramente o anjo com o arroubo de sua protegida – Pois então fale, já que isto te parece tão importante!
_ Parece-me ser mais que a vida! – desabafou Alba permitindo que uma lágrima corresse por seu enervado rosto – Há algo dentro de mim que diz respeito ao senhor... Algo semelhante ao que sinto por minha família e por Zarina, porém... diferente... acolhedor e ao mesmo tempo lancinante! Como se meu corpo falasse comigo e me dissesse coisas novas e atraentes. Não sei como dizer-te, mas... Sinto conhecer-te de minha vida inteira! Se realmente és meu anjo, diz-me o que estou a passar?
_ Não sei, criança. Eu não sei... – disse o anjo com um tom de voz transtornado, como se não soubesse o que dizer para acalentar o coração de Alba.
_ Por que me negas as devidas respostas?! Deve-me isto! Conheces todos os lugares do mundo, és dotado de uma sabedoria fascinante, como não poderias saber o que há comigo?! E quanto a tua voz... por que ela é tão triste? Tu não pareces um anjo! – Falou Alba aquilo que, caso a clandestinidade daquela situação não impedisse, diria aos gritos.
_ Mas o sou! – advertiu o anjo como se as palavras de Alba o houvessem ofendido profundamente – E se sou triste, é porque sou teu...E se sou teu, é porque te amo! Mas meu amor por ti é proibido! Estaríamos perdidos, Alba... Não podemos... Não é permitido...
A menina então ergueu as mãos no ar e encontrou as palmas trêmulas e suadas de seu guarda, tocando-as com fervor, fazendo com que o anjo mais uma vez sentasse junto a ela.
_ Conheço-te há tão pouco tempo... Conheço-te e não te conheço! Mas, Deus meu, que loucura! Será que o sentimento que eu nutro por ti... também seja amor?
_ Reze para que não o seja, criança. Reze para que não o seja. – disse o anjo como se fizesse uma curta prece, envolvendo ainda mais aos seus os dedos da jovem Alba.
_ Como te chamas?
_ Para que nomes? Sou teu anjo, isto não basta?
_ Não. Eu quero algo mais.
E então, ela o beijou. Pela primeira vez em sua vida, Alba pôde experimentar o toque íntimo, sentir o sangue correr vivo pelas artérias e invadir seu coração como um maremoto de dúvidas desnorteadoras que a despertaram para o feminino, que a fizeram enxergar-se além das muralhas impostas por falsos pudores. Após o beijo, Alba sentiu uma leve vertigem e desfaleceu sobre os lençóis, enquanto a presença do anjo mais uma vez desaparecia do quarto, deixando Alba a ressonar com uma das mãos posta sobre os lábios, acariciando com leveza seu inocente pecado, o gosto doce que seu anjo havia deixado em sua boca. A partir daquela madrugada, Alba passaria a aguardar com maior fervor pela próxima noite, de coração aberto esperá-lo, sem culpa ou medo, pois descobrira, após aquele beijo, que sua repentina e fulminante doença, sem dúvida alguma, era amor.
Na manhã seguinte, Alba foi acordada pela amável Zarina, que havia decidido agradar com o mimo de um café-da-manhã na cama a jovem filha dos Gobete. Ao sentir as mãos calejadas, porém carinhosas, de sua ama acariciando-lhe as madeixas, Alba foi tomada por um incontrolável ímpeto de contar-lhe tudo, de falar sobre seus encontros secretos para aquela mulher que a amava como uma filha. Sem medir conseqüências, Alba revelou à Zarina a amizade que estava nutrindo por um anjo, repetiu para a ama desde a primeira à derradeira palavra, os palácios do Nepal, os filósofos, os afrescos, as óperas, o toque, o calor, o beijo. Inocente, atada pela ignorância que herdara dos tempos de senzala, Zarina apenas sorriu e falou para Alba que anjos não beijam as pessoas que guardam, disse que, muito provavelmente, Alba deveria estar sonhando com algum belo mancebo que havia encontrado pelas ruelas da vila. A menina então sorriu e levou um pedaço de pão à boca a fim de manter-se calada, percebeu que aquilo deveria ser mantido em segredo, pois, apesar de extremamente crédulas e tementes a Deus, as pessoas não acreditavam em anjos, apenas fingiam para satisfazer as vontades do Deus que Padre Santiago havia criado para a Vila de Nova Friburgo.
Após terminar seu dejejum, Alba vestiu-se com o auxílio de Zarina e em seguida dirigiu-se para a sala a fim de ajudar a mãe na preparação de uma vistosa toalha de renda. Repentinamente, Cristiano adentrou a sala com o rosto afogueado, tendo os olhos vidrados na direção da mãe que censurou-lhe com um gesto na boca sua notória inflamação.
_ Mãe... – tentou falar o rapaz, engolindo uma porção de saliva seca.
_ Diz-me a que veio, infeliz! Ou esperas que eu leia em tua face de paspalho o motivo deste frenesi?
Como se buscasse em suas idéias algo conveniente para dizer, Cristiano hesitou por alguns segundos para logo em seguida falar, como se tivesse um lampejo.
_ Acabei de encontrar com o tintureiro, disse-me ele que as colchas estão prontas!
_ Então porque não as trouxeste de imediato, fastidioso animal? Esperas o quê? Que eu mesma vá buscá-las?
_ Não entendo destas coisas! Pensei em levar Alba comigo para que ela verifique de imediato se há no trabalho alguma imperfeição.
Suspeitosa da atitude de Cristiano, Dona Martina ergueu as sobrancelhas e analisou o filho mais moço como se procurasse algum sinal de embuste em sua atitude. Porém, como tinha o filho no conceito de alguém sem habilidade alguma, acabou por concordar que seria mais prudente um olhar feminino sobre a tintura que haviam posto sobre suas caras colchas.
_ Zarina e eu daremos conta do rendado. E não me cheguem aqui de mãos abanando, senão trocarei o evangelho pela chibata, que muitas vezes acaba por ser a melhor das orações para quem não zela por aquilo que lhes é mandado.
_ Sim, senhora! – Disse Cristiano pegando a irmã pela mão e praticamente arrastando-a para a rua.
_ Não me enganas, Cristiano! Conheço-te! O que há? – quis saber Alba, enquanto o irmão a arrastava dentre uma multidão que seguia o mesmo caminho que ele estava tomando, avesso ao que levava à tinturaria.
_ Outra pessoa foi encontrada morta! – revelou Cristiano, imerso em seu alvoroço. _ Deus! Que terrível praga caiu sobre aquelas mulheres? – pensou Alba em voz alta enquanto apertava dentre seus dedos o terço que levava em seu alvo pescoço.
_ Engana-te, minha irmã! Desta vez a Fera do Morro Queimado atacou um homem!
Ao ouvir aquilo, Alba sentiu uma forte pontada em seu coração, como se temesse que a vítima do monstro que estava a assombrar sua vila fosse aquele que a visitava na calada da noite. A fera matou um homem, não um anjo!, repetia para si mesma enquanto sentia as extremidades do crucifixo quase ferindo a palma de suas mãos.
O homem que havia morrido chamava-se Heitor. Tratava-se de um boticário muito conhecido na vila, respeitado por todos e de boa posição financeira, mas de estampa franzina e modo abobalhado, talvez por isso fosse ele um costumeiro freqüentador da casa de Rose Bijou, por não ter lá muito traquejo com mulheres. Suas vísceras encontravam-se espalhadas pela escadaria da igreja e seus olhos tinham sido arrancados, juntamente com outros órgãos que haviam deixado-lhe o abdômen praticamente oco.
Antes que o padre saísse de sua sacristia para inflamar ainda mais o imaginário dos fiéis com misticismo e crendices acerca das artes satânicas, o barão Enéas Caronte aproximou-se do povaréu e tentou forçar passagem dentre os curiosos, dando-lhes chicotadas nas costas com o açoite de Tifão a fim de verificar com os próprios olhos o que se passava. Ao encontrar o corpo do boticário estripado de forma hedionda, o barão levou as costas da mão a testa a fim de secar uma fina camada de suor e perguntou como se falasse de si para si:
_ O que está a acontecer aqui?
_ O diabo cansou-se das rameiras, barão! Agora ele irá nos devorar! – disse o coveiro, com a voz embargada de pavor.
_ Acalma-te, Danilo! Providencie logo a remoção deste corpo antes que...
Enéas Caronte não teve sequer tempo de concluir sua frase. Inflamado, pronto para dar continuidade à sua cruzada contra a Besta, Padre Santiago surgiu transfigurado na figura de um bizarro profeta, adivinhando o que se passava como se estivesse sendo acometido por visões estimuladas por gases sulfúricos.
_ “Exterminai, pois, as vossas inclinações carnais; a prostituição, a impureza, a paixão, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria.” – gritou o padre, voltando seus olhos e punhos cerrados na direção do céu, fazendo com que boa parte das pessoas copiassem-lhe o gesto – Agora Deus envia seu Anjo da Morte para ceifar a vida daqueles que deitam-se em pecado com vis mulheres! Nova Friburgo, abandona de vez o caminho do mal ou seremos todos engolidos pela cloaca do inferno!
_ Percebo que tens um grande problema em tuas divinas mãos, Santiago. – disse o Barão em tom de mofa – Se Deus exterminar todos os impuros, avarentos e idólatras de Nova Friburgo, não terás mais quem te empanturre a pança de adulações e mesas fartas!
_ Recuso-me a dirigir-te a palavra! Pois tu, Barão, não passas...
_ Às favas com as desavenças dos senhores! – gritou Cristiano, fazendo com que todos o encarassem em um misto de piedade e expectativa pelo devido castigo, que de certo, se não partisse do barão, partiria do padre.
Percebendo que havia cometido um terrível erro, Cristiano preferiu apelar para a autoridade do Barão a fim de que não caísse em maus lençóis com Padre Santiago.
_ Nobre Barão, perdoe-me a insolência! Fui tomado pelo ímpeto do desespero! Temo que algo de mau aconteça a um de meus familiares, tenho uma mãe, tenho esta irmã que jamais teria como defender-se desta fera demoníaca!
_ Como te chamas, rapaz? – perguntou o Barão, observando com certa benevolência o comportamento de Alba agarrada ao braço de Cristiano, como se o protegesse.
_ Cristiano, senhor.
_ Prometo-te, jovem Cristiano, que tentarei resolver esta farândola sanguinária que apoderou-se de nossa vila. Agora leva tua irmã para casa, isto não convém aos olhos de uma menina. Aliás, é prudente que todos retornem aos seus lares e permaneçam encerrados nos mesmos. Tentarei resolver ao meu modo este odioso mistério.

Antes de retornarem para casa, Cristiano e Alba resolveram passar na tinturaria a fim de pegar a encomenda materna e assim evitar novas punições. Durante a caminhada, puseram-se a trabalhar as idéias em busca de algum subterfúgio que justificasse a demora em um afazer tão simples. Dadas as devidas explicações para Dona Martina, Alba ajudou a mãe a desdobrar cada uma das colchas para que o último aval no serviço fosse dado pela senhora da casa, enquanto Cristiano retornava ao comércio antes que o pai viesse buscá-lo pelas orelhas.

6 Comentários:

Blogger ALICE CONTRA O ESPELHO disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

4 de outubro de 2007 07:43  
Blogger Rebecca disse...

Nossa! Que intrigante! não vejo a hora de ler as seqüências... Só de quinta em quinta-feira fica muito longe! Fico pensando se a Fera do Morro Queimado é mesmo um homem ou um monstro, afinal, uma criatura selvagem não poderia ter um estilo para matar suas vítimas. E porque agora a fera matou um homem, já que antes só morriam as prostitutas? Quem é este anjo que visita a Alba? O que o irmão dela faz quando sai?! Ai, só tá no comecinho mas já tem tantos elementos! Estou adorando! Me surpreenda Emerson Braga!
P.S.: Isso é seu nome ou pseudônimo?

4 de outubro de 2007 08:05  
Blogger ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga disse...

Sim, Rebecca, Emerson Braga é o meu nome. E vê se continua lendo, pois a história de verdade, propriamente dita, ainda nem começou! Grande Abraço!

5 de outubro de 2007 11:34  
Blogger Klaindson disse...

Espetacular! Comecei e não consegui mais me desgrudar do texto! Até aqui, quantas perguntas fervilham em minha mente! Muito curiosa a estória e cheia de caminhos que começam a ser abertos agora: cada um deles pode nos conduzir a um desfecho diferente da trama. Particularmente, adoro textos que conseguem me prender. Parabéns.

6 de outubro de 2007 17:33  
Blogger ALCATÉIA - Um Livro de Emerson Braga disse...

Klaidson, os próximos episódios serão apenas preparação do que vem por aí... Olha, eu como autor, tô com medo dessa história! Os personagens estão tomando rumos diversos...
Klaidson, só creia em algo... O que você viu até agora não é nada! Vem mais coisa além da loucura do Padre Santiago...

6 de outubro de 2007 19:03  
Anonymous Iris disse...

É.. parece que a galera tá gostando, isso não me é novidade, seus textos são realmente maravilhosos e realmente prendem o leitor, mas continuo achando que seria sim de bom tom que vc postasse por partes, trechos menores, fica menos cansativo e mais cuirioso. Bjo!
Não li ainda, vou imprimir pra ler em casa.

9 de outubro de 2007 05:46  

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