
Após recusar o convite do comendador para sentar-se à frente do altar, Neméia e Abel escolheram um lugar discreto para assistirem à cerimônia a fim de não serem importunados pela bajulação de terceiros. E, mesmo estando muito distante do altar, Neméia o viu. Era Dante, ele havia ficado mais belo com o passar dos anos, estava de pé, próximo ao altar e bebia com extremo deleite cada palavra proferida pelo padre. Mas, naquele instante, naquele lugar, Neméia preferiu esquecer aquela marcante lembrança de sua infância pois Dante representava uma ameaça para seu disfarce, então, procurou ater-se às palavras do sacerdote e fingir que seu passado não estava bem ali, diante de seus olhos.
Em seu sermão, o padre falou em almas queimando no fogo do inferno, em fornicação, luxúria. Ociosidade e nos caminhos que a Besta traça em vis armadilhas para a Humanidade. Falou nos Dez Mandamentos e o sexto deles, o Não Matarás, tocou Neméia de uma forma íntima e pessoal. Deus havia ordenado ao seu rebanho que ele não cometesse homicídio, mas ela matava, drenava o sangue, devorava vísceras e comia os órgãos dos filhos de Deus. Neméia sentiu-se a própria Besta, segurou firme a mão de Abel com o desesperado intuito de que Deus perdoasse os dois assassinos que haviam adentrado sem convite sua casa.
Com o término da missa, Neméia ergueu-se e caminhou rapidamente até a charrete. Percebendo que sua dona se encontrava sensivelmente transtornada, Abel tomou as rédeas em suas vigorosas mãos e os dois seguiram em silêncio na direção do Casarão. Chegando neste, Neméia ordenou que Abel permanecesse parado onde estava, no centro do salão principal, enquanto ela disparava na direção da biblioteca. Neméia passou muitas horas perdida dentre inúmeros livros, procurando algo que revelasse o passado criacionista de sua linhagem, precisava descobrir a qualquer preço se havia sido criada por Deus ou pelo Diabo. E, como o Barão Enéas Caronte era um apreciador do modo como seus semelhantes eram vistos pela óptica humana, Neméia não teve dificuldade em encontrar vários livros e artigos que tratavam de licantropia, obras literárias sobre os seres noturnos. Neméia leu os tópicos principais de cada obra, e, a cada nova página folheada, crescia dentro de si uma recusa maior por sua própria natureza, sentia revolver-se em seu âmago um misto de pavor e ódio por sua condição supostamente diabólica. Cansada de ler aquelas páginas reveladoras de como os hemanubis, hipoteticamente lendários, eram vistos pelo crivo humano, Neméia jogou-se de joelhos ao chão e ergueu os braços para o ar. Dentre lágrimas, implorou pelo perdão de um deus que não a tinha como uma filha, pois ela não era cria sua. Neméia ficou por algum tempo de braços suspensos e olhos cerrados, como se experimentasse uma espécie de êxtase religioso, aguardando qualquer manifestação divina, porém, ao perceber que nada iria acontecer, que suas súplicas não seriam ouvidas ou atendidas, lançou-se ao chão e derramou sobre o tapete a amargura de levar pelo resto de seus longos dias o peso de seus crimes e do desamor de Deus. Repentinamente, a jovem baronesa sentiu uma leve pressão sobre seu ombro, fazendo com que ela se erguesse assustada, irada contra aquilo que ela julgava ser a verdade, verdade esta encontrada nos romances fantásticos que preenchiam algumas prateleiras das estantes da biblioteca de seu pai. Neméia olhou ao redor, acariciando trêmula o lugar no qual havia sentido o toque e nada encontrou. Quem quer que a houvesse tocado, escondia-se atrás de uma inaceitável invisibilidade. O Casarão parecia esconder os segredos da morte.
Decidida, revoltada, sentindo-se traída, Neméia desceu até o salão, onde encontrou Abel no mesmo lugar no qual o havia deixado, por mais de doze horas, de pé, no centro do salão. A baronesa ordenou que seu servo sentasse em uma poltrona enquanto ela mesma continuava de pé, eufórica. Percebendo a inquietude de sua irmã, Ortros aproximou-se matreiro como uma hiena a fim de verificar o que se passava, adorava quando lufadas de raiva e ira movimentavam o ar úmido e pesado do Casarão.
_ Por que nos negaste a verdade, Abel? Nos escondeste isto por nossa vida inteira?! – bradou Neméia, sem ao menos esclarecer de que se tratavam suas queixas.
_ De que falas, senhora? – quis saber um imparcial Abel, como se a visível agonia de sua ama não lhe causasse sensação alguma.
_ De nosso pai! – gritou Neméia, quase sem conseguir dizer a palavra pai.
_ O que tem Enéas? – continuou sem entender o homem-gárgula a razão daquele disparate.
_ Não falo de meu pai terreno, falo do Grande Pai, aquele que realmente nos criou... o Diabo. – disse, enfim, Neméia, quase com medo.
_ De onde tiraste tal idéia? – perguntou Abel, intrigado com a ingenuidade de sua mestra.
_ Eu li tudo nos livros, Abel! Chega de tantas mentiras! – esbravejou a jovem, tendo nos olhos a ira de mel que revelava sua natureza hemanubis.
_ Nos livros da biblioteca?! – admirou-se Abel, tendo em seu tom de voz um ar de sarcasmo – Não seja tola, anjo meu! Aquilo não passa de literatura infantil, de fábulas que apenas servem para manter crianças humanas longe de confusões! Os adultos gostam de chafurdar na lama sozinhos, não gostam que suas crias façam o mesmo.
_ Deus não nos ama, Abel... Deus quer que sejamos mortos... Pois nós... Nós fomos criados pela Besta! – Desabou Neméia em um notório abatimento, recobrando mais uma vez o azul profundo de seus belos olhos.
_ Deus... Diabo... Esqueça tais entidades folclóricas, pertencentes às altas esferas do quimérico religioso, senhora. Esqueça estes títulos de detentores da ordem e do caos universal. Quem há de garantir que ambos realmente existem? Se um dos dois for real, nunca tive nenhuma prova de suas existências.
_ E quanto à nossa longevidade, Abel? Deus dotou os outros animais de uma vida limitada... Se apenas nós atravessamos os séculos, é porque foi outro quem nos criou.
_ Vós não sois imortais, querida! Como tudo na natureza, Ortros e tu um dia sucumbirão ao sensual convite da morte. Mas não podemos negar que vós sois bem mais resistentes que os humanos, estes pobres coitados que perecem mesmo diante da mais branda moléstia. Vós sois como os lobos, e a força do lobo somada à força do homem é um sinal de poder extremo, é o elixir da longa vida que alimenta todo hemanubis.
_ Elixir da longa vida?! Nós bebemos e comemos de humanos, Abel! Nos alimentamos de pessoas, de cristãos... Isto é demoníaco! É horrível!
_ Neméia, já viste nos relatos de inúmeros historiadores a descrição de ilhas e continentes exóticos onde vivem homens que devoram homens. Há indícios de canibalismo em todas as partes do mundo, querida, inclusive, no dito Mundo Civilizado. Ao menos um hemanubis não devora seu semelhante. Vós não sois canibais, Neméia, sois antropófagos. Esqueça as tolas semelhanças anatômicas! Tu não és humana, ao devorar um homem, não estás a devorar um dos teus! O fato de vós viveis da carne humana é perfeitamente natural, a natureza por completo se devora... Isto é vida!
_ Mas o que é vida para nós é a morte para eles! – repeliu a baronesa as argumentações de seu servo.
_ E o que é vida para eles é a morte das boiadas, dos cardumes! Homens não se alimentam apenas de orações e bênçãos divinas, meu bem!
Apesar da convincente impugnação de Abel contra o que ela dizia, Neméia teimava em negar-lhe o devido crédito, desassossegada, andando de um lado para o outro, esfregando as mãos, como se estivesse aos pés da cama de um ente amado a agonizar.
_ Abel, de onde nós viemos? – prosseguiu a jovem, apreensiva.
_ Do meio das pernas de vossa mãe? – ousou Abel, quase esquecendo sua condição de lacaio.
_ Basta! Chega de cinismo! Deve-me a verdade! Deve-me respeito! – exasperou-se a baronesa diante da postura de seu servo.
_ Eu não tenho tais respostas, Neméia! Do mesmo modo que surgiu o homem, surgiu o hemanubis, a própria natureza concebeu a ambos. Se agora tu decidiste dar crédito ao Deus dos homens, é prudente que acredites que Ele também vos criou.
_ Cera de altar! – bradou Neméia como se houvesse recordado de um detalhe importante – Uma lança ou bala de prata banhada por cera de vela de um altar onde se haja celebrado três missas da noite de Natal é capaz de matar um licantropo... um hemanubis. Se os sírios são bentos por inspiração divina e se morremos com a prata, envolvida em cera santificada, encravada em nossa carne, mesmo sendo dotados de uma assombrosa longevidade, é porque a obra de Deus nos abomina!
_ Caso queiras, ainda hoje roubarei a pia batismal para que tu te refresques com a água benta e também trarei alguns círios benzidos para iluminarem e aquecerem teu banho. Os ingredientes e talismãs dos diversos cultos católicos não possuem poder sobrenatural algum, talvez apenas o de pilhar o bronze dos tolos! É a prata que possui características capazes de envenenar vosso sangue. Não entendo bem porquê, mas acredito que se trate de uma reação alérgica de extrema gravidade. Caso a senhora acidentalmente tenha um de vossos delicados dedinhos ferido por uma lâmina de prata, teremos que amputá-lo de imediato, antes que a infecção se espalhe. Por isso vossos talheres são de ouro. Reconheço o mal gosto, mas trata-se de uma questão de segurança para meus senhores.
_ E alho? Alho nos faz mal?
_ Misturaste as fábulas, baronesa! – advertiu Abel, quase a sorrir do despautério de sua ama – Creio que o alho é um amuleto presente no mito do vampiro, do homem-morcego. A senhora não é um mito, é uma hemanubis.
_ Quando deixarei de ver minha imagem no espelho?
_ Outra vez a senhora encontra-se às voltas com contos vampirescos. Por que deixarias tu de ver teu reflexo no espelho, Neméia, não queres mais embelezar-te?! Ficaste deveras mui impressionada com o que leste!
_ Como Ortros e eu nos transformamos em feras sem que para isso realizemos o ritual necessário? Por que, ao menos para nós dois, não é necessário que nos espojemos em uma encruzilhada a fim de assumirmos nossa forma verdadeira? E porque não perdemos a razão? Por que não nos transformamos em lobos de fato, como acontece com os outros humanos que com o Diabo também fizeram o pacto?
_ Neméia, não há pacto algum! Q quanto à razão... Ai de ti sem razão! Já basta que há tempos a razão já tenha abandonado os homens. – bradou Abel, com tremenda ironia – E por que gostarias tu de transmutar-te em uma loba?! És tão bela, baronesa! Não consigo concebê-la sobre quatro patas, a uivar para a lua cheia!
Sem mais encontrar meios de conter seu frenesi, Ortros irrompeu em gargalhadas, sem conseguir acreditar nas tolices que sua irmã gêmea estava a proferir.
_ Estás a rir, meu irmão?! – enervou-se Neméia com a indelicadeza do barão – Olhe só para Abel! O que tu és, afinal, criatura?! – perguntou a baronesa, voltando-se para o homem-gárgula – como uma estátua de pedra se transforma em homem... em monstro... senão através de dotes satânicos?
_ Devo isto a um distante antepassado teu, senhora. Enquanto os alquimistas desta Humanidade parva perderam suas vidas e toda a sua ciência tentando transformar chumbo em ouro, vosso ascendente descobriu uma maneira de transmutar pedra em carne, ignorância em sabedoria. Digamos que eu seja a própria pedra filosofal, Neméia... Belo e eterno.
_ Logo descobrirão que somos lobisomens... vingar-se-ão de nosso voraz apetite sem piedade alguma!
_ Tu és uma hemanubis, Neméia! Uma hemanubis! Não um licantropo! Não um lobisomem! Queres saber o que é um lobisomem? Contar-te-ei! – disse Abel levantando-se, como se a palavra lobisomem fosse uma ofensa à memória daqueles que o haviam criado – Diferentes de vós, os humanos tendem a apresentar problemas quando são gerados em um casamento consangüíneo, ou seja, entre parentes próximos. Um destes problemas, por ignorância dos homens, acabou sendo tratado como a maldição do homem lobo, o que na verdade nada mais é que uma doença. Os pobres diabos portadores deste mal, quando sob o efeito da luz, sofrem uma destruição de seus tecidos mais expostos, como as pontas dos dedos e o nariz, ferindo estas áreas de forma violenta e dando o aspecto de queimação. No imaginário das pessoas, os dedos feridos assemelham-se a garras, e a face, que se torna peluda, a fim de proteger-se dos efeitos da luz, é reconhecida pelos tolos como a cara de um lobo. Como os que sofrem de tal moléstia mostram uma boca permanentemente aberta devido às lesões repetitivas dos lábios, andam por aí com os dentes descobertos, o que sugere a idéia de presas. Suas narinas, pelos mesmos motivos das lesões, se apresentam voltadas mais para cima, de orifícios tétricos e escuros, conferindo aspecto de focinho. Provavelmente, a fim de suprirem a deficiência de ferro em seu sangue, alguns destes doentes devem ter sido flagrados comendo carne crua ou bebendo sangue de animais, o que não deve ter sido bem recebido por uma humanidade que vê o Diabo até mesmo nas mulheres que se envolvem com política. Voilá! Temos um autêntico homem-lobo para assombrar as mentes, despidas de intelecto e repletas de tolas crendices, da maioria dos homens. O que leste nos livros nada fala sobre os hemanubis, trata-se apenas de superstição, maldade e desinformação acerca de uma doença que transforma seus possuidores em párias amaldiçoados pela estupidez de seus iguais.
_ Por que continuas a mentir, Abel? – desistiu, enfim, Neméia de arrancar a verdade que queria ouvir a qualquer custo daquela parede de pedra – Pensei que fôssemos amigos... Deus vingar-se-á de todos nós! Ouviram?! De todos nós! – gritou a baronesa, subindo às pressas a escadaria a fim de encerrar-se em seu quarto.
Neméia passou dias e dias sem conseguir livrar-se da onipresença divina, que ela sentia como um olhar inquisidor a cobrir-lhe de vergonha. A idéia de danação não abandonava seus pensamentos, a açoitava sem trégua. Se Dante acreditava em Deus, era porque este realmente existia e não iria perdoá-la pelos assassínios. A condenação às penas do inferno a perseguiria, as trevas... e isto a assustava. Até mais que o medo que ela já sentia de sua própria natureza.






