Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008


No dia que se seguiu àquele, Abel e Neméia dirigiram-se para a Igreja de Nova Friburgo. Ao deparar-se com o interior da mesma, apesar da gritante simplicidade do templo, Neméia pegou-se fascinada pelas esculturas e afrescos cristãos, alguns feitos por artistas das redondezas e outros vindos da Europa, que se encontravam junto ao altar principal. Tudo pareceu extremamente belo aos olhos da jovem filha de Alba, podia ela perceber uma aura posta sobre aquele lugar santo, como se uma energia dispersa no ar a aconchegasse, a abraçasse com carinho e dissesse com a voz suave que tudo ficaria bem.
Após recusar o convite do comendador para sentar-se à frente do altar, Neméia e Abel escolheram um lugar discreto para assistirem à cerimônia a fim de não serem importunados pela bajulação de terceiros. E, mesmo estando muito distante do altar, Neméia o viu. Era Dante, ele havia ficado mais belo com o passar dos anos, estava de pé, próximo ao altar e bebia com extremo deleite cada palavra proferida pelo padre. Mas, naquele instante, naquele lugar, Neméia preferiu esquecer aquela marcante lembrança de sua infância pois Dante representava uma ameaça para seu disfarce, então, procurou ater-se às palavras do sacerdote e fingir que seu passado não estava bem ali, diante de seus olhos.
Em seu sermão, o padre falou em almas queimando no fogo do inferno, em fornicação, luxúria. Ociosidade e nos caminhos que a Besta traça em vis armadilhas para a Humanidade. Falou nos Dez Mandamentos e o sexto deles, o Não Matarás, tocou Neméia de uma forma íntima e pessoal. Deus havia ordenado ao seu rebanho que ele não cometesse homicídio, mas ela matava, drenava o sangue, devorava vísceras e comia os órgãos dos filhos de Deus. Neméia sentiu-se a própria Besta, segurou firme a mão de Abel com o desesperado intuito de que Deus perdoasse os dois assassinos que haviam adentrado sem convite sua casa.
Com o término da missa, Neméia ergueu-se e caminhou rapidamente até a charrete. Percebendo que sua dona se encontrava sensivelmente transtornada, Abel tomou as rédeas em suas vigorosas mãos e os dois seguiram em silêncio na direção do Casarão. Chegando neste, Neméia ordenou que Abel permanecesse parado onde estava, no centro do salão principal, enquanto ela disparava na direção da biblioteca. Neméia passou muitas horas perdida dentre inúmeros livros, procurando algo que revelasse o passado criacionista de sua linhagem, precisava descobrir a qualquer preço se havia sido criada por Deus ou pelo Diabo. E, como o Barão Enéas Caronte era um apreciador do modo como seus semelhantes eram vistos pela óptica humana, Neméia não teve dificuldade em encontrar vários livros e artigos que tratavam de licantropia, obras literárias sobre os seres noturnos. Neméia leu os tópicos principais de cada obra, e, a cada nova página folheada, crescia dentro de si uma recusa maior por sua própria natureza, sentia revolver-se em seu âmago um misto de pavor e ódio por sua condição supostamente diabólica. Cansada de ler aquelas páginas reveladoras de como os hemanubis, hipoteticamente lendários, eram vistos pelo crivo humano, Neméia jogou-se de joelhos ao chão e ergueu os braços para o ar. Dentre lágrimas, implorou pelo perdão de um deus que não a tinha como uma filha, pois ela não era cria sua. Neméia ficou por algum tempo de braços suspensos e olhos cerrados, como se experimentasse uma espécie de êxtase religioso, aguardando qualquer manifestação divina, porém, ao perceber que nada iria acontecer, que suas súplicas não seriam ouvidas ou atendidas, lançou-se ao chão e derramou sobre o tapete a amargura de levar pelo resto de seus longos dias o peso de seus crimes e do desamor de Deus. Repentinamente, a jovem baronesa sentiu uma leve pressão sobre seu ombro, fazendo com que ela se erguesse assustada, irada contra aquilo que ela julgava ser a verdade, verdade esta encontrada nos romances fantásticos que preenchiam algumas prateleiras das estantes da biblioteca de seu pai. Neméia olhou ao redor, acariciando trêmula o lugar no qual havia sentido o toque e nada encontrou. Quem quer que a houvesse tocado, escondia-se atrás de uma inaceitável invisibilidade. O Casarão parecia esconder os segredos da morte.
Decidida, revoltada, sentindo-se traída, Neméia desceu até o salão, onde encontrou Abel no mesmo lugar no qual o havia deixado, por mais de doze horas, de pé, no centro do salão. A baronesa ordenou que seu servo sentasse em uma poltrona enquanto ela mesma continuava de pé, eufórica. Percebendo a inquietude de sua irmã, Ortros aproximou-se matreiro como uma hiena a fim de verificar o que se passava, adorava quando lufadas de raiva e ira movimentavam o ar úmido e pesado do Casarão.
_ Por que nos negaste a verdade, Abel? Nos escondeste isto por nossa vida inteira?! – bradou Neméia, sem ao menos esclarecer de que se tratavam suas queixas.
_ De que falas, senhora? – quis saber um imparcial Abel, como se a visível agonia de sua ama não lhe causasse sensação alguma.
_ De nosso pai! – gritou Neméia, quase sem conseguir dizer a palavra pai.
_ O que tem Enéas? – continuou sem entender o homem-gárgula a razão daquele disparate.
_ Não falo de meu pai terreno, falo do Grande Pai, aquele que realmente nos criou... o Diabo. – disse, enfim, Neméia, quase com medo.
_ De onde tiraste tal idéia? – perguntou Abel, intrigado com a ingenuidade de sua mestra.
_ Eu li tudo nos livros, Abel! Chega de tantas mentiras! – esbravejou a jovem, tendo nos olhos a ira de mel que revelava sua natureza hemanubis.
_ Nos livros da biblioteca?! – admirou-se Abel, tendo em seu tom de voz um ar de sarcasmo – Não seja tola, anjo meu! Aquilo não passa de literatura infantil, de fábulas que apenas servem para manter crianças humanas longe de confusões! Os adultos gostam de chafurdar na lama sozinhos, não gostam que suas crias façam o mesmo.
_ Deus não nos ama, Abel... Deus quer que sejamos mortos... Pois nós... Nós fomos criados pela Besta! – Desabou Neméia em um notório abatimento, recobrando mais uma vez o azul profundo de seus belos olhos.
_ Deus... Diabo... Esqueça tais entidades folclóricas, pertencentes às altas esferas do quimérico religioso, senhora. Esqueça estes títulos de detentores da ordem e do caos universal. Quem há de garantir que ambos realmente existem? Se um dos dois for real, nunca tive nenhuma prova de suas existências.
_ E quanto à nossa longevidade, Abel? Deus dotou os outros animais de uma vida limitada... Se apenas nós atravessamos os séculos, é porque foi outro quem nos criou.
_ Vós não sois imortais, querida! Como tudo na natureza, Ortros e tu um dia sucumbirão ao sensual convite da morte. Mas não podemos negar que vós sois bem mais resistentes que os humanos, estes pobres coitados que perecem mesmo diante da mais branda moléstia. Vós sois como os lobos, e a força do lobo somada à força do homem é um sinal de poder extremo, é o elixir da longa vida que alimenta todo hemanubis.
_ Elixir da longa vida?! Nós bebemos e comemos de humanos, Abel! Nos alimentamos de pessoas, de cristãos... Isto é demoníaco! É horrível!
_ Neméia, já viste nos relatos de inúmeros historiadores a descrição de ilhas e continentes exóticos onde vivem homens que devoram homens. Há indícios de canibalismo em todas as partes do mundo, querida, inclusive, no dito Mundo Civilizado. Ao menos um hemanubis não devora seu semelhante. Vós não sois canibais, Neméia, sois antropófagos. Esqueça as tolas semelhanças anatômicas! Tu não és humana, ao devorar um homem, não estás a devorar um dos teus! O fato de vós viveis da carne humana é perfeitamente natural, a natureza por completo se devora... Isto é vida!
_ Mas o que é vida para nós é a morte para eles! – repeliu a baronesa as argumentações de seu servo.
_ E o que é vida para eles é a morte das boiadas, dos cardumes! Homens não se alimentam apenas de orações e bênçãos divinas, meu bem!
Apesar da convincente impugnação de Abel contra o que ela dizia, Neméia teimava em negar-lhe o devido crédito, desassossegada, andando de um lado para o outro, esfregando as mãos, como se estivesse aos pés da cama de um ente amado a agonizar.
_ Abel, de onde nós viemos? – prosseguiu a jovem, apreensiva.
_ Do meio das pernas de vossa mãe? – ousou Abel, quase esquecendo sua condição de lacaio.
_ Basta! Chega de cinismo! Deve-me a verdade! Deve-me respeito! – exasperou-se a baronesa diante da postura de seu servo.
_ Eu não tenho tais respostas, Neméia! Do mesmo modo que surgiu o homem, surgiu o hemanubis, a própria natureza concebeu a ambos. Se agora tu decidiste dar crédito ao Deus dos homens, é prudente que acredites que Ele também vos criou.
_ Cera de altar! – bradou Neméia como se houvesse recordado de um detalhe importante – Uma lança ou bala de prata banhada por cera de vela de um altar onde se haja celebrado três missas da noite de Natal é capaz de matar um licantropo... um hemanubis. Se os sírios são bentos por inspiração divina e se morremos com a prata, envolvida em cera santificada, encravada em nossa carne, mesmo sendo dotados de uma assombrosa longevidade, é porque a obra de Deus nos abomina!
_ Caso queiras, ainda hoje roubarei a pia batismal para que tu te refresques com a água benta e também trarei alguns círios benzidos para iluminarem e aquecerem teu banho. Os ingredientes e talismãs dos diversos cultos católicos não possuem poder sobrenatural algum, talvez apenas o de pilhar o bronze dos tolos! É a prata que possui características capazes de envenenar vosso sangue. Não entendo bem porquê, mas acredito que se trate de uma reação alérgica de extrema gravidade. Caso a senhora acidentalmente tenha um de vossos delicados dedinhos ferido por uma lâmina de prata, teremos que amputá-lo de imediato, antes que a infecção se espalhe. Por isso vossos talheres são de ouro. Reconheço o mal gosto, mas trata-se de uma questão de segurança para meus senhores.
_ E alho? Alho nos faz mal?
_ Misturaste as fábulas, baronesa! – advertiu Abel, quase a sorrir do despautério de sua ama – Creio que o alho é um amuleto presente no mito do vampiro, do homem-morcego. A senhora não é um mito, é uma hemanubis.
_ Quando deixarei de ver minha imagem no espelho?
_ Outra vez a senhora encontra-se às voltas com contos vampirescos. Por que deixarias tu de ver teu reflexo no espelho, Neméia, não queres mais embelezar-te?! Ficaste deveras mui impressionada com o que leste!
_ Como Ortros e eu nos transformamos em feras sem que para isso realizemos o ritual necessário? Por que, ao menos para nós dois, não é necessário que nos espojemos em uma encruzilhada a fim de assumirmos nossa forma verdadeira? E porque não perdemos a razão? Por que não nos transformamos em lobos de fato, como acontece com os outros humanos que com o Diabo também fizeram o pacto?
_ Neméia, não há pacto algum! Q quanto à razão... Ai de ti sem razão! Já basta que há tempos a razão já tenha abandonado os homens. – bradou Abel, com tremenda ironia – E por que gostarias tu de transmutar-te em uma loba?! És tão bela, baronesa! Não consigo concebê-la sobre quatro patas, a uivar para a lua cheia!
Sem mais encontrar meios de conter seu frenesi, Ortros irrompeu em gargalhadas, sem conseguir acreditar nas tolices que sua irmã gêmea estava a proferir.
_ Estás a rir, meu irmão?! – enervou-se Neméia com a indelicadeza do barão – Olhe só para Abel! O que tu és, afinal, criatura?! – perguntou a baronesa, voltando-se para o homem-gárgula – como uma estátua de pedra se transforma em homem... em monstro... senão através de dotes satânicos?
_ Devo isto a um distante antepassado teu, senhora. Enquanto os alquimistas desta Humanidade parva perderam suas vidas e toda a sua ciência tentando transformar chumbo em ouro, vosso ascendente descobriu uma maneira de transmutar pedra em carne, ignorância em sabedoria. Digamos que eu seja a própria pedra filosofal, Neméia... Belo e eterno.
_ Logo descobrirão que somos lobisomens... vingar-se-ão de nosso voraz apetite sem piedade alguma!
_ Tu és uma hemanubis, Neméia! Uma hemanubis! Não um licantropo! Não um lobisomem! Queres saber o que é um lobisomem? Contar-te-ei! – disse Abel levantando-se, como se a palavra lobisomem fosse uma ofensa à memória daqueles que o haviam criado – Diferentes de vós, os humanos tendem a apresentar problemas quando são gerados em um casamento consangüíneo, ou seja, entre parentes próximos. Um destes problemas, por ignorância dos homens, acabou sendo tratado como a maldição do homem lobo, o que na verdade nada mais é que uma doença. Os pobres diabos portadores deste mal, quando sob o efeito da luz, sofrem uma destruição de seus tecidos mais expostos, como as pontas dos dedos e o nariz, ferindo estas áreas de forma violenta e dando o aspecto de queimação. No imaginário das pessoas, os dedos feridos assemelham-se a garras, e a face, que se torna peluda, a fim de proteger-se dos efeitos da luz, é reconhecida pelos tolos como a cara de um lobo. Como os que sofrem de tal moléstia mostram uma boca permanentemente aberta devido às lesões repetitivas dos lábios, andam por aí com os dentes descobertos, o que sugere a idéia de presas. Suas narinas, pelos mesmos motivos das lesões, se apresentam voltadas mais para cima, de orifícios tétricos e escuros, conferindo aspecto de focinho. Provavelmente, a fim de suprirem a deficiência de ferro em seu sangue, alguns destes doentes devem ter sido flagrados comendo carne crua ou bebendo sangue de animais, o que não deve ter sido bem recebido por uma humanidade que vê o Diabo até mesmo nas mulheres que se envolvem com política. Voilá! Temos um autêntico homem-lobo para assombrar as mentes, despidas de intelecto e repletas de tolas crendices, da maioria dos homens. O que leste nos livros nada fala sobre os hemanubis, trata-se apenas de superstição, maldade e desinformação acerca de uma doença que transforma seus possuidores em párias amaldiçoados pela estupidez de seus iguais.
_ Por que continuas a mentir, Abel? – desistiu, enfim, Neméia de arrancar a verdade que queria ouvir a qualquer custo daquela parede de pedra – Pensei que fôssemos amigos... Deus vingar-se-á de todos nós! Ouviram?! De todos nós! – gritou a baronesa, subindo às pressas a escadaria a fim de encerrar-se em seu quarto.
Neméia passou dias e dias sem conseguir livrar-se da onipresença divina, que ela sentia como um olhar inquisidor a cobrir-lhe de vergonha. A idéia de danação não abandonava seus pensamentos, a açoitava sem trégua. Se Dante acreditava em Deus, era porque este realmente existia e não iria perdoá-la pelos assassínios. A condenação às penas do inferno a perseguiria, as trevas... e isto a assustava. Até mais que o medo que ela já sentia de sua própria natureza.

Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008


_ Queridos, agora estamos prontos para nosso retorno à Nova Friburgo. – disse Abel aos seus dois mestres, uma noite após Ortros ter saltado do Lupercal para a longevidade.
_ Não entendo... Não quero voltar àquela vila! Gosto de viver em Petrópolis e anseio por umafutura e longa visita à Corte. – protestou Ortros, rejeitando a idéia de Abel.
_ Ainda somos jovens, meu irmão. Apesar de termos nos tornado quase tão poderosos quanto a própria morte, é prudente que nos mantenhamos distantes dos grandes centros. – argumentou Neméia, incerta da sinceridade de suas razões.
_ Nova Friburgo matou nossos pais! – gritou Ortros, voltando-se para a irmã.
_ Então voltemos por vingança! Que Nova Friburgo pereça, pague pelo sangue hemanubis derramado. – se impôs Neméia, convicta de que seu irmão não rejeitaria tão tentador pretexto.
Ortros caminhou um pouco pela sala, pensativo, tendo o dedo indicador sobre os lábios e o olhar preso às suas lustradas botas de montaria. Após muito titubear, confabulando com seus sombrios pensamentos, dirigiu-se repentinamente decidido à Abel e ordenou-lhe:
_ Providencie tudo, Abel. Após tantos anos, o Casarão Hefestos deve estar um pardieiro.
_ Receio que não, senhor... Há meses venho providenciando vosso regresso. O Casarão provavelmente deve encontrar-se como no dia em que fora erguido. Também atrevi-me a substituir a mobília antiga por algo mais sofisticado e fiel ao estilo de vida da nobreza européia. Tudo já foi arranjado. Falta àquela maravilhosa casa apenas quem preencha-lhe os corredores de vida. – disse Abel, surpreendendo seus amos, tamanha sua destreza.
_ Poderemos interagir com as pessoas da vila?! – exaltou-se Neméia, eufórica.
_ Claro, agora o manto da longevidade os protege de fatalidades banais que eventualmente poderiam arrancar-lhes a alma dos ossos. – confirmou o servo o desejo de sua dona.
_ Nos apressemos, Ortros! Devemos nos aprontar o quanto antes! – animou-se Neméia, pegando o irmão pelo braço e arrastando-lhe na direção da escadaria que levava aos aposentos.
_ Isto também não será necessário, senhora. Vossos pertences já se encontram embalados e devidamente acomodados nos coche e nas mulas.
Satisfeita com a espantosa habilidade de seu servo, Neméia largou do braço do irmão e correu até Abel, beijando com ternura o rosto do homem-gárgula.
_ Em Nova Friburgo, quero que te passes por meu noivo! – sentenciou Neméia, tendo um primoroso sorriso ornamentando-lhe os lábios.
_ Urra, que primorosa idéia! Pareceremos bem importantes! – bradou Ortros, apoiando a artimanha da irmã.
_ Creio que, se vossos avós e vosso pai mantiveram-me na clausura e distante dos olhares humanos por tanto tempo, é porque meu comportamento talvez não seja tão convincente quanto minha aparência. Como de costume, deveria eu esconder-me no coche, junto aos baús. – advertiu Abel, como se tentasse compensar a inexperiência de seus donos acerca dos ardis humanos.
_ Abel, discutirás agora nossas ordens? Neméia e eu não estamos a pedir-te coisa alguma, trata-se de uma determinação. Um casal de irmãos, e tu como cunhado de um e noivo da outra... Iremos parecer uma família! – vislumbrou Ortros a imagem que provavelmente passariam às pessoas.
_ E então, meu estimado amigo? Concordas com nossa pequena traquinice? – quis saber Neméia, tendo os olhos dóceis e suplicantes voltados para o semblante de pedra do homem-gárgula.
_ Eu obedeço. – respondeu Abel secamente, logo em seguida ausentando-se da sala para dar continuidade aos preparativos do retorno dos herdeiros Caronte à Nova Friburgo.
A viagem que levaria a fome hemanubis de volta à Nova Friburgo se deu de modo que Ortros, Neméia e Abel chegassem à vila já quando a noite se fizesse presente, a fim de que Cronos não chegasse a seu destino escondido e protegido dos raios solares sob a câmara que ficava abaixo do banco do coche, cuidadosamente velada para que o efeito da luz do dia não pudessem feri-lo. Chegariam à vila em uma noite de domingo, Nova Friburgo estaria repleta de pessoas nas ruas, todos iriam assistir à caravana passando, seria perfeito.
Durante o deslocamento de volta ao seu lugar de origem, aproveitando o tempo em que Ortros encontrava-se lacrado no compartimento que garantia-lhe proteção, Neméia ousava sorrir e pensar que surpresas aquela nova etapa de sua vida lhe ofereceria. Conviver em sociedade, conhecer a história pessoal de cada homem, de cada mulher, era um sonho de infância, que estava prestes a realizar-se. Talvez reencontrasse alguém especial, o único humano com o qual até aquele instante tivera contato, o pregador das matas, Dante.
_ Olhem! É a comitiva do Barão Garnier! – gritou o moleiro assim que viu o garboso cortejo a aproximar-se da praça de Nova Friburgo.
_ De que fala este pobre diabo, Abel? – perguntou Ortros, franzindo o cenho.
_ Sois vós. Barão e Baronesa Garnier. Não pensavas tu que retornarias a esta vila trazendo em teu peito o brasão Caronte, pensavas? – brincou Abel, satisfazendo a dúvida de seu amo.
_ Calculaste realmente tudo! És deveras um monstro, Abel! – alegrou-se Ortros com a nova mentira que a ferro e fogo deveria ser sustentada.
Ao passarem pelo coração da vila, sob o curioso olhar do populacho, Abel tentou contratar um guia a fim de que este os levasse até o Casarão, tornando a farsa ainda mais convincente. Porém, nenhum homem sequer prontificou-se a fazê-lo, pois ainda temiam as histórias que eram passadas de boca em boca, ano após ano, ganhando ares de lenda local. Por sorte, o líder da caravana disse conhecer bem o caminho e – após beijar com devoção o crucifixo de madeira que trazia junto ao peito – o homem seguiu até o Casarão, através da mesma estrada que parecia não ter sofrido a ação do tempo. Chegando à sua morada e tendo toda a bagagem devidamente descarregada pelos negros que haviam contratado como serviçais, Abel pagou uma generosa quantia ao líder da comitiva e em seguida convidou seus mestres para que os mesmos o acompanhassem até o salão principal de sua nova casa. Após o cessar de todo o movimento, os três impostores comemoraram a inocência dos moradores da vila, certos de que seu meticuloso plano havia logrado êxito. Era uma noite de domingo, a vila se encontrava em festa e nenhum dos três iria perdê-la. Após suprirem o apetite estimulado pelo cansaço da viagem, bebendo o sangue e devorando as vísceras de dois empregados e deixando outros três presos a ferro – fazendo com que os mesmos novamente experimentassem o costumeiro crime anterior à Lei Áurea – Neméia e Ortros subiram até seus aposentos a fim de fazerem um rápido asseio e vestirem uma discreta, porém vistosa, roupa de festa.
Abel, sem sombra de dúvida, era extremamente meticuloso e prestativo. Além dos títulos de barão e baronesa que havia conseguido junto à Corte, também passara todos os dotes de Enéas Caronte para o nome de Ortros e Neméia, sem reconhecê-los como filhos de Enéas. Para conseguir tal façanha, Abel precisou subornar alguns homens importantes, matar tantos outros e deixar uns quantos bem assustados. Os belos e jovens irmãos Garnier agora eram os novos suseranos de Nova Friburgo, já que, supostamente, todos os bens que antes pertenceram à família Caronte acabaram por ser transferidos para os Garnier a fim de saudar um exorbitante e antigo débito entre as famílias.
Naquela mesma noite na qual consumou-se a falsa mudança, Neméia, Ortros e Abel tomaram a charrete e desceram até a cidade. Havia sangue e carne para todos os gostos, e Neméia não se alimentava mais de bezerros. De início, o processo de adaptação dos filhos de Enéas e Alba àquela nova realidade pareceu quase impossível, devido a quantidade gigantesca de pessoas. Não estavam habituados a tanto barulho, a tanto movimento, mas a astúcia de ambos acabou por orientá-los, lembraram-se então das aulas de etiqueta e das lições de conhecimentos gerais, pondo as mesmas imediatamente em prática. As pessoas os olhavam com curiosidade, tardavam em crer que aqueles três jovens realmente haviam ousado tomar como morada a casa da besta. Todavia, em pouco tempo, a terrível lenda de Nova Friburgo acabou sendo ofuscada pelo brilho das jóias, pela primorosa indumentária, pelo indubitável ar blasé daqueles três. Todos passaram a desejar ter com eles, loucos para absorver-lhes a delicadeza de suas expressões e a distinção de suas formas. Dada certa hora, o falastrão de Nova Friburgo – um rico comerciante de gêneros alimentícios - chegou a discursar sobre a honra de receber em sua vila seus novos benfeitores, aqueles que trariam a riqueza do mundo moderno para cada casa, para cada cidadão. Após as belas e pré-fabricadas palavras do homem, os elegantes forasteiros agradeceram às boas-vindas sob uma salva de palmas, enquanto em seus pensamentos íntimos debochavam da ingênua hipocrisia daqueles pobres coitados, capazes de matar ou morrer apenas para ter por alguns segundos uma peça de ouro dentre as mãos. A noite transcorreu como a promessa de uma longa e nutritiva estadia, havia tantas pessoas que era praticamente impossível descobrir quais artérias dilacerar primeiro, quem dentre aqueles infelizes possuiria as entranhas mais doces, os intestinos mais apetitosos. No entanto, para Abel, a sensação de novidade que consumia seus donos não o afetava de modo algum, para ele, apenas o número de pessoas e a potência do alarde havia aumentado, nada mais. Mesmo estando de braços dados com Neméia, Abel sofria indiscriminadamente o assédio de todo o tipo de senhora, desde as prostitutas que deitavam com estivadores às damas daquela sociedade que sonhava em tornar-se uma grande centro. Ele serviu de cocheiro à noiva e ao cunhado. Que galante... Deve ser costume europeu!, murmuravam as mulheres ao deitarem os olhos sobre aquele homem que, não sabiam elas, era incapaz de devotar-lhes qualquer sentimento, fosse este de devoção ou de desprezo.
Todavia, o jovem noivo da Baronesa Garnier não era o verdadeiro centro erógeno das palpitações femininas, todas desejavam com maior ardor o donairoso Barão Ortros Garnier e seus sedutores olhos, talvez desejassem mais ainda sua boca mortal, de apetite longevo e insaciável.
_ Abel, que construção é aquela? – quis saber Neméia, referindo-se a um prédio em particular.
_ Já viste gravuras semelhantes, senhora. Trata-se de uma igreja católica. – explicou Abel, sem dar maior importância à curiosidade de sua ama.
_ Chame-me Neméia, somos noivos, esqueceste?! – brincou a baronesa, apertando o braço de seu servo – E o que há lá?
_ É uma espécie de templo onde as pessoas veneram Deus. – respondeu Abel, mecanicamente.
_ Deus?! – exaltou-se Neméia, inevitavelmente lembrando-se de Dante – Leve-me até lá!
_ E para quê? Faz-se tarde! A missa há tempos acabou e suas portas já se encontram lacradas. – conteve Abel o frenesi de Neméia – Amanhã, se assim quiseres, posso acompanhar-te para assistirmos a celebração da eucaristia.
_ Amanhã, Abel. Amanhã. – sentenciou Neméia, ansiosa diante da possibilidade de reencontrar a única lembrança realmente feliz de quando ainda era apenas uma menina.

Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007


Devido a pueril imprudência de Neméia e à indiscrição de um velho mercador, naquele inverno de 1882, Abel e seus dois pequenos protegidos migraram para uma residência na cidade de Petrópolis. Aquele mês de julho ao qual chegaram à cidade estava especialmente frio e silencioso, o lugar parecia apenas criar vida durante os verões úmidos, quando toda a corte mudava para a Serra da Estrela, em busca do clima ameno e do conforto proporcionado pelo Palácio de Verão Imperial. Da janela da casa, Neméia passava tardes inteiras admirando o vai-e-vem dos escassos transeuntes pela avenida Koeler, ladeada por casarões e palacetes, tendo a fachada da Catedral de São Pedro de Alcântara numa de suas extremidades. Mas nada lhes diziam aquelas pessoas, nada significavam para ela. Seus pensamentos permaneceram, apesar da distância, todos voltados para seu humano predileto, para seu orador das matas, Dante. Ele parecia em nada diferir das crianças que tanto ela quanto Ortros haviam matado em Nova Friburgo, porém, Dante possuía algo especial, possuía um Deus que Neméia gostaria de conhecer, pois seu inocente amigo havia lhe falado que Deus também era seu Pai. Talvez a jovem filha de Alba houvesse se afeiçoado a Dante por ele ter sobrevivido, por não ter se deixado roubar durante a noite por Ortros, por ele ainda viver, apesar do assassino com os olhos-cor-de mel ter passeado por inúmeras noites pelas ruas de sua vila. A palavra vida a fascinava, Neméia admirava as crianças que insistiam em viver intensamente, mesmo sabendo que possuíam uma existência limitada.
_ Abel, quem é Deus? – quis saber Neméia subitamente, durante uma das aulas ministradas por seu servo.
Intrigado com a pergunta, Abel fitou seus dois pupilos, tendo estampado em seus lábios minerais um sorriso maroto, e falou:
_ De acordo com a crendice popular, é um senhor de barba branca, bata azul, sandálias de couro e auréola dourada que foi inventado por algum Papa a fim de que a Igreja tivesse garantidos seus dobrões.
_ Deus é meus pai? – quis saber Neméia, folheando um livro, fingindo desinteresse.
_ O quê? De onde tiraste tão despropositada idéia, senhora? – intrigou-se o homem-gárgula com a pergunta da menina.
Neméia então dirigiu os olhos disfarçadamente na direção de seu irmão, como se a presença do mesmo impedisse que ela desse seqüência àquela incômoda conversa. Percebendo o desconcerto de sua mestra, Abel voltou-se para Ortros e, para felicidade do garoto, informou que ambos já haviam estudado o suficiente por aquele dia.
_ Levar-me-á para a caçada de hoje? – quis saber o pequeno hemanubis antes de ausentar-se da sala de estudos.
_ Seja feita a vossa vontade, nobre senhor! – respondeu Abel, recebendo do garoto um abraço antes que o mesmo saísse correndo na direção de seu quarto.
Percebendo que enfim poderia consultar Abel sem que seu irmão a importunasse, Neméia aproximou-se ainda mais de seu servo, olhou ao redor como se temesse que Ortros estivesse a espreitá-los e então disse:
_ O garoto que conheci na mata de Nova Friburgo... Disse-me ele que Deus é meu pai.
_ Garotos às vezes falam muitas bobagens, querida... – explicou Abel, trazendo a pequena baronesa para junto de seu colo.
_ Gostei dele, Abel... – revelou Neméia com um suspiro, deitando sua pequena cabecinha junto ao peito de seu lacaio.
Tendo o queixo posto sobre os dourados cabelos de Neméia, Abel fixou seu olhar na direção da escadaria, como se temesse que Ortros os escutasse, como se realmente temesse pelo bem-estar do jovem amigo de sua mestra.
_ É prudente que mantenhas teus sentimentos em segredo, senhora. Um dia retornaremos à Nova Friburgo, é um lugar pequeno, longe das vistas dos grandes centros, o que o torna seguro... É bem possível que teu irmão também venha a afeiçoar-se por este garoto, bem sabes que teu irmão não suporta dividir coisa alguma, ele tem muito apetite.
_ Dirás algo a Ortros? – perguntou Neméia, temerosa, fitando os olhos vítreos de Abel.
_ Se é de vossa vontade que nada eu fale... Nada falarei. – respondeu o homem-gárgula com uma servil gentileza.
_ Obrigada, Abel. – disse a garota enlaçando seus delicados braços no corpulento pescoço de seu escravo pessoal e confessor – Mas... Por que não posso voltar a vê-lo? Por que não posso ver ninguém? Através destas mesmas janelas, vejo as pessoas passeando unidas, a conversarem, a sorrirem... Desejo ser como uma delas! – revelou a pobre órfã seus anseios, tristemente sussurrados para dentro dos gélidos ouvidos de Abel.
_ As pessoas de Nova Friburgo fizeram mal aos teus pais... É provável que aqui mesmo em Petrópolis ou em qualquer lugar do mundo os humanos tentem fazer o mesmo contra teu irmão, contra ti! – tentou justificar Abel a triste clausura na qual se encontravam seus pupilos.
_ Entendo o medo e a raiva dos homens contra os de minha espécie... Nós os machucamos, Abel, merecemos seu ódio. Mas, mesmo assim... quero conhecer o mundo! Estas paredes não me bastam!
_ Acalma-te, senhora. Em breve poderás usufruir dos prazeres do mundo dos homens. – revelou Abel, sem definir quando chegaria tal instante.
_ Quando será isto?! – perguntou Neméia, tendo em seus olhos o deslumbrante tilintar da esperança.
_ Ao chegar este dia... Saberás.
Dez anos se passaram sem que Neméia voltasse a ver um outro ser humano. Para os moradores de Petrópolis, Abel nada mais era que um serviçal de uma nobre família européia a cuidar da propriedade de seus patrões, tendo reclusos e aos seus cuidados um casal de irmãos que padeciam de uma grave doença mental e que, por tal razão, jamais puderam ser vistos por nenhum morador da cidade de Pedro II. Uma estonteante e fenomenal beleza havia tomado conta do corpo de Neméia, seus olhos vazios e fascinantes tornaram-se ainda mais encantadores, a exuberância de uma bela mulher estendia-se sobre seu ser como relva em segura planície. Ortros sentia em sua carne a virilidade dos 18 anos de vida, com o passar dos anos, havia aprendido a disfarçar sua crueldade sob uma máscara de garbosa malícia e assim conquistado a confiança de sua irmã. Abel permanecia o mesmo, extremamente belo, com seus longos cabelos deitados sobre ombros vigorosos, seus olhos castanhos e petrificados, sua pele alva que não sofria a ação do tempo.
Em uma noite na qual Petrópolis afogou-se em uma densa nuvem de neblina, Neméia acordou sentindo a garganta seca, ardente. Assustada, levantou a mão trêmula na direção do criado-mudo e tentou segurar a jarra com água, infelizmente, fazendo com que esta tombasse contra o chão e desperdiçasse o precioso líquido. Atormentada por aquele mal súbito, Neméia ergueu-se sôfrega da cama e cambaleou até a escadaria, agarrando-se ao corrimão e experimentando de uma perturbadora vertigem, tentando manter de pé o corpo que insistia em querer tombar. No instante em que Ortros abriu a porta, retornando de mais uma caçada, Neméia chamou pelo nome do irmão e em seguida desfaleceu, rolando escadaria abaixo. Assustado, Ortros correu até ela e deitou a cabeça da irmã em seu colo e, ao olhar para a mesma, percebeu nela uma beleza diferente e a desejou, porém, de imediato, procurou livrar-se daquele estranho pensamento e gritou por Abel. Ao ouvir o clamor de seu dono, Abel ausentou-se às pressas da biblioteca e correu a fim de auxiliá-lo, mas acabou por ser repentinamente atacado por um furioso Ortros transformado em fera, de garras afiadas e bocarra ameaçadora.
_ Disseste-nos que os males do homem jamais nos molestariam! Por que ela convulsiona?! Por que mentiste?!
Valendo-se de sua descomunal força, Abel livrou-se do feroz ataque e pediu que Ortros mantivesse a calma, para logo em seguida aproximar-se de Neméia e analisar suas pupilas dilatadas.
_ Pegue-a nos braços e siga-me, Ortros! – disse Abel, se deslocando para os fundos da casa.
_ O que há?! – gritou o homem-fera, já tendo sua porção humana restabelecida, mantendo viva em seu semblante a fúria dourada de seus débeis olhos.
_ Está acontecendo, meu senhor!
_ O quê?! – quis saber Ortros, já tendo o corpo convulsivo de sua irmã em seus braços.
_ A longevidade! Temos que levá-la ao Lupercal.
Abel guiou Ortros até uma porta secreta escondida por detrás de um bem trabalhado oratório cristão de madeira-de-lei e o conduziu através de uma íngreme escadaria até uma espécie de sarcófago feito em mármore, tendo sobre si uma pesada tampa de chumbo, agarrada à grande arca por presilhas daquele mesmo metal, o Lupercal. Demonstrando que sabia exatamente o que estava fazendo, Abel ergueu sem maiores dificuldades a pesada tampa e orientou Ortros a deitar o corpo desfalecido de Neméia dentro do mesmo. O robusto filho de Enéas atendeu prontamente às orientações de seu servo e descansou com cuidado o corpo de sua irmã dentro da bem trabalha câmara, entalhada com figuras de lobos por toda a sua estrutura. Abel então baixou a tampa lentamente e voltou-se para Ortros, tendo em seus lábios um sorriso que deflagrava que tudo havia corrido bem.
_ Voltemos à casa. Explicarei-te o que está a acontecer.
Trêmulo, Ortros acendeu seu cachimbo de ópio e experimentou de algumas baforadas a fim de acalmar-se, enquanto Abel preparava-se para explicar o que estava ocorrendo à Neméia.
_ Ortros, - iniciou Abel, tendo sobre si os curiosos olhos de seu mestre – quando chega a uma certa idade, todo hemanubis entra em um estado de catalepsia, onde, apenas transcorridos sete dias, volta a si. Mas o retorno de um hemanubis de sua Primeira Morte é brindado por uma transformação magnífica, por um novo estágio em sua existência. A frieza, a sedução, o instinto, se aprimoram com a morte da carne, e, concluído o processo, jamais voltará a envelhecer, pelo resto de seus dias. Após uma semana, quando a retirarmos do Lupercal, Neméia terá o viço e a beleza de uma jovem de dezoito anos por séculos e séculos, até chegar o dia em que nada mais sacie a fome e ela então padeça.
_ Mas isto é uma afronta! – gritou Ortros, revirando com o pé uma rica mesa de centro – Por que isto ainda não ocorreu comigo?! Sou homem! Sou filho de Enéas Caronte! Por que a longevidade ainda não abraçou-me?! Por que não sou imune à luz do sol? Neméia é uma fraca! Não entendo porque tudo acontece primeiramente com ela!
_ É porque ela é uma fêmea, Ortros. As mulheres sempre conquistam tudo antes dos homens, é como uma regra de etiqueta das leis universais. Até mesmo a maturidade... Desculpe-me! Até mesmo a longevidade uma fêmea hemanubis conquista antes dos varões. – explicou Abel, sem perder a oportunidade de valer-se de seu desmedido sarcasmo.
Após sete dias, Ortros e seu servo desceram até a sala secreta sob a casa a fim de despertarem Neméia. Antes que Abel erguesse a tampa da cripta, Ortros segurou uma das mãos do homem-gárgula e perguntou como sua irmã estaria. Abel então sorriu maliciosamente e revelou que acreditava que Naméia não iria mais satisfazer-se apenas com a carne de cabritos e veados. Ao ouvir tal declaração, Ortros ajudou Abel a erguer a tampa do esquife e, ao ver sua irmã, constatou que tratava-se da mesma Neméia, todavia, encontrava-se misteriosamente diferente, uma outra mulher. Não havia como se explicar, de imediato percebia-se que ela havia passado por uma transformação, porém, esta metamorfose havia se passado em seu interior, em seu coração, em seus desejos mais inconfessáveis e reprimidos.
A fim de despertar sua senhora, Abel passou delicadamente a mão sobre a testa de Neméia e soprou seus cabelos. Lentamente, a jovem abriu seus olhos, revelando aquela luminosidade dourada e intensa, para logo em seguida recobrarem o celestial azul. Com o zelo de um verdadeiro servo, Abel tomou o corpo de Neméia em seus braços e o retirou do Lupercal, enquanto Ortros assistia a tudo remoendo-se de inveja, odiava a irmã por esta ter experimentado a longevidade antes dele... E amava a mesma por ela ter dentro de si algo que ele queria desesperadamente, algo insólito.
_ Como te sentes, querida? – perguntou Abel após deitar Neméia em sua cama.
_ Tenho fome... – respondeu a jovem, ainda debilitada pela terrível experiência.
_ Queres que te traga um leitão, ou quem sabe um carneiro? – perguntou Abel, certo da recusa de Neméia.
_ Não... apenas hoje, traga-me uma pessoa, Abel... Será apenas hoje... – respondeu a filha de Alba, entorpecida pelo voraz apetite.
_ A senhora começa a raciocinar como vossa natureza ordena. A longevidade aprimora dons e instintos. Agora, és uma hemanubis completa. – disse Abel voltando-se para Ortros a fim de ganhar do mesmo a gota de sangue que despertaria Licaon.
_ Quanto a mim, Abel? Quando serei um hemanubis completo? – impacientou-se o rapaz, abrindo um golpe em seu polegar com a ponta de sua unha.
_ Em teu caso, jovem senhor, apenas quando teu corpo desistir de abrigar uma alma tão perversa. – respondeu Abel, olhando para o sangue de Ortros a gotejar sobre a fina tapeçaria.
_ Não me tente com elogios, Abel! Quanto isto se dará? Ainda quero ser jovem quando acontecer! – exasperou-se o impaciente filho de Enéas.
_ Acalma-te senhor. Aconteceu a todos... Também acontecerá ao senhor. – encerrou o assunto Abel, tomando da mão de Ortros e sugando da mesma a gota de sangue que lhe pendia.
Após dois anos, as palavras de Abel tornaram-se reais. Ortros experimentou de sua Primeira Morte e, após sete dias de necrose de sua carne e alma, o jovem retornou dos mortos dando um salto para a longevidade. Já não era tão imaturo e sua crueldade passara a ter os requintes que apenas o coração de um lobo pode proporcionar. Seus olhos passaram a ser bem mais traiçoeiros.

Quinta-feira, 29 de Novembro de 2007


Com o cair da noite, Abel pôs-se a procurar por Ortros a fim de que este lhe fornecesse uma gota de seu sangue para que Licaon pudesse se manifestar e sair à caça. Não encontrando seu jovem mestre nos lugares costumeiros, Abel dirigiu-se até a torre central, onde, olhando através da janela quebrada, descobriu o local onde seu dono havia se escondido. Sem que Ortros percebesse, Abel esticou metade de seu corpo para fora e observou por alguns instantes o pequeno barão sentado sobre o pedestal onde a gárgula se petrificava, em seguida, falou:
_ Venha até aqui, Ortros. Preciso de teu sangue para poder saciar tua fome.
_ Pegue o de Neméia! – respondeu o garoto, fazendo birra e cruzando os braços.
_Sabes que ela recusa-se, senhor, tem piedade das crianças... – justificou-se Abel.
_ Eu deveria ter aberto aquele cortinado e enfrentado o sol! – falou com ar austero o jovem filho de Enéas.
_ Caso assim o tivesse feito, estarias agora completamente às cegas. Entenda de uma vez por todas uma coisa, Ortros, nós, os servos, estamos há séculos dentre os teus, conhecemos tudo sobre vossa espécie. Caso queiras perpetuar tua existência, é bom que aprendas a escutar aquilo que digo. – advertiu Abel, sem perder sua postura servil.
Ao ouvir aquilo, como se teimasse em desafiar as orientações de Abel, Ortros pôs-se de pé sobre o pedestal e ergueu os braços perpendicularmente a seu corpo.
_ Hoje eu quero voar, Abel. – disse o garoto, tendo um débil sorriso em seu rosto e os olhos mergulhados no breu da noite.
_ Lobos não voam, querido. – advertiu Abel como se a ousadia de Ortros o divertisse.
_ Ícaro voou até o Sol... – valeu-se Ortros das aulas de seu lacaio sobre mitologia.
_ Correção, querido, ele morreu tentando. – advertiu Abel sem dar muita importância ao que o garoto ameaçava fazer.
_ Pularei daqui! – sentenciou o menino sorrindo, voltando-se para Abel.
_ Se eu fosse o senhor, não faria isto. – admoestou o servo, apesar de seduzi-lo a idéia de observar até onde seu dono iria com aquele despautério.
_ Por quê? Viverei por quase quinhentos anos! Como tu mesmo disseste, apenas morrerei antes de haver realmente chegado a minha hora caso eu seja ferido de um modo raro e especial. Creio que uma queda não se enquadre no leque de mortes surpreendentes. – disse Ortros, blefando com a própria vida.
_ Ainda não dominas o dom da longevidade, senhor. A tua carne ainda é fraca, por isto continuas a amadurecer. Estás tão sujeito à morte quanto qualquer ser humano. – falou a voz da experiência.
_ Falaste que eu poderia tudo, Abel! Eu quero poder tudo! – exigiu o mimado garoto.
Sendo profundo conhecedor das manhas de seu mestre e já percebendo que aquela conversa não chegaria a lugar algum caso não fosse oferecido ao jovem barão algo capaz de fornecer-lhe prazer, Abel sorriu e deslizou um pouco mais o corpo para fora da janela, aproximando o seu do rosto de Ortros.
_ Queres ir até a vila na companhia de Licaon? Acho que já estás em idade de dar teu primeiro passeio! – negociou Abel com o pequeno hemanubis.
Ao ouvir o tentador convite, Ortros esticou os braços parara que Abel o tirasse dali. Dada a surpreendente metamorfose, Ortros montou sobre o dorso de Licaon, agarrando com firmeza os pelos da nuca da fera, que mais pareciam uma crina, e saíram os dois monstros noite a fora, escapando pela janela e escalando as paredes do casarão até chegarem ao solo e ganharem a mata, em busca de uma criança perdida, uma jovem alma que serviria de alimento para o jovem hemanubis. Ortros sentia o vento em seus cabelos e experimentava curioso uma diversidade gigantesca de novos aromas ao seu redor, um novo mundo parecia estar se abrindo para ele naquele instante, como a promessa da vinda de mais sofrimento.
Chegando à periferia da Vila de Nova Friburgo, Ortros ordenou que Licaon permanecesse escondido atrás da velha escola pois gostaria ele de caçar sozinho. Como um animal doméstico, Licaon praticamente encostou o peito ao chão a fim de facilitar a descida de seu dono, que abandonou a montaria e imediatamente pôs-se a farejar tudo ao redor e a perambular pelas ruas sujas da vila, tentando captar dentre a imundície e o bolor dos miseráveis o aroma de sangue novo, para seu deleite e sobrevivência. E, no meio de toda aquela podridão fétida, Ortros sentiu um fio de inocência emanando através das frestas da janela de uma pobre casa, como o perfume das rosas que atraem sem querer o ferrão das vespas. O pequeno anjo aproximou-se e bateu contra a madeira sutilmente, a fim de não despertar indesejáveis convidados que viessem a perturbar seu primeiro jantar fora de casa. Seu alimento estava bem ali, ao alcance de suas narinas e de sua boca inundada de saliva e fome, mas todos pareciam dormir pesadamente, inclusive aquele que atraíra o olfato do filho de Enéas. Antes que a impaciência o fizesse invadir o casebre, Ortros surpreendeu-se ao ver um garotinho, ainda esfregando os olhos, abrir a janela. Personificava aquela criança tudo que o pequeno anjo mais ambicionava ingerir, levar para dentro de suas entranhas, absorvendo aquilo que ele jamais teria de verdade: pureza. O anjo fitou o garoto como se estivesse diante de um troféu, seus olhos reclamavam a desejada carne, sua boca amarga dizia sim.
_ Quem és tu? – quis saber a pueril vítima.
_ Chamo-me Ortros. Vivo no Casarão Caronte, no alto da colina. – revelou o pequeno barão, sem se importar com as advertências de Abel acerca da importância daquele segredo. Afinal, o pobre menino não passaria daquela madrugada.
_ Tu mentes! Não mora ninguém lá! Aquele lugar está repleto de fantasmas e outras criaturas do mal. Muitos homens já viram ali coisas de assustar defuntos. – disse o pequeno, fazendo o sinal da cruz.
_ Acreditas mesmo que estou a inventar balelas? Olhe para mim... Pareço um menino plebeu? – falou o jovem barão, girando sobre os próprios pés.
O garoto analisou cuidadosamente os trajes de Ortros e, vendo que aquele estranho visitante noturno realmente não se vestia como um garoto comum, perguntou:
_ Moras mesmo no Casarão da Fera do Morro Queimado?
_ Sim. – confirmou Ortros, fazendo uma saudação fidalga.
_ E o que há no Casarão da Besta? – perguntou o pobre menino, sem saber que a morte certa o espreitava.
_ Muitas brincadeiras! São tolas as histórias que inventam sobre minha casa! Elas servem para manter os adultos afastados, apenas crianças podem viver lá! Venha! Irás gostar! – disse Ortros, cativando com destreza sua pobre vítima.
O mesmo maldito desejo de desbravar o desconhecido que me aprisiona dentre trevas acabou por sentenciar a morte daquela inocente criança. Ingênuo, o garoto saltou a janela de sua casa e entregou a sua à fatal mão de Ortros. Este observava atento os contornos daquele pescoço infantil, mordia seu lábio inferior e respirava ofegante apenas por pensar naquele doce sabor arterial, no maravilhoso banquete de carne que estava prestes a degustar, enquanto caminhavam para um lugar isolado, onde a fera pudesse alimentar-se sem ser interrompida. Inevitavelmente, os meigos olhos azuis de Ortros absorveram a animalidade dos glóbulos dourados, fatais, assassinos. Ao chegarem a um beco escuro e longe de prédios residenciais, faminto, Ortros segurou com força o braço do menino e perguntou:
_ Como te chamas?
_ Olavo... –respondeu o garoto, mergulhado naquelas íris de entardecer.
_ Quero abraçar-te, Olavo. – disse Ortros, sem mais conseguir conter seu feroz apetite.
_ Por quê? – quis saber o menino, quase vencido pela melodiosa voz de seu mal-feitor.
_ Porque gosto de ti, és meu amigo. Não gostas de mim? – perguntou Ortros, derramando seu olhar dentro do semblante de Olavo.
_ Sim.. És meu melhor e mais estimado amigo... – respondeu o pobre garoto, hipnotizado pela paixão que emanava daqueles olhos cor-de-mel, olhos de um predador. Ortros, instintivamente, naquele instante, acabou por descobrir que a caça de um verdadeiro hemanubis se dá através do feminino. Não serviria mais aos seus propósitos alimentares toda a brutalidade e agressão da qual se valia ao perseguir suas vítimas, a partir daquele dia, Ortros passaria a valer-se de uma suavidade cativante e sedutora, a fim de que sua insaciável fome se transformasse em deleite não apenas para ele, mas para os reféns de sua gula. Deliciosamente, os vigorosos dentes de Ortros penetraram a carne de Olavo, que mal sentiu sua pele sendo arrancada pela boca da fera que o devorava aos poucos. Agarrado à blusa de Ortros com mãos trêmulas, já não importava mais para o garoto se o amigo que o abraçava havia repentinamente se transformado em uma besta medonha, com pêlos espalhados por todo o corpo e grunhidos animalescos. Sabia ele que estava a morrer lentamente, mas não uma morte qualquer, estava ele a morrer para que sua alma tornasse ainda mais forte o espírito de uma divindade, de uma criatura etérea.
Satisfeito, após jogar os restos mortais de sua presa em um velho poço e tendo sua forma humana restabelecida, Ortros retornou ao local onde havia deixado Licaon, este já o aguardava tendo um bezerro morto, pendurado em sua bocarra. Ortros olhou para o animal e sentiu naquele instante profundo desprezo pelos hábitos alimentares de sua irmã, em seguida, montou em Licaon, ordenando que este o levasse de volta ao Casarão. Desde aquele dia, os passeios de Ortros e Licaon passaram a se repetir por muitas e muitas madrugadas. Felizes as mães que não tiveram seus filhos saqueados durante a noite, por um ladrão de oito anos, com o coração frio e os olhos em brasa.
Anseio o dia. Gritou uma pequena voz dentro do pueril coração de Neméia em uma determinada manhã de sexta-feira. E, por ser conhecedora de sua imunidade ao sol, a filha de Alba resolveu por vontade própria livrar-se das travas e trancas da porta da cozinha a fim de aventurar-se pela mata ao redor de sua morada, de sua toca de isolamento e escuridão. Em um primeiro instante, o sol pareceu-lhe duas lâminas adentrando seus virginais olhos, deixando-a momentaneamente cega. Todavia, em momento algum pensou a jovem baronesa em desistir de sua empreitada, decidida, cambaleou por alguns metros sem saber para onde estava indo, tendo os dedos diante dos doloridos olhos, deixando que os mesmos paulatinamente se acostumassem à claridade. E, ao sentir que poderia abrir totalmente as pálpebras vacilantes, Neméia contemplou a natureza ao seu redor e sorriu satisfeita. De imediato, amou o dia, amou a luz e ousou amar-se, apesar de ser o que era. À noite, a vila lá embaixo não passava de uma confusão de frágeis e pequenas luzes, mas, durante o dia, pôde ela observar com estonteante luminosidade as casas, a torre da igreja, os campos floridos. Uma necessidade crescente de ver tudo aquilo de perto acabou por seduzir Neméia e convidá-la para um passeio mais ousado, em busca de novas experiências, a fim de conhecer as coisas das quais ela só ouvira falar através das histórias de Abel.
Após cruzar o tapume que circundava a rica propriedade dos Caronte, valendo-se de seu corpo franzino para esgueirar-se dentre as toras de madeira e os ramos, Neméia seguiu por um bom espaço de tempo uma picada através da mata e, após muito caminhar, repentinamente, escutou uma voz que confundia-se com o canto dos pássaros e o som do vento embalando árvores e arbustos. Resolveu seguir aquela voz e assim descobrir a quem ela pertencia. De repente, Neméia o viu. Como Ortros, também era ele um menino, talvez fosse um pouco mais velho que seu irmão, quem sabe um pouco mais gentil que Ortros. O menino brincava sozinho, como se estivesse celebrando algo e sendo assistido por uma grande multidão. Curiosa, Neméia tentou aproximar-se sem ser vista, mas o som das folhas secas estilhaçando sob seus pequeninos pés acabou por denunciá-la.
_ Quem és tu? – quis saber o garoto, ressabiado.
_ Desculpe-me. Meu tio proíbe-me de falar com estranhos. – respondeu Neméia, envergonhada por sua intromissão.
Tocado pela polidez de Neméia, o garoto aproximou-se dela e procurou olhá-la nos olhos, gesto este que ela recusou, tendo nos lábios um delicado sorriso.
_ Meu nome é Dante. Creio eu que, se nos tornarmos amigos agora, não seremos mais estranhos um para o outro... – disse ele estendendo a mão para Neméia, recebendo da mesma uma singela recusa, seguida de um olhar bem mais acolhedor que um simples aperto de mãos.
_ Neméia... Chamo-me Neméia. – disse, polidamente – Com quem tu falavas? – quis saber a jovem baronesa.
_ Com ninguém. Estou praticando... Desejo tornar-me sacerdote de Nova Friburgo um dia. – disse o garoto, cheio de si.
_ O que é um sacerdote? – perguntou Neméia, certa de que jamais ouvira falar sobre tal ofício.
_ Não sabes o que é um sacerdote?! – admirou-se o menino – Bem... Um sacerdote é um homem que vive em função de Deus.
Acanhada, Neméia encolheu os ombros e deixou que seu desejo de saber falasse através de si.
_ Quem é Deus?
_ Como assim quem é Deus? Ele é nosso Pai Todo Poderoso! Não conheces Deus? – assustou-se o menino com a estranha pergunta daquela garota que parecia vestida para o dia de sua primeira comunhão.
_ Nosso pai? Como assim? Somos irmãos? – atrapalhou-se Neméia com as afirmações do pequeno pregador.
_ Aos olhos de Deus, sim. – disse o garoto, olhando para Neméia com certa admiração.
Saber que, de alguma forma, poderia existir amor fraterno incondicional entre aquele dócil menino e ela, fez com que Neméia se sentisse ainda mais à vontade em sua companhia, ao ponto de não policiar as próprias declarações.
_ Posso contar-te um segredo, Dante?
_ Claro. Este será então o meu primeiro segredo de confissão. Jamais será revelado por mim até que a morte venha levar-me desta vida. – disse o menino, imitando os gestos e a maneira de falar do padre de Nova Friburgo.
_ Eu moro no Casarão Caronte. – revelou Neméia, sem dar-se conta dos riscos que aquela declaração oferecia.
_ A casa no alto da serra?! – desdenhou o garoto, incrédulo – Há tempos ninguém vive lá. É um lugar amaldiçoado...
_ É verdade, Dante! Creia-me! – insistiu Neméia, como se a crença de Dante em suas palavras lhe fosse algo precioso.
_ Um velho mercador vive a tagarelar isto pela vila há anos, mas ninguém acredita nas histórias de um bêbado sem Deus no coração. Aquele lugar é a casa da Besta, qualquer cristão que dali aproximar-se receberá como penitência a excomunhão.
_ Mas... Eu vivo lá. – teimou Neméia em sua perigosa confidência.
_ Não é possível, caso isto seja verdade, tu vives em pecado, Neméia! – advertiu o pequeno, envolto em suas crenças religiosas.
_ Preciso ir... Meu irmão e meu tio já devem ter percebido minha ausência... – impacientou-se a pequena baronesa, repentinamente certa de que, mais uma vez, havia falado demais.
_ Volte amanhã para que possamos brincar! Preciso praticar mais um pouco. Os garotos da vila zombam de mim, não escutam o que digo. – pediu delicadamente o jovem aprendiz de sacerdote.
_ Claro... – disse Neméia sem nenhuma convicção em seu tom de voz – Dante, por favor, não fale a ninguém sobre o que conversamos. Meu tio ficaria muito bravo... – pediu Neméia, temendo desapontar Abel.
_ Preocupa-te apenas em retornar amanhã a este mesmo lugar. O resto, é segredo de confissão. – disse o garoto, levando as mãos em cova à boca, sussurrando gentilmente junto ao ouvido de Neméia.
_ Agradeço-te. – disse Neméia cordialmente, logo em seguida tomando o mesmo caminho através do qual chegara aquela clareira.
Assim que mais uma vez deslizou seu corpo pela sebe ao redor da grande casa, Neméia sentiu a potência de uma pesada mão sobre seu frágil ombro e, ao erguer seus pequeninos olhos, encontrou ela a face imparcial de Abel. Este agachou-se e mirou-a nos olhos, querendo saber por onde ela havia andado. Exaltada, Neméia contou a Abel que estava curiosa, que acabara cedendo à tentação de desvendar como eram as coisas durante o dia, suas cores e formas reveladas através da limpidez da luz. Abel escutou o relato de Neméia e tudo pareceu-lhe inofensivo, todavia, assim que a jovem filha de Alba pronunciou o nome de Dante, Abel pôs-se a cogitar acerca das terríveis conseqüências que aquele furtivo encontro poderia ocasionar. Saber a respeito da existência de um mercador que estava falando demais também despertara no homem-gárgula o mecanismo que o orientava a zelar pela integridade de seus donos.
_ Senhora, para que lado o garoto foi? Preciso matá-lo, entende? Não posso permitir que ele permaneça vivo... Ele falará sobre...
_ Não, Abel! – sentenciou Neméia – Não farás tu mal algum aquele menino! Proíbo-te de molestá-lo! Proíbo-te de servi-lo como festim a meu insaciável irmão! – fez a jovem baronesa valer sua autoridade.
_ Seja feita a tua vontade, senhora. – disse, enfim, Abel, tomando Neméia em seus braços e retornando para o casarão.
Quando a noite fez-se alta e a fome dominou por completo os interiores de seus donos, Abel, acompanhado de Ortros , deslocou-se até a cocheira a fim de que Licaon ganhasse vida. Porém, antes de transformar-se, Abel ajoelhou-se diante de seu dono e travou com o mesmo a seguinte conversa:
_ Amo, sabes que fui criado para obedecer-te cegamente, não é mesmo?
_ Sim, Abel. – disse Ortros, sem compreender ao certo o que aquilo significava.
_ Sabes que sou incapaz de descumprir uma ordem tua, não sabes? – prosseguiu Abel, como se estivesse jogando migalhas para que Ortros o seguisse até seu propósito.
_ O que pretendes com tantas voltas, meu bom amigo? – quis saber o astuto garoto.
_ O que tu me mandarias fazer caso soubesses que um humano sabe de nossa existência? Que um humano sabe que vivemos no Casarão Caronte? Que ordens daria-me tu se este humano oferecesse alguma ameaça à tua segurança e a de tua irmã?
_ Ordenaria-te que o matasse! – falou Ortros, sem hesitar.
_ Pois esta pessoa existe, senhor... Um mercador... Provavelmente um velho beberrão com o qual eu tenha negociado algumas vezes. Este infame certamente deve ter seguido-me em alguma ocasião e descoberto onde vivemos. De nada valerá agora o dinheiro que pago aos ciganos para espalharem boatos escabrosos sobre nossa morada... Se o mercador continuar a falar, as pessoas ficarão curiosas, perderão o medo, descobrirão que vós sois filhos de Enéas e Alba, matar-te-ão e à tua irmã caso algo não seja feito com urgência.
_ Tome logo de meu sangue, Abel! – disse Ortros ferindo seu polegar com a ponta de um canino – E traga-me o coração deste canalha. Quero provar que sabor possui a carne de um patife!
Após Licaon surgir, Ortros retornou para o salão principal da grande casa a fim de aguardar enquanto seu servo lhe providenciava uma criança com sangue quente e apetitosa carne, e, quem sabe, como sobremesa, o músculo cardíaco de um tolo mexeriqueiro.

Quarta-feira, 21 de Novembro de 2007


Ao completarem um ano de vida, os filhos de Enéas e Alba passaram a ser alimentados de pequenos animais silvestres trazidos por Licaon, os quais eles seguravam dentre as mãozinhas, arrancando penas e pêlos, rasgando a pele de suas presas com seus dentes aparentemente tão frágeis, porém, capazes de demonstrar toda a ferocidade de um autêntico hemanubis. Das pequenas criaturas, bebiam o sangue com deleite, experimentando intenso prazer ao sentirem cada uma delas debatendo-se, lutando inutilmente por sobrevivência. Apesar de todo o terror que cercava e mantinha vivas aqueles dois seres, dotados de uma natureza distinta da humana, para a velha Zarina, tentar deixar de amá-los, seria de um esforço tolo e inútil. A escrava alforriada tornara-se indiferente ao fato de seus afilhados alimentarem-se de sangue e carne crua, afinal, já não sofria mais com os gritos das vítimas, com os pedidos de ajuda, com os lamentos que ecoavam pelos corredores da grande casa dia e noite. Ela ainda não sabia, em sua cegueira afetiva, que os clamores angustiados não tardariam a retornar.
Certo dia, quando Ortros e Neméia já se encontravam com pouco mais de seis anos de idade, seus hábitos alimentares acabaram por mudar de vez. Licaon estava demorando a retornar da caça, os animais se encontravam escassos, até mesmos os cães da vizinhança já haviam quase todos sido devorados, mas a fome daquelas duas crianças não conhecia a palavra paciência, e, animais, por mais dóceis que sejam, quando privados de alimento, tornam-se perigosos até mesmo para a mão que os afaga. Quem teria atacado primeiro a pobre Zarina? Quem teria dado o salto que levou o outro gêmeo a repetir o gesto? Assustada, Zarina tentou livrar-se do ataque sem ferir seus pequenos agressores, e, ao conseguir dos mesmos ganhar uma certa distância, correu até a dispensa e lá trancou-se, apavorada, resfolegante, enquanto as batidas na porta e os bramidos, tamanha potência, anunciavam o quanto Ortros e Neméia não eram humanos. Aqueles grunhidos, aqueles urros selvagens...
_ Zarina. Anda, abre de uma vez esta porta! – solicitou Abel no dia seguinte.
Ainda em pânico, sentada sobre sacas de arroz e tendo os joelhos abraçados junto ao peito, a velha manteve-se em silêncio, temendo que o apelo de Abel não passasse de uma artimanha.
_ Não seja infantil. – prosseguiu o homem-gárgula – eles já estão bem alimentados, nada farão contra ti.
_ Eles tentaram devorar-me! Quero ir embora, não permanecerei nesta casa maldita nem por mais um único dia! – gritou Zarina, trêmula.
_ Meu bem, acreditavas tu que eles não recordariam do sabor do sangue humano? Querias o quê? Que eles permanecessem a comer bichos da mata, como se fossem selvagens?! Zarina, os animais apenas serviram de treinamento, nossos filhos precisavam aprender a caçar... E aprenderam! Eles já estão bem alimentados, Licaon lhes trouxe um garoto bem robusto, Ortros e Neméia adoram-te, não te farão mal algum. Participaste tu do batismo de nossos pupilos. Quando senti o cheiro de teu sangue na boca deles, logo percebi que o instinto havia lhes presenteado com esta maravilhosa descoberta. Eles estão crescendo, Zarina. Não estás orgulhosa? – quis saber Abel, com sua inenarrável frieza.
_ És realmente feito de pedra, rapaz! – disse Zarina, rangendo os dentes – Mas eu sou humana! Eu sou cristã! Sentiste na boca deles o odor de meu sangue?! Isto é bizarro, é imoral!
_ O olfato de Licaon permitiu por muito tempo que eu não trouxesse para nossas crias nenhuma mulher apodrecida por varíola ou sífilis. Sangue ruim não os adoece, mas os debilita, deixa-os privados de exercer o máximo de suas potencialidades. Licaon...
_ Pare de falar da gárgula como se tu e ela não fossem a mesma fera! Tu és Licaon e Licaon és tu, Abel! Sinto que enlouquecerei... Deixem-me partir!
_ Zarina, por favor, perdoe-nos... – pediu gentilmente a jovem Neméia, tendo a voz embargada e lágrimas nos olhos.
Em seu cansado peito, Zarina nutria em segredo uma certa predileção pela pequena Neméia, a menina era meiga e tinha os olhos profundamente azuis, como os de seu irmão e como eram os de sua finada mãe. Apenas quando a fera dentro de si despertava, a cor-de-mel dos olhos surgia como uma incandescente chama, uma fúria preciosa. Não havia mais como ela fugir da roda-viva Caronte, seu coração agora pertencia aquelas duas crianças como um dia pertencera a Alba.
Neméia, ao ver Zarina abandonando seu esconderijo, abraçou-se a ama e pediu-lhe desculpas, fazendo-lhe mil juras de que jamais voltaria a feri-la. Ortros permaneceu sentado sobre a mesa, tento um olhar tão frio fulminando a mulher que dele cuidara quanto o de Abel. O jovem filho de Enéas não era em nada parecido com a sensível filha de Alba, e isto deixava a mucama de outros tempos tremendamente temerosa.
Após aquele dia, enquanto Ortros se alimentava das entranhas das crianças que Licaon saqueava de suas mães na calada da noite, Neméia recusava-se a fazer o mesmo, acabara por tornar-se cada vez mais resistente aos seus instintos, o que certamente acabaria por deixá-la fraca e débil. Quase conseguira arrancar do insípido homem-gárgula uma centelha de surpresa a jovem filha de Alba quando em determinado dia, dentre lágrimas, abraçou-se a ele e ao mesmo solicitou:
_ Abel, sinto que a fome está tornando-se incontrolável. Traz-me um daqueles animais para que eu me alimente dele esta noite...
_ O que há, meu bem? De que animal falas, doce baronesa? Por que deixaste de comer destas bestas humanas? – perguntou Abel, trazendo a menina para junto de si.
_ Aquele, que mostraste ontem à noite... – respondeu a criança, secando com as costas das pequenas mãos as lágrimas derramadas sobre seu angelical rosto.
_ Um porco-do-mato? – disse Abel, tentando fitá-la nos olhos, incerto se aquele era realmente o desejo de sua jovem mestra.
_ Sim... – confirmou a garota, como se sentisse vergonha do pedido que a seu servo fizera.
_ Por quê?
_ Não quero mais me alimentar de crianças... – explicou-se a menina, quase voltando ao pequenino pranto – Elas parecem comigo... e choram. Não gosto de vê-las chorando, sinto vontade de chorar também...
_ O sangue das crianças é algo precioso, possui um sabor refinado... Já um porco-do-mato... – argumentou Abel, a fim de zelar pelo paladar de Neméia.
_ Mas um animal não irá pedir para que eu não o machuque. Por favor, Abel, traga-me um porco-do-mato... – pediu a menina que não gostava de tratar Abel como um lacaio.
Desde então, enquanto Ortros bebia do sangue e comia da carne de jovens almas que partilhavam de sua mesma idade, Neméia passara a alimentar-se de animais como bezerros e carneiros. Sem sombra de dúvidas, a carne humana possuía um sabor muito mais interessante, todavia, o sangue dos animais era bem menos sofrido.
Aos sete anos de idade, Ortros já era dotado de uma refinada crueldade. Uma única criança seria o suficiente para alimentá-lo por mais de uma semana, mas sua inclinação para o sadismo parecia bem maior que seu apetite. Ainda muito cedo, aprendera o jovem filho de Enéas o prazer que herdara de seus ascendentes pela arte da caça. Ao menos uma vez por mês, Licaon levava duas ou três crianças para o Casarão a fim de que estas tivessem um determinado tempo para correrem antes que Ortros delas saísse em sua perseguição. O jovem filho de Enéas parecia sentir instintivamente que um hemanubis não depende nem de velocidade nem do elemento surpresa para capturar suas presas, mas sim, de resistência e perseverança. Ortros, biologicamente, parecia saber que esta há séculos era a estratégia de sua espécie para perseguir e pegar uma vítima. Talvez, devido às perversões alimentares de seu irmão, Neméia acabara por dele se tornar cada vez mais distante, preferindo ela a companhia das bonecas que Zarina confeccionava com estopa e retalhos de tecido. Porém, as bonecas não duraram muito tempo.
Certa noite, quando Ortros se divertia pelos corredores do Casarão em busca de suas presas infantis, Zarina sentiu dentro de si um lapso de remorso e resolveu esconder uma das crianças em seu quarto. Ao descobrir o que a velha escrava havia feito, Ortros, ficou tomado de uma fúria que pouco condizia com sua tenra idade. Apesar de assustada diante da selvageria daquele menino despido, de rosto feroz e o corpo tomado por uma suave penugem negro-cinza, Zarina insistiu para que ele poupasse ao menos a vida daquela inocente garotinha, que fizesse aquilo por sua velha ama. Como se tomado por uma repentina benevolência, Ortros baixou os olhos e saiu do caminho de Zarina, tendo em seu semblante um brilho que refletia ao mesmo tempo vergonha e compaixão. Já mais tranqüila, Zarina tomou a mão da pequena e com ela caminhou até a escadaria a fim de conduzir a jovem presa para fora daquele pesadelo. Mas a liberdade não pode ser negociada tão facilmente com um ser que encontra na carne e medo alheios a satisfação para seus apetites. O corrimão não foi suficiente para evitar que o salto de Ortros sobre as costas de Zarina a mantivesse de pé, rolaram então o carrasco e a escrava diante do assombrado olhar da menina que manteve-se silenciosa, enquanto seus pobres olhos gritavam o mais ensurdecedor dos gritos.
_ Abel!!! – gritou Neméia ao ver o irmão ainda posto sobre o corpo inerte de Zarina, tombado contra o rés-do-chão.
_ O que há?! – perguntou Abel, deslocando-se às pressas para a grande sala.
_ Ortros empurrou Zarina... Diga-me, Abel, que ela não está morta! – gritou Neméia, abraçada às pernas do homem-gárgula.
_ Não empurrei!!! – protestou o pequeno hemanubis voltando seu rosto bestial para o semblante estremecido de sua irmã – Ela estava tão velha que caiu! Quem precisa desta maldita velha?
_ Eu preciso! – bradou Neméia deixando com que o mel dos olhos e a cólera de seus dentes surgissem, enquanto mil pêlos de um delicado castanho brotavam em sua tensa nuca.
_ Então pegue-a e leve-a para teu quarto! Tenho certeza que dará ela uma ótima peça para a tua coleção de bonecas! – lançou o perverso garoto.
Abel olhou atenciosamente para o pescoço torcido e pernas quebradas de Zarina e, simulando um ar de desaprovação, voltou-se para Ortros e perguntou com seriedade:
_ Fizeste mesmo esta bagunça, Ortros? Não minta para o tio Abel.
_ Ela tentou enganar-me, Abel! Zarina era uma falsa, uma traidora! – justificou-se o insensível garoto.
_ Menino travesso! Anda! Volte a brincar e evite novas confusões ao menos por hoje! – advertiu Abel como se o pequeno houvesse apenas quebrado uma peça de louça.
Como um animal, Ortros subiu rapidamente as escadas posto sobre mãos e pés e atacou ferozmente a menina que sequer encontrou forças para correr. Neméia, tremendamente decepcionada com Abel, afastou-se dele chorando e perguntou:
_ Por que tu nada fizeste?
Sem saber o que responder à sua jovem dona, Abel ajoelhou-se diante dela e ofereceu-lhe o convite, tendo em seus lábios um incolor sorriso:
_ Queres me ajudar a enterrar o corpo de Zarina? Poderemos presenteá-la com um belo funeral.
_ Tu és igual a Ortros! – gritou Neméia, dando as costas para Abel e fugindo para seu quarto, onde permanecera trancada até o dia seguinte.
Indiferente à dor emocional de sua irmã, e física, de sua refém, Ortros continuou sobre a garota, devorando fígado, rins, vísceras e o coração de sua pequenina vítima, muito além do que sua fome exigia, muito aquém do que ordenava seu sanguinário instinto, que a cada nova horrenda refeição experimentava um crescente prazer, a delícia mórbida de se viver em função da morte dos outros.
A partir daquele evento, Abel percebeu que teria muitos problemas com Neméia. Pela primeira vez, no decorrer de toda a linhagem, um hemanubis havia procriado com uma humana. Neméia, apesar de ter herdado todas as características da linhagem da qual seu pai descendera, trazia dentro de si sentimentos tipicamente humanos, sentimentos estes que a faziam enxergar a raça humana como iguais, e não apenas como o gado a ser abatido. Abel não fazia idéia de que qualidades humanas poderiam afetar seus donos à medida em que os anos passassem, não sabia de que modo medir até que ponto a raça hemanubis havia sido danificada. Era bem provável que Enéas Caronte realmente houvesse praticado um delito irremediável.
Os filhos de Enéas e Alba eram de uma inteligência tão notável, apesar de terem pouco mais que sete anos de vida, que muitas vezes fizeram por onde quase surpreender Abel e seu duro coração de pedra. Neméia era capaz de vencer Abel em qualquer jogo de tabuleiro e adorava divertir-se desvendando enigmas. Ortros sempre acabava por envolver Abel com perguntas curiosas, questionamentos que o homem-gárgula, em sua condição de servo, encontrava-se na obrigação de responder.
_ Abel, por que os humanos são tão parecidos conosco?
_ Comparações entre um hemanubis e um homem é mera perda de tempo, Ortros. Não se compara ouro a latão, é tolice. No que realmente importa, tu e Neméia em nada lembram a raça humana. Vós não sois pessoas. Um hemanubis é um ser especial. – explicou Abel com a didática de um autêntico mestre.
_ Mas minha mãe não era uma hemanubis... – questionou o atento aluno.
_ Não. – concordou Abel com a colocação de Ortros, afagando suavemente a cabeça do esperto garoto. – Mas vós sois.
_ Neméia e eu a matamos ao nascermos? – quis saber o menino, sem demonstrar no olhar nenhum sinal de ressentimento.
_ Quase. Na verdade, ela faleceu apenas na primeira amamentação. Não haveria como uma simples criatura humana suportar uma gestação como a que vos gerou... Vós bebíeis do sangue dela ainda no ventre. Reconheço que Alba era bem mais forte do que eu supunha.
_ Não entendo. Meu pai era um hemanubis e também morreu... – lançou o desafio o atento discípulo.
_ Mas, para que um hemanubis perca sua vida é necessária uma morte rara, que geralmente não acontece. – explicou Abel, como se buscasse tranqüilizar seu jovem dono quanto à sua longevidade.
_ Abel, eu morrerei? – perguntou Ortros, com uma naturalidade espantosa.
_ Sim, a natureza dotou todas as criaturas viventes de uma existência limitada. Porém, diferente dos humanos, permanecerás forte e jovem até o fim de teus dias, que deverão durar por volta de trezentos, quatrocentos anos de vida. Mas isto apenas se fores esperto o suficiente, se evitares que teus inimigos descubram que tu não és humano ou como podem ferir-te fatalmente.
_ Há tantas coisas que não compreendo, Abel. Por que Neméia e eu devemos permanecer metade do dia aqui dentro e só podemos sair na outra metade.
_ Devido à luz do sol, jovem senhor.
_ Por que o sol poderia me matar?! Sou um Caronte! – bradou dentro do jovem a voz de seu sangue paterno.
_ Existem alguns elementos na Terra que são sensíveis à luz do sol. A água evapora-se, a cera derrete e a carne de um hemanubis arde, revelando contra vossa vontade o que sois por baixo da pele. Exposto à luz do sol, teu corpo, a fim de proteger-se, revelaria teus pelinhos no vão dos dedos, no dorso das mãos, nas bochechas, no nariz... – explicou Abel, tocando cada uma das partes que citara, como se fingisse brincar.
_ Exijo saber como é a claridade!
_ Recomendo que não ouses. Não há nada de especial, é como uma grande, enorme chama de vela.
_ Odeio quando não posso algo! Disseste-me que eu poderia tudo, Abel! Eu quero poder tudo!
_ Calma, pequeno barão. Talvez tu possas...
_ Como, Abel? – perguntou o garoto, tendo seus magníficos olhos azuis iluminados pela esperança.
_ Venha comigo, vamos procurar por Neméia.
Abel e Ortros desceram até o salão onde Neméia brincava com algumas bonecas e interromperam o organizado chá de mentira. O homem-gárgula sentou as duas crianças sobre uma poltrona e explicou que ambas iriam participar de um jogo, um jogo muito doloroso para quem perdesse a partida. Ortros e Neméia, por um curto espaço de tempo, ficariam expostos a um pequeno raio de sol que Abel deixaria passar através do grosso cortinado. Dada qualquer reação, ficaria evidente a tolerância ou não das crianças ao sol.
_ Façamos isto de uma vez. – disse Abel após abrir uma tímida brecha dentre as cortinas e, em seguida, pediu que os garotos se aproximassem.
Neméia foi a primeira a fazer o teste, após ser instruída por seu servo a passar a mão lentamente pelo brilho que, de modo sutil, invadia o Casarão. Receosa, a menina correu sua mãozinha sob a luz e nada aconteceu. A fim de certificar-se da imunidade da jovem baronesa, Abel solicitou que a pequena repetisse a experiência, e, mesmo após fazê-lo, Neméia permaneceu ilesa. Porém, chegada a hora do jovem anjo passar sua mão pelo filamento de luz, em um primeiro instante, sentiu ele um misto de satisfação e ansiedade, todavia, logo em seguida, a dor fez com que o mel de seus olhos brotasse e ele liberasse um terrível grito. Apesar dos apelos de Abel para que ele recolhesse a mão, Ortros insistiu em mantê-la exposta à claridade, queria a qualquer custo ser imune à luz do sol. Vendo o dorso da mão de seu gêmeo rapidamente ser tomada por uma quantidade anormal de pêlos grossos e esbranquiçados, enquanto de suas unhas transformadas em pequenas garras brotava o sangue, Neméia o puxou para que ele se livrasse do efeito mortificante dos raios solares. Contorcendo-se de dor, Ortros deitou-se no chão abraçado à mão que havia ficado deformada e, passado o mal-estar e controlada sua respiração ofegante, ergueu-se ele revoltado, aplicando subitamente um potente golpe com a mão ferida contra o rosto de Neméia, para logo em seguida correr na direção de seu quarto, tendo Abel a persegui-lo.
_ O que fazes sob tua cama, jovem senhor? O colchão não te parece mais confortável? – perguntou Abel, após deitar-se ao lado de Ortros.
_ Odeio Neméia! Por que ela não sentiu nada?! E quanto à minha mão? Por que ela ainda não voltou ao normal? – quis saber o garoto, olhando para aquela estranha pata de fera albina.
_ Deverias ter me ouvido. Tua mão permanecerás assim pelo resto de teus dias. Bem... creio eu que teremos que providenciar um par de luvas, ou ao menos uma. – disse Abel com um sorriso, segurando a mão ainda dolorida de Ortros.

Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007


_ Trata-se de algo muito simples, Zarina. – disse Abel após convencer a velha ama a segui-lo até a torre do casarão. – Fura-te com esta agulha e dá-me uma gota de teu sangue.
_ Mas... para que isto?! – perguntou Zarina na tentativa de entender o que Abel pretendia com aquele extravagante pedido.
_ Ora, faz-se tarde! Nossos filhos precisam alimentar-se... – respondeu Abel, correndo suas mãos gélidas pelos cabelos crespos e grisalhos da escrava.
_ Com meu sangue?! Já não basta que eles tenham matado a própria mãe?! – protestou Zarina, negando-se a participar daquela nova rotina que se revelava mais bizarra a cada instante.
_ Achas mesmo que uma única gota de sangue seria suficiente para alimentá-los? – riu-se Abel com a inocência da velha mucama – Não seja tola, Zarina. Pense em mim como um excelente ilusionista, transformarei tua gota de sangue em alguns litros deste precioso líquido...
_ Deus meu! O que são aquelas crianças, Abel?! Vampiros?! Demônios sugadores da alma dos homens?! – questionou Zarina, benzendo-se com fervor.
_ Vampiros?! – admirou-se Abel, liberando uma nova risada sem cores e totalmente desprovida de vivacidade – Se nossos anjos fossem de fato vampiros, já teriam tornado-se morcegos a bater asas por Nova Friburgo, à caça de alguns pescoços, contanto que os mesmos não levassem em volta uma réstia de alho.
_Tuas ironias afligem-me, rapaz! – protestou Zarina, sentindo-se incomodada pelo constante sarcasmo do homem-gárgula.
_ E sabes o quanto me exasperam tuas dúvidas e receios, escrava?! Fazes perguntas demais para alguém que, da mesma forma que eu, também foi lançado neste mundo para servir! Ora, pois! Vampiros! Cansam-me teus limitados pensamentos, todos voltados para um universo de mitos e fábulas infantis!– desdenhou Abel das crendices de Zarina – O que pensas? Que aquelas duas crianças aspirarão sangue através de orifícios minúsculos em seus caninos, parva criatura?! São recém-nascidos, ainda não possuem sequer dentes. Nossos jovens senhores beberão o sangue de suas vítimas através dos poros e da mama, assim como beberam do sangue materno mesclado ao colostro! – revelou friamente Abel, quase sussurrando, aproximando seus olhos vítreos do semblante assustado de Zarina – De suas vítimas, sorverão com tremenda gula o nutritivo líquido que mantém viçosos os corpos humanos, o que os tornará mais fortes, mais salutares, mais sábios e muito mais longevos que esta sub-raça supostamente criada por um deus hebreu. Mas, em um futuro próximo, Zarina, quando nossos pequenos seres angelicais desenvolverem uma dentição saudável, creio eu que apenas sangue não bastar-lhes-á para saciar o selvagem apetite ... Agora apressa-te! Preciso de teu sangue para que eu assuma minha forma bestial, irei caçar...
_ Alba falou-me sobre isto... Transformar-te-á na estátua do lobo monstruoso e deformado?! – quis saber Zarina, sentindo calafrios percorrerem as fendas de seu espírito.
_ Não terei como servir os desígnios de meus donos caso eu me prostre como uma escultura de pedra monstruosa e deformada sobre aquele pedestal, não é verdade, meu bem? – simulou Abel desaprovar os adjetivos utilizados por Zarina para ilustrar sua manifestação espectral – Assumirei a forma da estátua, mas serei de carne e osso.
_ Matarás pessoas?! – quis saber a intimidada mulher, apesar de ter em seu íntimo quase a certeza da resposta para aquela questão.
_ Ainda não. Mas é quase inevitável que eu o faça em breve, mas somente quando nossos protegidos tiverem idade o suficiente para delegarem-me tal ordem. Por hora, procurarei apenas por uma senhora de seios bem fartos, com terminais sangüíneos e vênulas vistosas e fáceis de serem rompidas, cujo sangue flua em abundância. Teus afilhados tratarão de matá-la... A mim caberá providenciar o banquete.
_ Isto é horrível... É demoníaco! Não posso compactuar com algo assim... – disse Zarina, ameaçando com um gesto corporal abandonar a torre.
_ Deixarás realmente que os filhos de Alba morram de fome? – protestou Abel, pondo um de seus braços entre a porta de saída e a aflição de Zarina – Os filhos pelos quais ela sacrificou a própria vida? Permitirás tu, que sempre dizias tanto amá-la, que a morte daquela pobre e inocente jovem tenha sido em vão? São crianças cândidas, mulher... Elas não têm culpa de serem o que são. Juro que não trarei alguém de boa índole para servi-lhes de alimento... Somente mundanas, pecadoras, mulheres de pouca fé. Prometo-te.
Confusa e profundamente envolvida pelas palavras da gárgula humana, Zarina delicadamente furou seu dedo apontador com a agulha que trazia presa a uma pequena almofada e pingou uma gota de seu sangue sobre a mão de Abel. Este, com a mesma ânsia de quem tem fome, levou o sangue até sua boca e lambeu-o em um gesto quase libidinoso, dando início à medonha transmutação. Tomada de pavor, Zarina levou a mão ao peito e pensou em fugir, todavia, Abel a impediu com um grito, tendo a inflexão da voz destorcida pelas visíveis alterações em sua estrutura corpórea.
_ Pára! Tu precisas estar atenta quando eu retornar... Traga as crianças. Como vês, eu já preparei o lugar... Serão necessárias duas gotas de teu sangue para que eu recobre minha forma humana... – instruiu Abel com tremenda dificuldade, enquanto seu corpo crescia assustadoramente dentro das roupas que acabariam por rasgarem-se antes mesmo do término daquela horrenda transformação.
_ Virgem Maria! O que escondes sob tua alva pele, Abel?! Como saberei que não me atacarás?! –quis saber Zarina, aterrorizada diante do inominável espetáculo, tendo seu corpo colado à porta como se quisesse atravessá-la sem antes oferecer as costas àquele homem que velozmente se transformava em algo além da compreensão humana.
_ Chame-me por meu nome bestial... Chame-me... Licaon! Apenas assim serei capaz de reconhecer-te!... Agora saia, querida... É muito... feio...
Quando a metamorfose se fez completa, nem o mais sutil traço de humanidade se resguardava sobre a pavorosa criatura. Abel havia se transformado em um lobo de corpulência agigantada, mandíbula fenomenal, olhos febris e patas colossais. Em seu dorso eriçavam-se pelos grossos e nervosos, enquanto de sua boca escorria a saliva que parecia anunciar o feroz apetite de seus donos. Ele não era um hemanubis, mas sim, uma estátua viva, inspirada nas lendas que tanto falavam sobre os famigerados lobisomens. Já um autêntico hemanubis, em muito lembrava – mesmo tomado por sua forma animalesca – características tipicamente humanas, mas Licaon não, Licaon apenas inspirava um primitivo e incalculável medo profundo. Talvez àquela criatura dissessem respeito todas as histórias contadas em noites-de-lua-cheia, diante de olhares assombrados e ouvidos atentos. Que horror teriam experimentado aqueles que, em um fatídico dia de suas vidas, depararam-se com tamanha abominação, com o descomunal servo de um hemanubis? Posto de pé sobre as patas traseiras como um cão de circo, Licaon liberou um urro assustador, tão intenso que certamente tivera potência o suficiente para deixar aquela noite mais escura e fria. De um pulo insólito, Licaon atirou-se através da janela da torre, estilhaçando os cristais coloridos que ainda lhe adornavam, e ganhou a mata, farejando, vasculhando, seguindo em direção àqueles que um dia mataram seu mestre, a fim de que os mesmos servissem de alimento para os filhos do mesmo hemanubis ao qual feriram com a prata e destruíram com o fogo.
A prostituição voltara a crescer em Nova Friburgo e já eram inúmeras as casas de tolerância, os bordéis, os prostíbulos. Rose Bijou havia se tornado um nome enterrado pelo tempo, uma louca a divertir os feirantes com suas piadas sobre a Igreja e suas destorcidas profecias acerca do retorno da Fera do Morro Queimado, que voltaria do inferno para beber o sangue da aristocracia e do clero. Padre Santiago também havia deixado de ser um problema para o desenvolvimento do meretrício desde o dia em que cometera suicídio, valendo-se de uma corda posta em volta de seu gordo pescoço a fim de livrar-se da melancolia causada pela cegueira psíquica causada pelas palavras de Enéas. Quantas mulheres vagando solitárias pelas ruas, todas presas fáceis, sem saberem que o diabólico caçador se encontrava à espreita. A fim de evitar que outras pessoas o surpreendessem durante o inevitável ataque, Licaon esgueirou-se pelas ruelas e becos mais imundos e sombrios, os mesmos onde ele certamente encontraria alguém do qual pessoa alguma sentiria falta ao ponto de queixar-se junto às autoridades locais.
Zarina já havia acomodado as crianças no berço que Abel improvisara na sala da torre, ao lado de uma velha cama, e, temerosa, aguardava pelo retorno do diabólico servo. De repente, escutou ela os guturais rosnados a se aproximarem, anunciando que Licaon havia retornado com alguma infeliz usurpada dos braços da noite. Com a destreza de um felino, Licaon escalou a torre do casarão tendo um corpo desfalecido de mulher lançado como coisa inútil sobre seu animalesco ombro. Ao adentrar violentamente a janela e invadir a sala da torre, Abel, em sua forma monstruosa, não foi capaz de reconhecer Zarina. Enraivecida, a criatura largou sobre alguns baús a prostituta que ainda se encontrava desacordada e avançou sobre a velha escrava, sem que a mesma encontrasse qualquer oportunidade de esquiva.
_ Licaon!!! – gritou Zarina no momento em que a fera a derrubou sobre o chão, tendo seu focinho frio e úmido a roçar-lhe o rosto, aspirando-lhe o odor do corpo, como se buscasse reconhecê-la.
Trêmula, Zarina levou uma das mãos lentamente à almofadinha que trazia em seu busto, poupando-se de qualquer movimento repentino, e da mesma retirou a agulha que se encontrava espetada, para logo em seguida furar dois de seus dedos e passá-los com extremo cuidado nas presas assustadoras do medonho ser.
Ainda em choque, a prostituta despertou e olhou ao seu redor, sem reconhecer em que lugar se encontrava. Correu então a mulher os olhos pelo recinto repleto de quinquilharias e tentou pôr-se de pé, sentindo seu corpo completamente dolorido pelo impacto que o mesmo havia sofrido ao ser largado por seu seqüestrador. De repente, a mulher novamente o viu, aquele mesmo ser que até então pensara ela limitar-se a uma terrível armadilha de sua própria mente. Orações, súplicas, nada fora capaz de servir-lhe de alento quando seus olhos vislumbraram o monstro que a atacara tomar a forma de um homem. Abel retornava aos poucos e sua vítima sentia a fatal lâmina da morte beijar-lhe as entranhas. Preferiu então a mulher tentar esconder-se por trás da velha mobília e descobrir o que pretendia seu raptor e a escrava que com ele confabulava.
_ Traga-me algumas roupas, Zarina. – pediu Abel com uma gentileza incompatível com a brutalidade daquela cena, após assumir seu disfarce humano por completo – É prudente que te acostumes a ver-me em pêlo, não pretendo arruinar novas peças de meu rico vestuário sempre que nossos filhos tiverem fome. E quanto a esta janela?! Como não pensei que Licaon a destruiria? Enéas de certo me deixaria petrificado pelo resto de meus dias caso encontrasse seu belo vitral de cristais venezianos estilhaçado... Deveras, tratava-se de uma obra de arte aquela representação de Ofélia afogada dentre os nenúfares, após ser rejeitada por Hamlet.... Mas, já que Enéas, e muito menos Shakespeare, se encontram mais dentre os vivos e como a janela já se achava danificada, deixemos tais miudezas para lá. Da próxima vez, usemos a cocheira.
Zarina retirou-se em silêncio da torre e passou cabisbaixa diante da mulher que ora chorava copiosamente, ora gritava por socorro, deixando Abel a sós com a prostituta. A mulher tremia como um animal acuado, todavia, seu pueril modo de esconder-se e desmedido pavor não foram capazes de despertar em Abel compaixão suficiente para que ele deixasse de agarrá-la pelos cabelos e a arrastasse para o lado da cama previamente instalada na torre, fazendo com que sua vítima se entregasse totalmente a um desespero inimaginável.
_ Cala-te, infeliz! Queres assustar as crianças?! – ordenou Abel, sem demonstrar perturbação nenhuma em seu tom de voz, fazendo com que a mulher fitasse com estranheza o berço posto junto à cama.
Temendo ser gravemente molestada, a mulher preferiu atender as ordens daquele homem sobrenatural e permaneceu sentada sobre o chão de pedra fria, tentando concentrar-se a fim de conter o choro, enquanto observava atentamente seu agressor. Naquele instante, teve ela certeza do quanto o diabo poderia ser sedutor, quase se pegou a admirar aquele corpo primoroso e repleto de vigor, aquela pele que simulava sobre si um falseado aspecto de delicadeza, aquele rosto equilibrado e belo que escondia por detrás dos olhos um demônio insensível. Então, na tentativa de salvar a qualquer custo sua própria vida, a mulher chamou a atenção de Abel e tentou com o mesmo negociar valendo-se da única moeda de troca que conhecia, a luxúria.
_ Senhor... Escuta-me! Farei tudo que desejares... Já não sou tão jovem, os pudores ficaram para trás, em minha mocidade, entende? Despido como te encontras agora, poderemos poupar teu precioso tempo... Nada cobrarei por meus serviços. Não será nenhum sacrifício, para esta desgraçada que sou, deitar com vossa senhoria... És tão belo!
_ Eu não quero teu corpo... – respondeu Abel, sem encarar a mulher.
_ Então... Bem, tenho pouco dinheiro... E o que isto importa? Como sou tola! É mais justo que o senhor...
_ Eu não quero teu dinheiro... – interrompeu Abel as palavras da mulher como se tudo que ela dissesse de nada fosse servir para salvar-lhe a vida.
_ Nada fiz contra ti! Deixa-me viver! – gritou a mulher, certa da própria morte.
_ Eu não quero tua vida... – revidou Abel, sem dar menor importância às súplicas que lhes eram dirigidas.
_ Então... O que queres?! – perguntou a prostituta, sentindo o coração apertar dentro de seu inquieto peito.
_ Bem... – disse Abel acomodando-se ao lado da mulher e afrouxando os laços que prendiam a parte dianteira de seu vestido – Quero apenas que tu amamentes meus filhos...
_ Como?! Não posso... Jamais fui parideira... Não tenho leite... – protestou a mulher, sentindo o fôlego rarear em seus pulmões.
_ Eles não se importam, querida...
_ Eu vi o senhor... O senhor é o diabo!
_ Talvez eu realmente o seja, mas, quanto a meus filhos, não te preocupes... São dois anjinhos. – lançou Abel, fazendo a mulher quase sentir nos ossos a frialdade daquele sorriso assassino.
Ao retornar com as roupas que Abel havia solicitado, Zarina atirou-as ao chão e tapou os ouvidos a fim de não escutar os desesperados pedidos de socorro da pobre mulher. Sentindo-se perversa e cruel por compactuar com tão vil assassinato, a velha escrava preferiu mais uma vez ausentar-se da torre, deixando Abel vestindo-se com tranqüilidade e esmero, enquanto a prostituta a xingava de bruxa maldita e negra dos infernos.
_ Livra-te destes trapos! – exigiu Abel, demonstrando certa impaciência.
Repentinamente, um brilho acendeu nos olhos da inocente vítima. Procurou ela retirar as roupas às pressas, sem se importar mais com a excentricidade daquele cenário de horrores.
_ Sim! Gostarás de meus serviços! Quando terminarmos, partirei e nada falarei sobre esta noite! Sou famosa dentre meus clientes casados por minha discrição.
Após ficar completamente despida, a mulher atirou-se nos braços de Abel e tentou beijar-lhe a boca, gesto este que ele recusou terminantemente tanto pela ausência de libido quanto pelo receio de petrificar-se ali mesmo.
_ Deita-te sobre a cama. – ordenou Abel, sendo prontamente atendido pela mulher, enquanto esta o observava partindo um velho lençol em quatro tiras.
_ O que pretendes fazer, senhor? – indagou a mulher, sentindo a proximidade de seu terrível fim.
_ Não gostas deste jeito? – perguntou Abel sentando-se ao lado da mulher e massageando-lhe os mamilos rijos, não por volúpia, mas por temor.
_ ...Claro. – respondeu a mulher engolindo uma porção de saliva seca.
Ao ver-se completamente vulnerável, tendo mãos e pernas imobilizadas por potentes nós, a meretriz chorou copiosamente e pediu que Abel não a matasse. Sem incomodar-se com o clamor da mulher, o homem-gárgula levou o dedo indicador aos lábios, sugerindo que sua refém fizesse silêncio. Em seguida, Abel caminhou até o berço e pegou o jovem filho de Alba em seus braços.
_ O que farás?! – quis saber a mulher, envergonhada por sua nudez exposta diante da infantil presença.
_ Até onde vai tua ignorância?! Não me escutaste?! Amamentarás meus filhos! – gritou Abel, trazendo para junto de seu peito a cabecinha do pequenino herdeiro de Enéas.
_ Criatura abominável! Monstro infernal! Eu não tenho leite! – berrou a meretriz debatendo-se sobre a cama, na tentativa inútil de livrar-se das amarras.
_ Detalhe meramente descartável, querida dama-da-noite!
Sem mais perder tempo, Abel segurou o recém-nascido deitado sobre o peito da mulher. Instintivamente, o jovenzinho abocanhou o seio da prostituta que lhe estava sendo oferecido e pôs-se a sugá-lo com força, arrebentando os poros dos vulgares mamilos, deixando escorrer por sua faminta garganta o líquido vivificante e morno, enquanto a mulher gritava, experimentando uma indescritível dor.
_ Como te chamas, meu bem?! – perguntou Abel, rindo friamente.
_ ...Carola, senhor! Por Deus, poupa-me desta tortura! Que fel tem esta maldita criança nos lábios?! – admirou-se atordoada a mulher, como se descobrisse através do próprio sofrimento que não se tratava aquele menino de uma cria humana.
_ Acalma-te, Carola. Dentro de alguns dias, quando não restar mais sangue algum em tuas veias, terás a tua tão ambicionada paz... Morrerás, querida.
Saciado o pequeno filho de Enéas, teve então sua vez de satisfazer o apetite voraz a garotinha. Quando esta terminou de sorver sangue o suficiente para apetecê-la, Abel a deitou novamente ao lado de seu satisfeito irmão, que já dormia. Atordoada, Carola ainda sentiu as potentes mãos da Abel arrastando-a até a porta de um alçapão, onde ela foi atirada em um cubículo repleto de insetos asquerosos e lá trancafiada, para que noite após noite a tortura se renovasse, até que a vida desistisse de fazer morada em um corpo adoecido por descomunal padecimento.
A meretriz de nome Carola veio a falecer e, quem sabe, encontrar alívio, apenas duas semanas após seu rapto. Talvez, se houvesse recusado comer dos restos que lhes eram oferecidos, a morte tivesse vindo resgatá-la bem mais cedo. E, devido ao inevitável passamento de Carola, o ritual que lhe arrancou dolorosamente a vida continuou a ser repetido por muitas e muitas noites. Através dos dedos furados de Zarina, Abel vez ou outra assumia a forma de Licaon e então corria Nova Friburgo e suas redondezas em busca do sangue que mantinha seus pequenos donos vivos. Durante cinco anos estenderam-se as caçadas, inúmeras mulheres desapareceram por todas as localidades próximas ao Casarão Caronte e nunca se descobriu coisa alguma acerca do sumiço de tantas pessoas. Todas elas não passavam de fantasmas banidos do convívio de seus iguais, criaturas invisíveis que apenas descobriram a razão de suas tristes vidas quando sentiram suas existências escoarem para dentro de dois famintos abismos. Era inacreditável como havia pessoas no mundo, como havia sangue o suficiente para manter vivos os dois filhos do anjo que um dia cometera o proibido ato de apaixonar-se por uma natureza que ao mundo só viera para empanturrar-lhe o mortal desejo de devorar um número indescritível de almas. Mas o sangue já não bastava para aquelas duas crianças dotadas do poder de arbitrar sobre vidas humanas. Quando elas descobriram o prazeroso sabor da carne, a morte acabara por ganhar dois nomes: Ortros e Neméia.







Terça-feira, 30 de Outubro de 2007


Alba não sabia ao certo se poderia realmente chamar de vida aquele cárcere de solidão no qual se encontrava aprisionada. O amor de Zarina e a presença constante de Abel não eram suficientes para livrá-la da sensação de completo abandono, de tristeza absoluta. Chorar e gritar às escondidas, em muitos dos quartos do casarão, protegida pela espessura de suas portas e paredes, já havia se tornado costumeiro e indispensável à manutenção de sua sanidade. Jamais conseguiria chamar de lar aquela morada da morte, aquele sepulcro onde agora ela jazia em vida. Haveria algum dia florescido amor pelos corredores daquele palacete? Teriam Amúlio Caronte e Réia Sílvia, pais de Enéas, experimentado em suas vidas amor autêntico? Alba temia passar o resto de seus dias enclausurada em uma tumba totalmente desprovida de qualquer lampejo de bondade, impregnada apenas de tortura e dor.
_ Abel, o que houve com os pais de Enéas? – quis saber Alba certa noite, obtendo de seu servo as costumeiras respostas francas e sem o mínimo de hesitação.
_ Amúlio e Réia... Eles eram irmãos carnais, gêmeos... Cuidei dos dois desde que nasceram. – respondeu Abel, causando grande espanto em Alba.
_ De que falas, Abel?! Enéas é fruto de um incesto?! Então, por isso... Deus, a maldição do lobo! – admirou-se Alba, levando a mão à boca, transtornada e assustada.
_ Juro que, caso eu tivesse senso de humor, agora certamente estaria às gargalhadas! – desdenhou Abel das fantasiosas elucubrações de Alba – Não há maldição do lobo nenhuma, senhora, isto não passa de folclore, de histórias contadas por velhas ciganas. Enéas nasceu hemanubis por que seus genitores também o eram. É necessário que tu compreendas, Alba, que as regras sociais de tua espécie de nada servem para a linhagem da qual Enéas descendeu... Quando se vive em uma alcatéia, copula-se e procria-se com aqueles que são do bando: irmãos, primos, tios, pais, filhos... Desde que me lembro, a Alcatéia Caronte jamais permitiu que qualquer hemanubis de uma outra família viesse fazer morada em seu covil.
Alba caminhou por seu quarto apreensiva, tentando fazer com que sua circulação sangüínea dissolvesse aquela história em algo mais fácil de ser digerido. Aquele não era seu mundo. Parecia-lhe uma tarefa árdua e praticamente impossível aceitar com naturalidade o grotesco universo que estava se abrindo diante de seus olhos como um pesadelo palpável, real. Mas, apesar de sua negação a tudo que estava ouvindo da boca do homem-gárgula, acabou por decidir escutar tudo de uma vez, não faria sentido continuar deglutindo aquela medonha história aos poucos, precisava tragá-la por inteiro, sem inúteis intervalos.
_ Então, o que houve com eles, Abel? O que houve com os pais de Enéas? Retornaram para a Europa... Para junto de sua alcatéia?
_ Não. Eles morreram. – respondeu Abel com sua gélida insensibilidade.
_ Morreram...? Como? – condoeu-se Alba, apesar de não ter conhecido os falecidos pais de seu anjo.
_ Enéas os encontrou na floresta do outro lado deste monte um dia após sua lupercália... um dia após o futuro jovem barão de Nova Friburgo ter se tornado um hemanubis completo. Seus pais devoraram-se até a morte, atacaram-se ferozmente até que não houvesse mais meios de serem salvos pela incrível regeneração típica de um hemanubis. Não sei o que houve, eles nutriam grande estima e respeito entre si... Nem mesmo Enéas entendeu porque seus pais tiraram a vida um do outro.
_ Creio que eles cometeram suicídio... Não suportavam mais suas próprias vidas e, então, decidiram morrer... – disse Alba, sentando-se sobre a cama a fim de restabelecer-se do impacto daquelas revelações.
_ Bem, não sei dizer ao certo, senhora...
_ Assassinatos, incesto, canibalismo, suicídio... Deus do céu! O que fiz de minha vida?! Como tudo isso pode ser verdade, Abel? – lamentou Alba, tendo os olhos marejados.
_ Quid verati est, Alba? Vamos, o que é a verdade? – perguntou Abel, sentando-se sobre à cama, junto à sua senhora.
_ Eu não sei mais, Abel... – respondeu Alba, fitando os olhos sem vida de Abel e deixando que uma lágrima corresse por seu rosto belo e naufragado em mil lamentos.
_ Acho que já conversamos demais, senhora. Irei ajudar Zarina com os afazeres domésticos. A propósito, faz muitas noites que não durmo, seria proveitoso caso a senhora permitisse que eu me petrificasse esta noite.
_ E o que devo fazer...?
_ Primeiro, precisarei de uma gota de teu sangue a fim de que eu recobre minha forma bestial, e, em seguida, apenas ingerir um pouco de tua saliva. Todavia, caso desejes ter a estátua de um belo mancebo a ornamentar o salão principal da Casa Caronte, bastar-me-á tua saliva, senhora, e tornar-me-ei a escultura de um deus pronta para encher os olhos de teus futuros convidados. – desdenhou Abel da solidão de sua dona.
_ Por que brincas comigo? Não podes estar a dizer a verdade... – duvidou Alba das palavras do servo.
_ Não te esqueças, Alba... Eu não minto.
Após pedir licença e fazer uma reverência à sua senhora, Abel retirou-se do quarto. Alba então lançou-se sobre a cama e abraçou com todas as suas forças o travesseiro, como se tal gesto fosse capaz de trazer-lhe paz e conforto. Era inconcebível para ela, em sua tenra juventude, ter se tornado dona de tudo aquilo que um dia pertencera ao homem, ao ser, que outrora amara. Enéas era possuidor de muitos dotes, o que permitia que Abel deixasse o Casarão uma vez por mês, tomando o caminho secreto e inacessível – para aqueles que o desconheciam – através da mata espessa e, de suas rápidas viagens, sempre retornava trazendo alimentos, especiarias, jóias, perfumes, sapatos, roupas finas, vestidos... muitos vestidos. Mas todo aquele luxo não servia de consolo para a pobre amante de Enéas Caronte, sem o ar da presença de seu hediondo anjo enamorado, nada seria capaz de trazer-lhe consolação, de trazer-lhe alívio. Bastaria uma única palavra de Enéas e o coração de Alba tornar-se-ia novamente leve, sua ausência era um golpe cotidiano no peito da jovem Gobete, e seu silêncio, a mais ensurdecedora das vozes. Vagar pelos corredores do casarão, acabou por se tornar para Alba um hábito que dava-lhe o aspecto de uma sonâmbula trajada para uma festa na corte. E Zarina, perdida no turbilhão afetivo que prendia-lhe à sua afilhada, entregava-se à mesma triste sorte, a de viver na clausura, escondida do mundo, condenada a nunca mais manter o menor contato com outro ser humano.
Com o passar das semanas, que arrastavam-se feito vermes assombrosos e gigantescos, Alba caiu doente. Pouco comia e cada vez mais freqüentemente recusava-se a sair da cama, encontrava-se anêmica e regurgitava qualquer comida ou líquido que viesse a ingerir. Zarina tentou de tudo, utilizou-se de todos os segredos de sua alquimia de cozinha, com seus chás e remédios caseiros, valeu-se inclusive de seus rituais pagãos e rezas africanas, mas nada parecia capaz de fazer com que Alba recobrasse a saúde. Enquanto Zarina encontrava-se completamente atordoada pela enfermidade de sua menina, Abel assistia a tudo com assustadora indiferença, como se soubesse ele que as tentativas da velha escrava de salvar a vida de Alba seriam todas em vão.
_ Não te preocupes, Alba. Ficarás curada. – disse Abel certa noite após sentar-se ao lado de sua dona, aproveitando-se da ausência da velha Zarina, como se ele soubesse de algo que o discernimento de Alba ainda ignorava.
_ O que tenho, Abel? – sussurrou Alba tendo seu rosto empalidecido e as pálpebras a tremularem sobre olhos cujas íris se encontravam escondidas.
_ Aconteceu com todas, senhora, logo isto passará. Mas, não posso garantir-te que viverás por muito tempo... És uma humana, é provável que teu corpo não resista ao que está por vir. O problema, Alba, é que um hemanubis não é apenas vigoroso, ávido por caças, longevo e sedutor... Ele também é fértil, cara senhora, muito fértil. – respondeu Abel, encostando sua boca ao ouvido da jovem agonizante, como um fantasma a murmurar.
Não tardou para que as palavras de Abel se confirmassem, Alba estava grávida. Com o tempo, a menina curou-se dos enjôos, dos desmaios, dos delírios e já não sentia mais febre, porém, continuava anêmica, tendo a pele amarelada e os olhos enegrecidos, a gravidez não a deixara mais bela.
A barriga logo surgiu e Zarina não perdeu tempo em tricotar roupinhas para a criança que estava por vir. O homem-de-pedra recebeu a incumbência de preparar um mimoso berçário do modo como Zarina o instruíra. A velha escrava nutria sinceras esperanças de que a vinda de um filho trouxesse um pouco de luz para o alquebrado coração de sua amada menina. Todavia, de certa forma, antes mesmo da criança nascer, Alba já se encontrava experimentando de uma certa felicidade, pois estava concebendo o filho daquele que amou como apenas se ama uma única vez na vida... e na morte. Mas, algo a incomodava, a anemia incessante a tornava desconfiada acerca da natureza da criança que levava em seu ventre, Alba temia amar o próprio filho, temia amar por uma segunda vez uma criatura amaldiçoada e novamente cair em desgraça. Porém, seria uma tarefa impossível não amar aquele filho, ela podia senti-lo pulsando dentro de si, como amoroso músculo, um doce pedaço de carne surgido de uma inacreditável união. A cada novo dia, sua barriga ganhava novos contornos, o que a deixava cotidianamente emocionada, em estado de graça. Apesar do mal e do fel, Alba queria aquele filho, e estava preparada para recebê-lo.
E, naquele noite singular, tudo aconteceu.
Primeiro uma pontada lancinante em seu ventre, depois, uma forte dor que parecia querer destroçá-la por dentro, fizeram com que Alba despertasse de seu sono e caísse em uma derradeira e angustiada provação. A jovem tentou dar alguns passos a partir de sua cama, apoiando-se nos móveis, mas acabou indo de encontro ao chão, para logo em seguida pôr-se a vomitar sofregamente. Uma angústia colossal tomava conta de seu espírito enquanto assistia impotente seu corpo a debater-se, incapaz de controlar os próprios reflexos. A dor. Alba gritou por Zarina em um dado segundo no qual recobrara o poder sobre si mesma, sentindo seu sangue ferver e correr veloz através de veias e artérias, fazendo com que ela experimentasse uma sensação como nenhuma outra, insuportável. Pouco tempo após ouvirem as súplicas de Alba, Zarina e Abel entraram às pressas no quarto, encontrando a jovem Gobete agonizando no chão, sofrendo fortes espasmos musculares e apresentando uma preocupante hemorragia nasal. Limitada por sua humanidade, Zarina viu-se prisioneira de seu desespero, incapaz de ajudar sua menina naquele tenebroso momento de aflição.Todavia Abel, em sua frieza mineral, não tardou em pegar Alba nos braços e deitá-la sobre a cama, pondo uma escova dentre os dentes de sua senhora a fim de que a mesma não contraísse novos ferimentos. Após prender seus longos cabelos castanhos, Abel voltou-se para Zarina e gritou:
_ Desperta desta letargia, maldita escrava! Traz-me agora mesmo algumas toalhas e água quente. Teremos uma longa noite!
Como se de repente se libertasse de um estado hipnótico, Zarina apressou-se em seguir as instruções de Abel e correu às pressas do quarto. Aproveitando a ausência da velha ama-de-leite, Abel acomodou-se deitado ao lado de Alba e passou o dorso de sua mão sobre a testa suada da menina, como se não se importasse com a dor de sua senhora.
_ Serás mãe, querida... – disse Abel sorrindo com seus dentes alvos e frios, para logo em seguida saltar da cama, arrancar com brutalidade a camisola de Alba, e abrir as pernas da mesma, deixando-as bem flexionadas.
_ Tire esta coisa de mim!!! – gritava Alba, enquanto Zarina apegava-se às suas orações ditas em um mal pronunciado latim mesclado ao dialeto africano falado em sua terra natal, suas mãos não eram fortes o suficiente para trazerem ao mundo o filho de sua querida menina.
_ Tire esta coisa de mim!!! – implorava Alba aos prantos, enquanto Abel forçava seu ventre com as duas mãos, a fim de que ela expelisse o feto.
_ Assim ambos morrerão, Alba e a criança! – interveio Zarina, temendo que aquele terrível espetáculo resultasse em uma provável tragédia.
_ Mantém-te fora disto, negra Zarina! Sei o que estou fazendo! – disse Abel, ignorando as súplicas da desesperada mulher.
_ Ele está a tirar-me a vida! Arranque-o de dentro de mim! Por favor!... Por favor!... – implorou Alba, castigada por indescritível dor.
_ Calma, senhora, ele está vindo. – disse Abel, não simplesmente para tranqüilizar a pobre mãe, mas porque tratava-se da verdade.
Então, repentinamente, a criança nasceu. Silenciosamente, sem chorar, o filho de Alba e Enéas chegou ao mundo. Ao tomar o pequenino em suas mãos, Zarina envolveu-o em cueiros e aproximou-se sorrindo de Alba.
_ Tiveste um lindo menino! – disse a ama, logo em seguida pondo cuidadosamente o recém-chegado dentro do berço que Abel havia construído.
_ Pronto, Alba. Acabou. – sentenciou Abel com sua voz seca.
_ Então... Por que a dor não passa?!... Morrerei! Ai, Deus! Toma-me em tuas divinas mãos de uma vez! Poupa-me desta tortura, Senhor! Deus...!!! – gritou Alba invadida por descomunal desespero.
_ O que está havendo, Abel?! – impacientou-se Zarina, tocando o ombro do homem-gárgula.
_ Acho que teremos gêmeos para esta noite, cara amiga. – respondeu Abel com seu sorriso incolor.
E mais uma vez fez-se o tremendo sacrifício. A dor. Alba já não possuía mais forças e a pressão que Abel imprimia sobre sua barriga seria suficiente para matar qualquer criança normal. O sofrimento apenas encontrou seu fim quando o choro infantil ecoou pelo quarto, anunciando a chegada de um novo visitante. Abel segurou a pequena criatura nos braços e disse:
_ Aproxima-te, Zarina. Ganhamos uma choramingas baronesa.
Zarina acolheu a pequenina garota com cuidadosos mimos e tratou com todo zelo e carinho da jovem hóspede do Casarão Caronte. Após lavar-se, Abel aproximou-se de Alba e sussurrou em seu ouvido para que ela não se preocupasse, pois ainda não morreria, ao menos não aquela noite. Esgotada, a jovem mãe ainda tentou encarar seu soturno servo, antes de cair exausta em sono profundo.
Antes que o dia raiasse, Abel ordenou à Zarina que esta fechasse todas as cortinas do Casarão. Mesmo sem entender direito o que Abel pretendia com aquilo, a velha senhora preferiu acatar as instruções daquele estranho homem pois até então ele havia se mostrado tremendamente hábil em tudo aquilo que fizera. Através do grosso cortinado, o sol não encontrou meios de invadir os corredores e cômodos do casarão. O dia permaneceu lá fora.
_ Queres ver teus filhos, meu bem? – Perguntou Zarina à Alba, assim que esta despertou dos terríveis sonhos que a atormentaram durante todo o repouso.
_ Ela não deseja vê-los, Zarina. – comentou Abel, com ares de malícia.
_ Qual a cor dos olhos deles, Zarina? – quis saber Alba, revelando em seu tom de voz que ainda se encontrava tremendamente debilitada.
Inocente, Zarina caminhou até o berço tendo um candelabro nas mãos e iluminou as crianças. Em seguida, retornou para Alba sorrindo e disse com pueril ternura:
_ Eles têm olhos lindos, cor-de-mel, parecem mais quatro pedras de topázio!
_ Não!!!... Meu Deus, por favor... Não!!! – lamentou Alba, entregando-se a uma comovente agonia.
_ Sinto muito, senhora. Mas, o que esperavas de teus filhos? Acreditavas que a tua natureza fraca e de vida curta iria sobrepujar a de um hemanubis? Teus pensamentos chegam a ser ingênuos... – esmiuçou com sua frialdade Abel as últimas esperanças de Alba.
_ De que falam? Por que nada me dizem? Não compreendo... Estas... Estas duas crianças...?!!! – exclamou Zarina, apavorada.
_ Estou preparada, Abel... Traga-os para mim. – disse Alba resoluta, com a firmeza de quem está prestes a partir sem olhar para trás.
_ Preparada para o que, filha de minha alma?! – quis saber a velha escrava liberta, prisioneira do Casarão Caronte, temendo o desconhecido.
_ Acalma-te, negra! Não precisas ser tão melíflua... Alba precisa apenas amamentar os dois... anjinhos. – lançou Abel, logo em seguida entregando as duas crianças à Alba para que esta as alimentasse.
_ Por favor, Abel, cuide bem deles e de Zarina... – pediu Alba emocionada, encarando com seus olhos úmidos e cheios de despedida o vazio semblante de Abel.
_ Claro, senhora. É esta a minha função. – respondeu o homem-gárgula com a prontidão de um verdadeiro lacaio.
_ Abel... Não deixe que eles matem pessoas ao crescerem... – pediu Alba, encarecidamente.
_ Isto eu não poderei prometer, senhora. É a natureza deles que os guiará. A morte dos humanos é necessária para que eles sobrevivam. – argumentou Abel, deixando claro que uma das últimas vontades de Alba seria em vão.
_ Juraste-me obediência! Ordeno que tu não permitas que eles matem pessoas! – irritou-se Alba, reunindo suas últimas forças a fim de demonstrar firmeza em suas palavras.
_ Acontece, senhora, que tu morrerás ainda hoje. Estas duas crianças serão meus novos donos... Quando eles chorarem de fome, estarão na verdade delegando-me uma primeira ordem, a de que Licaon deverá caçar. É o instinto primeiro daquele que nasce hemanubis, Alba, eu não poderei evitar...
Vendo que não teria como impedir o que já era um fato, Alba expôs os seios a fim de alimentar seus filhos. Enquanto as crianças mamavam, Alba murchava como uma vela que paulatinamente se extingue. Ao perceber que junto ao leite materno, as crianças também sugavam o sangue de Alba, Zarina ausentou-se do quarto correndo, sabendo-se incapaz de assistir com indiferença a vida de Alba sendo drenada pelo apetite feroz dos próprios filhos.
_ Ela pariu monstros! Eles bebem o sangue dela... Bebem o sangue dela! – gritou Zarina para si mesma ao chegar na cozinha, antes de cair desmaiada sobre a farinha que havia atirado ao chão durante seu desatino.


Desde então, dentre trevas, padeço. Doei minha própria vida para que meus filhos tivessem a oportunidade de trazerem um novo terror ao mundo. Minha história acabou aqui, e, para a infelicidade daqueles que possuíam carne nos ossos e sangue nas veias, aqui também teve início a história da prole de um anjo.